O envolvimento dos planos de saúde com o tratamento precoce

Dossiê recebido pela CPI acusa Prevent Senior de omitir mortes em estudo sobre a cloroquina, remédio que não funciona contra a covid-19. Empresa nega irregularidades

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Um dossiê elaborado por médicos e ex-médicos da Prevent Senior afirma que um estudo conduzido pela operadora de saúde em 2020 omitiu mortes de pacientes com o objetivo de demonstrar a eficácia de medicamentos como a hidroxicloroquina e a azitromicina contra a covid-19. O documento foi encaminhado à CPI da Covid no Senado, que tentou ouvir na quinta-feira (16) o diretor executivo da empresa, Pedro Benedito Batista Júnior, mas ele não compareceu à sessão. Seu depoimento foi remarcado para 22 de setembro.

Os remédios do chamado “kit covid” foram propagados pelo presidente Jair Bolsonaro durante toda a pandemia, embora pesquisas tenham demonstrado que eles não trazem benefícios para doentes infectados pelo novo coronavírus. Em abril de 2020, três dias depois da publicação do estudo, o próprio presidente divulgou em suas redes sociais seus resultados, dizendo que nenhum paciente morreu entre os que haviam tomado hidroxicloroquina. Segundo o dossiê, houve nove mortes, seis delas de pessoas tratadas com o kit. O documento diz ainda que os remédios foram administrados sem o consentimento dos pacientes.

Neste texto, o Nexo mostra o que dizem as denúncias enviadas à CPI e quais suspeitas vêm sendo investigadas envolvendo administradoras de planos de saúde em relação ao uso de tratamentos ineficazes.

O que é a Prevent Senior

A operadora de saúde foi criada no fim dos anos 1990 pelos irmãos Eduardo, que é médico geriatra, e Fernando Parrillo. Seu objetivo era oferecer planos individuais apenas para pessoas mais velhas. Em 1997, a empresa inaugurou o hospital Sancta Maggiore, que deu origem a uma rede com oito hospitais e quatro unidades de pronto-atendimento na capital e na Grande São Paulo.

Em 2020, a empresa teve um faturamento líquido de R$ 4,3 bilhões, 19% a mais do que no ano anterior. Também ampliou em 9% o número de clientes, quando alcançou 505 mil beneficiários — em junho de 2021, já eram 540 mil. Segundo dados da ANS (Agência Nacional de Saúde Suplementar), a Prevent Senior é o nono maior plano de saúde do país. As mensalidades para idosos podem variar de R$ 1.000 a R$ 2.000.

Especialistas do setor dizem que o investimento que o grupo faz em promoção à saúde e prevenção para evitar internações (que são caras para as operadoras) ajuda a explicar o sucesso da empresa.

No início da pandemia no Brasil, a Prevent Senior foi alvo de investigações pelo alto número de mortes por covid-19 entre seus pacientes. A primeira morte pela doença noticiada no país ocorreu em 16 de março, de um porteiro de 62 anos atendido pela operadora.

No começo de abril de 2020, os óbitos por covid-19 ocorridos nos estabelecimentos da rede privada representavam 58% de todos os registros no estado de São Paulo. A situação fez o então ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, criticar a empresa e sugerir uma intervenção no local.

“[O Sancta Maggiore] é um fenômeno porque um determinado empresário entendeu que deveria fazer um plano de saúde só para pessoas idosas. Como os idosos compram muito plano de saúde, ele pôs um preço mais baixo, fez uma carteira de plano de saúde muito idosa. E o hospital dele é inteirinho de idosos convalescentes. Entrou o coronavírus dentro de um hospital só de idosos e você tem hoje, ali dentro, um ponto fora da curva”, afirmou o então ministro, na época.

No final de março de 2020, a Secretaria Municipal de Saúde de São Paulo também chegou a pedir intervenção em três hospitais da rede, já que a fiscalização teria encontrado também problemas estruturais e sanitários. O hospital afirmou que a prefeitura tentava “faturar com a desgraça” e usava expedientes “desonestos, abusivos e inverídicos” para “causar pânico”.

Em abril daquele ano, o CEO da empresa, Fernando Parrillo, divulgou um vídeo em que pedia aos jornalistas que entrassem num dos hospitais do grupo para averiguar a situação e para que a opinião pública pudesse avaliar o trabalho da empresa. “Nós temos os laudos da prefeitura [mostrando] que não houve absolutamente nenhuma indicação de algo errado”, disse. Ele chamou Mandetta de irresponsável.

O estudo maquiado

Informações que constam no dossiê enviado à CPI, reveladas inicialmente pela GloboNews na quinta-feira (16), mostram que um dos diretores da empresa informou à equipe que os testes com hidroxicloroquina e azitromicina (um antibiótico) em pacientes com covid-19 iriam começar em 25 de março de 2020.

Na mensagem, ele pede que os pacientes e familiares não sejam avisados sobre o uso das medicações, prática que é vedada. O próprio protocolo do Ministério da Saúde, divulgado quatro dias antes, autorizava o uso da cloroquina em casos graves com o consentimento do paciente, que deveria ser avisado sobre os riscos do tratamento.

O estudo foi feito com 636 pessoas, das quais 412 receberam o “kit covid”. Os demais (224) não tomaram os remédios e serviram como um grupo controle, para que os resultados pudessem ser comparados. Segundo o estudo, a necessidade de hospitalização foi quase três vezes maior entre os que não receberam os medicamentos.

