Quais os desafios se a covid se tornar uma doença endêmica

Para grande parte dos especialistas, sociedade terá que aprender a conviver com o vírus, adaptando-se a um novo estilo de vida

O Nexo é um jornal independente sem publicidade financiado por assinaturas. A maior parte dos nossos conteúdos são exclusivos para assinantes. Aproveite para experimentar o jornal digital mais premiado do Brasil. Conheça nossos planos. Junte-se ao Nexo!

    O avanço da vacinação, a queda nos números de casos e mortes por covid-19 e a flexibilização das restrições no funcionamento do comércio e dos serviços passaram para a população a sensação de que a pandemia poderia estar chegando ao fim. Em julho de 2021, pela primeira vez, a maioria dos brasileiros disse acreditar que o vírus estava sob controle, segundo pesquisa Datafolha. Mas ele não vai embora.

    Uma enquete feita pela revista Nature no começo de 2021 com cem imunologistas, virologistas e epidemiologistas que pesquisavam o novo coronavírus revelou que cerca de 90% deles acreditavam ser improvável que a doença fosse erradicada. Ela deve se tornar endêmica, ou seja, continuará circulando de maneira consistente, mas limitada a bolsões da população mundial, o que tornará suas taxas de incidência e transmissão previsíveis.

    Neste texto, o Nexo mostra quais os possíveis cenários para a covid-19, que desafios ela traz como doença endêmica e como os governos no Brasil e no mundo se prepararam diante de sua iminente permanência.

    O que é uma endemia

    Doenças endêmicas são aquelas que estão sempre presentes, acontecem com determinada frequência e permanecem estáveis ao longo do tempo. Em entrevista à Agência Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz), o epidemiologista Guilherme Werneck, que é professor do Instituto de Medicina Social da UERJ (Universidade Estadual do Rio de Janeiro), explicou que as endemias passaram a ser pensadas de forma mais quantitativas após o século 19, por influência da estatística.

    Elas começaram a ser definidas como um “comportamento usual e esperado de uma doença em uma população”. Já as epidemias são modificações nesse padrão de casos, um aumento além do esperado. Uma doença endêmica, portanto, pode ter ciclos epidêmicos. “É o caso da dengue no Brasil, onde todos os anos acontecem casos esperados, mas que se cruzam também com períodos epidêmicos”, disse.

    O coronavírus, por exemplo, já é conhecido da ciência desde os anos 1960. Seus quatro tipos que causam resfriados comuns em humanos há centenas de anos são considerados endêmicos, da mesma forma que acontece com outro vírus, o da influenza, responsável pela gripe e que requer vacinação anual — dois dos coronavírus já eram responsáveis por cerca de 15% das infecções respiratórias antes da pandemia, e a maioria das crianças tem contato com esses vírus antes dos seis anos, criando imunidade a eles.

    Estima-se que, por ano, morram em todo o mundo, em média, 650 mil pessoas devido à gripe sazonal. O fato de ela ser endêmica implica uma aceitação dessa letalidade, e não há a adoção de medidas rigorosas para prevenir o contágio, como o isolamento social e os lockdowns.

    Em relatório de 2010, a OMS (Organização Mundial da Saúde) elencou 17 doenças que estavam sendo negligenciadas no mundo, sendo que ao menos 12 delas ocorriam de forma endêmica no Brasil, segundo o documento “A Saúde no Brasil em 2030” (2012), do governo federal. As doenças “negligenciadas” são aquelas associadas à pobreza e que têm baixo grau de prioridade para os governos.

    “Algumas são consideradas emergentes ou reemergentes no país (dengue, leishmanioses), outras estão em estágio avançado de controle (doença de Chagas, filariose linfática, oncocercose, raiva), uma tem apresentado tendência decrescente (esquistossomose) e outras permanecem em relativa estabilidade (hanseníase, tracoma, cisticercose, hidatidose e geo-helmintíases)”, dizia o documento.

    A covid endêmica

    A maioria dos especialistas diz acreditar que o novo coronavírus irá se comportar da mesma maneira que a gripe comum. Em entrevista ao jornal Folha de S.Paulo, o infectologista Julio Croda, que é pesquisador da Fiocruz, disse ser “natural” que ele se torne endêmico e que, “de tempos em tempos, outras epidemias importantes associadas a novas variantes devem ocorrer”.

