Os desencontros na vacinação 8 meses após seu início no Brasil

Disputas entre governos federal e estaduais causam ruídos sobre critérios de aplicação da segunda e terceira doses, assim como na imunização de adolescentes. Ministro espalha desinformação

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O avanço da vacinação, oito meses após seu início no país, vem proporcionando um momento de arrefecimento da pandemia de covid-19. Entre atrasos e suspeitas de corrupção investigadas pela CPI da Covid no Senado, quase 66% dos brasileiros haviam recebido pelo menos uma dose de imunizante, e 36,5% tinham completado a proteção até quinta-feira (16).

Uma disputa permanente entre Ministério da Saúde e governos estaduais, no entanto, gera impasses e desencontros. Há falta de vacinas. Falta também clareza sobre reduzir ou não intervalos entre a aplicação de uma dose e outra, sobre dar ou não uma terceira dose de reforço a grupos vulneráveis e sobre imunizar ou não adolescentes.

Neste texto, o Nexo apresenta quatro pontos que causam ruídos de comunicação e acabam por deixar a população desorientada num momento crucial para a superação de uma crise sanitária que já matou quase 600 mil pessoas no Brasil.

Antecipação da segunda dose

Ministro da Saúde, Marcelo Queiroga anunciou em agosto que o intervalo entre a aplicação das duas doses dos imunizantes da Pfizer e da Oxford/AstraZeneca seria reduzido de 12 para 8 semanas, a partir desta quarta-feira (15). A ideia de reduzir o intervalo entre as duas doses foi levantada pelo ministério como forma de reduzir os impactos da variante delta do coronavírus, que é mais transmissível e já é responsável pela maior parte das infecções no país. Tomar só uma dose da vacina oferece proteção reduzida contra a covid-19, por isso a segunda dose é importante para completar a imunização.

No entanto, a falta de imunizantes inviabilizou a mudança no calendário de vacinação em ao menos seis estados — São Paulo, Bahia, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Espírito Santo e Rio Grande do Norte —, segundo o jornal Folha de S.Paulo.

Outros sete governos estaduais, por sua vez, diminuíram o intervalo para a aplicação da segunda dose, com novos prazos que variam de quatro a dez semanas. A depender do fornecimento dos imunizantes, entretanto, é possível que essas unidades federativas tenham que retomar o antigo cronograma.

Há ainda 11 estados que aguardam mais orientações do Ministério da Saúde sobre o que fazer em relação à questão. No Plano Nacional de Operacionalização da Vacinação contra covid-19, atualizado na segunda-feira (13), o intervalo indicado continua sendo de 12 semanas. Na quarta-feira (15), a pasta decidiu manter essa recomendação, contrariando o que havia sido anunciado antes.

AstraZeneca em falta

Desde o começo de setembro, há relatos de desabastecimento do imunizante da AstraZeneca, desenvolvido em parceria com a Universidade de Oxford e produzido no Brasil pela Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz), ligada ao Ministério da Saúde. Em pelo menos cinco estados, a falta da vacina fez com que a aplicação da segunda dose fosse interrompida, segundo levantamento do G1.

A escassez do imunizante foi causada por um problema na linha de produção. A Fiocruz ficou duas semanas sem fabricar a vacina devido ao atraso na entrega de um insumo que é importado da China. O órgão disse que 15 milhões de doses começariam a ser distribuídas a partir de segunda-feira (13).

O governador de São Paulo, João Doria (PSDB), chegou a afirmar que entraria com uma ação no Supremo Tribunal Federal para exigir a entrega de vacinas da AstraZeneca, caso o envio não fosse regularizado até esta quarta-feira (15). Nessa data, o estado recebeu um lote de 456 mil doses do imunizante. Segundo o governo paulista, havia um déficit de cerca de 1 milhão de doses no estado.

Queiroga nega a falta de imunizantes. Ele disse na quarta-feira (15) que na verdade há um “excesso de vacinas” no Brasil. Ele acusa os estados de terem usado os repasses destinados à segunda dose para acelerar a aplicação da primeira dose. O ministro também criticou os estados que têm aplicado o imunizante da Pfizer como segunda dose em pessoas que antes receberam AstraZeneca — como São Paulo fez a partir de segunda-feira (13). A combinação de diferentes imunizantes, conhecida como intercambialidade, é segura e eficaz, indicam estudos.