A conclusão também falava em ausência de graves efeitos colaterais. Os pesquisadores citaram apenas duas mortes ocorridas entre os que tomaram os remédios, mas dizem que elas ocorreram devido a uma “síndrome coronariana aguda” e a um “câncer metastático”.

Uma planilha incluída no dossiê, porém, mostra que, na verdade, ocorreram nove mortes ao longo do estudo, das quais seis estavam no grupo que recebeu hidroxicloroquina e azitromicina, e duas, no grupo controle — uma última aparece sem informações.

Em áudio anexado ao documento, o coordenador do estudo, o cardiologista Rodrigo Esper, que é diretor da Prevent Senior, pede para sua equipe revisar os dados e diz que eles “vão mudar a trajetória da medicina nos próximos meses no mundo”.

Ele afirma ainda ter conversado com o microbiologista francês Didier Raoult, que teria citado o estudo da Prevent Senior em sua conta no Twitter. Raoult foi o primeiro a defender o uso da cloroquina, mas depois reconheceu que os resultados do estudo que conduziu estavam errados e que a substância não funcionava.

Esper ainda cita na mensagem de áudio o presidente Bolsonaro: “Até o presidente da República citou a gente (...). Vamos [nos] reunir às 17h hoje, numa videoconferência, todos, pra gente ajustar os parafusos e todo mundo falar a mesma língua e ter um levantamento perfeito do dado”, disse.

A ligação com Bolsonaro

Segundo o dossiê, o estudo foi o desdobramento de um acordo entre a Prevent Senior e Bolsonaro para disseminar a cloroquina. Três dias depois da publicação do estudo, o presidente citou dados diferentes, mas disse tê-los recebido diretamente da empresa.

Em 18 de abril de 2020, ele publicou em seu perfil no Facebook: “Segundo o CEO Fernando Parrillo, a Prevent Senior reduziu de 14 para 7 dias o tempo de uso de respiradores e divulgou hoje, às 1:40 da manhã, o complemento de um levantamento clínico feito”.

Os dados eram: “De um grupo de 636 pacientes acompanhados pelos médicos, 224 NÃO fizeram uso da HIDROXICLOROQUINA. Destes, 12 foram hospitalizados e 5 faleceram. Já dos 412 que optaram pelo medicamento, somente 8 foram internados e, além de não serem entubados, o número de óbitos foi ZERO. O estudo completo será publicado em breve!”.

O debate sobre a cloroquina foi superado em outros países e já há consenso científico de que o remédio não funciona para a covid-19, devido a uma série de estudos que não apontou seu benefício. As principais entidades de saúde nos Estados Unidos e na Europa não recomendam o seu uso. No Brasil, várias associações médicas se posicionaram da mesma forma.

O uso de tratamento precoce

A Prevent Senior passou a ser investigada no início de 2021 pelo Ministério Público de São Paulo devido às suspeitas de distribuir “kits covid” mesmo para pacientes sem a doença, forçar médicos a receitar os medicamentos ineficazes e realizar teste sem o aval dos doentes.

Em março, os promotores também receberam a denúncia de que a empresa usava a flutamida, um remédio para combater câncer de próstata, em pacientes com covid-19. Em resposta, a Prevent Senior disse não indicar nenhum medicamento “em massa” aos pacientes.

Um guia médico da operadora obtido pela GloboNews e que é usado por profissionais que fazem teleconsultas mostra que a cloroquina e a ivermectina continuam sendo prescritas. Em nota técnica enviada à CPI da Covid, em julho de 2021, o Ministério da Saúde reconhece que a cloroquina e sua derivada hidroxicloroquina não têm eficácia contra a covid-19 e, por isso, não são recomendados.

Mas o uso continua acontecendo também em outras operadoras, como a Hapvida. Em maio de 2020, ela foi denunciada ao Conselho Regional de Medicina por um médico no Ceará que alegava ter sido demitido por não prescrever o “kit covid”. O Ministério Público passou a investigar o caso, e a empresa chegou a ser multada em R$ 468 mil, mas recorreu.

Quarto maior plano de saúde do Brasil, com forte presença no Nordeste, a Hapvida tinha até junho 2,7 milhões de beneficiários, segundo a ANS. Ela foi fundada em 1993, por um médico oncologista.

Dados enviados à CPI da Covid mostram que a empresa comprou 2,3 milhões de caixas de cloroquina e 1,3 milhão de caixas de ivermectina entre março de 2020 e maio de 2021. Um levantamento do Repórter Brasil publicado na quinta-feira (16) revela que, apenas em março de 2021, a Hapvida adquiriu mais de 1 milhão de caixas de cloroquina, 15 vezes o que havia comprado no ano anterior, indicando que continua receitando o produto.

O que dizem as empresas

A Prevent Senior afirmou, em nota, que os autores do dossiê visam “desgastar a imagem” da empresa e que investiga o caso para descobrir os responsáveis. Ela disse que respeita a autonomia dos médicos e que atua para “salvar milhares de vidas”.

Segundo a empresa, os números entregues à CPI da Covid mostram que a taxa de mortalidade de pacientes com covid-19 em seus hospitais é menor do que em outros locais. Ela diz ainda que “sempre atuou dentro dos parâmetros éticos e legais e, sobretudo, com muito respeito aos beneficiários” e que vai esclarecer os questionamentos às autoridades competentes.

Também em nota, a Hapvida afirmou ao Repórter Brasil que “respeita a soberania médica e que todos os tratamentos são de inteira autonomia do profissional, decididos em comum acordo com os pacientes”.

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