Derrota, debandada e protestos: a crise do governo argentino

Presidente Alberto Fernández sofre revés em eleições primárias e vê aliados ‘kirchneristas’ entregarem cargos do alto escalão

    Onze altos funcionários do governo argentino, incluindo cinco ministros, entregaram seus cargos ao presidente Alberto Fernández desde quinta-feira (15), escancarando uma crise de governabilidade que afeta o país vizinho.

    Essa crise é provocada pelo fato de o governo Fernández, que é de esquerda, estar sofrendo com ataques que partem de aliados “kirchneristas”, nome dado à corrente que está ainda mais à esquerda e é encabeçada por Cristina Kirchner.

    Primeira-dama entre 2003 e 2007, Cristina foi presidente da Argentina entre 2007 e 2015 e, desde 2019, é vice de Fernández, atuando como uma espécie de fiadora do atual governo junto aos movimentos sociais e sindicais ligados ao populismo peronista.

    Neste texto, o Nexo explica o que desatou a crise entre presidente e por sua vice e quais as perspectivas para um país que se aproxima das eleições legislativas nacionais de 14 de novembro, num contexto de pandemia e desaceleração da economia.

    O peso das primárias

    O detonador da crise foi o mau desempenho da coligação governista “Frente de Todos” nas chamadas Paso (Primárias Abertas, Simultâneas e Obrigatórias), realizadas no dia 12 de setembro.

    As Paso foram criadas em 2009 como uma espécie de peneira para selecionar apenas os candidatos mais competitivos, em todos os setores políticos. Só passa adiante e participa para valer das eleições legislativas de 14 de novembro quem obtiver pelo menos 1,5% dos votos nessa fase seletiva.

    O resultado das Paso é visto como um ensaio geral para a eleição real, e também como um termômetro da aprovação ou da rejeição geral do governo de turno, uma vez que o comparecimento dos eleitores nessas primárias é obrigatório.

    Nas eleições legislativas de 14 de novembro, metade da Câmara dos Deputados será renovada, com 127 assentos em jogo. Além disso, um terço do Senado será trocado, com 24 assentos em jogo.

    Nas primárias, a coligação de esquerda “perdeu” em 18 das 24 províncias (estados) do país, incluindo Buenos Aires, que é um tradicional reduto peronista – portanto do setor ligado a Cristina e a Alberto –, que concentra 40% dos eleitores do país.

    A oposição está coligada numa frente chamada Juntos pela Mudança, que é liderada pelo ex-presidente Maurício Macri (2015-2019), de direita. O triunfo desse setor deixa o atual prefeito da capital, Horacio Rodríguez Larreta – que é do mesmo partido de Macri, o Proposta Republicana –, bem posicionado para disputar a presidência em 27 de outubro de 2023 contra um peronismo baqueado, que ficou dez pontos percentuais atrás de seus adversários, na soma total de votos destas Paso.

    Se o resultado dessas primárias se mantiver nas eleições legislativas de 14 de novembro, os governistas correm o risco de perder o controle do Senado e deixar de ter a maior bancada na Câmara dos Deputados, criando uma situação de pouca governabilidade no ano que antecede as eleições presidenciais.

    O racha interno

    Os “kirchneristas” que compõem a ala mais à esquerda do governo consideram que o presidente Alberto Fernández está fazendo com que todos os candidatos desse setor paguem um preço eleitoral muito alto pelos maus resultados de sua gestão.

    Na visão dos “kirchneristas”, o presidente deveria relaxar o rigor fiscal e aumentar os gastos públicos para os argentinos mais pobres. A gestão do presidente nessa área é considerada excessivamente conservadora pelos setores mais à esquerda do gabinete e do Congresso.

    Esse setor “kirchnerista” identifica dois principais culpados pela situação, além do próprio presidente: o chefe de gabinete, Santiago Cafiero, e o ministro da Economia, Martin Guzmán. A pressão interna era para que ambos fossem substituídos. Mas, como homens de confiança de Fernández, permaneceram, e isso levou à debandada dos “kirchneristas” insatisfeitos.

    O “kirchnerismo” é forte e influente no governo de Fernández porque sua matriarca política, Cristina Kirchner, também o é. A ex-presidente argentina tem mais personalidade e mais popularidade que Fernández, mas preferiu sair como vice dele na chapa, sob o argumento de que buscava uma aliança mais ampla e representativa entre as esquerdas.

    Temor de traição

    Fernández tinha programado duas viagens internacionais na sequência das primárias, mas teria mudado os planos por se sentir ameaçado pela própria vice. De acordo com relatos da imprensa, o presidente não quer que Cristina assuma o cargo agora, em sua ausência, num momento em que ele aparece enfraquecido e assediado por seus próprios aliados.

    Os deslocamentos seriam para o México nesta sexta-feira (17), onde participaria da Celac (Cúpula dos Estados da América Latina e do Caribe) e, na sequência, para Nova York, onde, no dia 21 de setembro, discursaria na Assembleia Geral das Nações Unidas.

    “Não sou eu quem põe o presidente em xeque. É o resultado eleitoral”, disse Cristina após a derrota da esquerda nas primárias e a debandada dos ministros leais a ela. A vice publicou uma carta dirigida ao presidente, na qual parece emparedá-lo pelo que classifica como “uma derrota eleitoral sem precedentes para o peronismo”.

    Fernández, por sua vez, tenta conter o estrago externo, provocado pela Paso, e interno, provocado pelo acirramento das tensões com Cristina. Em tom conciliador, ele disse em suas redes que “não é tempo para expor disputas”.

    Diante das baixas, o presidente argentino deve anunciar em breve uma inevitável reforma ministerial. Além disso, deve anunciar um pacote de medidas econômicas, que vai revelar o quão suscetível ele está à pressão de Cristina e do “kirchnerismo”.

    As mudanças devem ocorrer sob pressão do gabinete e das ruas. Nesta quinta-feira (16), movimentos sociais e sindicais saíram às ruas de Buenos Aires para pressionar o presidente a robustecer os programas de ajuda alimentar e econômica aos mais pobres, especialmente num contexto de pandemia.

    Até esta sexta-feira (17), a Argentina era o terceiro país das Américas em número absoluto de contaminados pela covid-19 (5,2 milhões), mas não figurava entre os quatro primeiros em número de mortos. Até a mesma data, 41,82% da população argentina estava totalmente imunizada, contra 36% no Brasil, 73% no Uruguai e 31% na média mundial.

    PARA CONTINUAR LENDO,
    TORNE-SE UM ASSINANTE

    Tenha acesso ilimitado e apoie o jornalismo independente de qualidade

    VOCÊ PODE CANCELAR QUANDO QUISER
    SEM DIFICULDADES

    Já é assinante, entre aqui

    Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project.