Aplicação da terceira dose

O Ministério da Saúde anunciou em agosto que uma terceira dose de imunizante — preferencialmente, da Pfizer — começaria a ser aplicada como reforço para grupos prioritários a partir de quarta (15). Têm direito a esse reforço idosos com pelo menos 70 anos que tomaram a segunda dose há mais de seis meses e imunossuprimidos (pessoas com HIV ou que passaram por transplante, por exemplo) que se vacinaram há 28 dias.

Vários estados começaram a vacinação com a terceira dose semanas antes da data prevista pelo governo federal. O reforço já estava sendo distribuído em 18 capitais na segunda (13), de acordo com um levantamento feito pelo canal CNN Brasil. Outras capitais ainda aguardavam a entrega de mais imunizantes. A falta da AstraZeneca nos estados (e o uso da Pfizer como alternativa para a segunda dose) também ameaça essa etapa da vacinação.

Em São Paulo, a aplicação da terceira dose começou em 6 de setembro, mas sem que fosse estipulado o uso preferencial da Pfizer, que oferece maior proteção a idosos e imunossuprimidos. O plano estadual permitiu que qualquer imunizante disponível nas unidades de saúde fosse aplicado, decisão que foi criticada por cientistas como o pesquisador Júlio Croda, da Fiocruz. Na quarta (15), a Secretaria de Saúde do estado anunciou que passaria a aplicar exclusivamente a vacina da Pfizer como reforço.

Queiroga criticou os governadores e prefeitos que deram início à distribuição do reforço antes do prazo estabelecido, em um pronunciamento na quinta (16).

Vacinação de adolescentes

Em uma nota técnica divulgada na quarta (15), o Ministério da Saúde recomendou a suspensão da vacinação de adolescentes de 12 a 17 anos que não pertençam a grupos prioritários (aqueles com comorbidades, deficiências permanentes ou que estejam privados de liberdade).

A pasta havia determinado que a imunização dessa faixa etária deveria começar na mesma data, mas cerca de 3,5 milhões de adolescentes já foram vacinados. Alguns receberam imunizantes que ainda não foram aprovados pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) para aplicação em quem tem menos de 18 anos, como AstraZeneca, Coronavac e Janssen. Por ora, só a vacina da Pfizer foi liberada para isso.

Em pronunciamento na quinta (16), Queiroga chamou de “intempestiva” a antecipação da vacinação de adolescentes. Ele disse que foram identificados 1.500 casos de eventos adversos, na maioria leves, entre os vacinados dessa faixa etária — número que representa apenas 0,042% do total. Cerca de 93% dos eventos adversos ocorreram naqueles que não receberam o imunizante da Pfizer.

Queiroga citou também o caso de uma adolescente de São Bernardo do Campo, no ABC paulista, que morreu oito dias após tomar a primeira dose da Pfizer. A Anvisa está investigando o ocorrido, mas ainda não encontrou evidências de que a morte tenha sido causada pela vacina, e manteve a autorização de uso do imunizante. Em nota, o governo de São Paulo classificou de “irresponsável” a disseminação de informações sobre o episódio.

O ministro da Saúde disse ainda que a OMS (Organização Mundial da Saúde) não recomenda a vacinação de adolescentes e que os seus benefícios “ainda não estão claramente definidos”. Isso é enganoso: a organização não contraindica a imunização dessa faixa etária, apenas a considera mais urgente aplicar a primeira dose em populações vulneráveis que nem sequer tiveram acesso a vacinas ainda. Posteriormente, Queiroga disse que revisou a aplicação de vacinas em adolescentes a pedido do presidente Jair Bolsonaro.

O pronunciamento de Queiroga foi criticado pelos presidentes do Conass (Conselho Nacional de Secretários de Saúde) e do Conasems (Conselho Nacional de Secretarias Municipais de Saúde), Carlos Lula e Wilames Freire. Em nota, eles manifestaram “profundo lamento” pela decisão do Ministério da Saúde e solicitaram um parecer da Anvisa sobre a vacinação de adolescentes.

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