    “Todas as vacinas disponíveis, e é importante deixar isso claro, continuam com alta proteção contra internação e óbito, mas a perda de efetividade contra as formas moderadas faz com que o vírus continue circulando e, ao continuar sua transmissão, mais mutações vão ocorrer e novas variantes podem surgir. O que deve acontecer, ao longo do tempo, é que, com a vacinação e com o reforço vacinal, vamos conseguir impedir evolução para forma grave, mas não a circulação do vírus”

    Julio Croda

    pesquisador da Fiocruz, em entrevista à Folha de S.Paulo, em agosto de 2021

    Uma pequena parte dos pesquisadores, porém, acredita que algumas partes do mundo podem se livrar da covid-19. Na mesma pesquisa da revista Nature, um terço dos cientistas afirmou que esse cenário seria possível.

    “Imagino que a covid será erradicada em alguns países, mas com um contínuo e talvez sazonal risco de reintrodução de outros lugares onde a cobertura vacinal e as medidas de saúde pública não foram boas o suficiente”, disse o epidemiologista Christopher Dye, da Universidade de Oxford, no Reino Unido, à revista.

    Algumas doenças em humanos conseguiram ser erradicadas, como a varíola, nos anos 1980 — no Brasil, os últimos 19 casos, numa comunidade da zona norte do Rio de Janeiro, foram registrados em 1971. No caso do novo coronavírus, o aparecimento de variantes mais contagiosas que escapam das vacinas e a queda das imunidades naturais e conferidas pelos imunizantes depois de um tempo são fatores que dificultam a erradicação da covid-19, segundo os cientistas.

    Os cenários para a covid

    Totalmente erradicada

    Esse cenário só seria possível se a imunidade adquirida contra o vírus não decaísse com o tempo, o vírus não sofresse mutações que escapassem da proteção das vacinas e ele não persistisse em reservatórios animais. Pesquisas, pelo contrário, têm demonstrado a necessidade de doses de reforço das vacinas devido à queda de proteção com o tempo e redução da eficácia em relação às variantes. Países também registraram surtos da doença em animais, como os visons, abatidos aos milhares na Dinamarca.

    Erradicada em algumas regiões

    Uma pequena parte dos pesquisadores acredita que esse cenário é possível. Assim como o sarampo, algumas regiões com ampla cobertura vacinal, controle da entrada de pessoas e fechamentos esporádicos, como ocorre na Nova Zelândia, poderiam ser ver livres da covid, mas com risco de reintrodução da doença vinda de outras regiões.

    Circula como gripe comum

    No cenário que parece ser o mais provável, segundo os cientistas, as vacinas vão conseguir reduzir a evolução para quadros graves e mortes, mas não impedir a transmissão do vírus. Com a expansão da cobertura vacinal e grande parte da população imunizada, as pessoas poderão continuar se infectando, mas tendo quadros leves da doença.

    Circula causando quadros graves

    Essa situação ocorreria caso as vacinas não conseguissem prevenir quadros graves da infecção. Estudos têm demonstrado uma redução nas internações e mortes em pessoas vacinadas.

    A endemia na mira dos governos

    Até meados de setembro de 2021, a covid-19 já tinha matado 4,6 milhões de pessoas em todo o mundo, o que ainda a torna distante de uma doença sazonal como a gripe comum.

    Mas líderes de alguns países sinalizam a intenção de alcançar números semelhantes ao da gripe. Em junho, o secretário de Saúde do Reino Unido, Matt Hancock, afirmou no Parlamento britânico que a meta do governo era “viver com esse vírus como vivemos com a gripe”.

    À agência Bloomberg, a epidemiologista Jennifer Nuzzo, do Centro de Recursos de Coronavírus da Universidade Johns Hopkins, disse ser possível chegar ao estágio de “apenas monitorar hospitalizações”.

    Em artigo publicado no jornal O Globo, no início de setembro, o infectologista David Uip, que foi secretário de Saúde do estado de São Paulo, lembrou que a epidemia de HIV/Aids também provocou “pânico global” nas décadas de 1980 e 1990, mas se tornou com o tempo uma endemia graças a potentes antirretrovirais, profilaxias pré e pós-exposição e às campanhas de incentivo à testagem e ao uso de preservativo. Para ele, a covid deve seguir o mesmo caminho.

    “Não há data para a pandemia de covid-19 acabar. Temos ainda um longo caminho a percorrer até que a situação epidemiológica se estabilize. A avaliação do cenário atual permite vislumbrar um futuro com muito menos infecções, internações e mortes, mas teremos de aprender a conviver — por muito tempo — com o Sars-Cov-2 entre nós”

    David Uip

    infectologista, em artigo publicado no jornal O Globo, em 5 de setembro de 2021

    O governo de São Paulo também demonstrou que trabalha com um cenário de endemia. Em julho, o estado anunciou que uma nova rodada de vacinação contra a doença terá início em 17 de janeiro de 2022, exatamente um ano depois de a primeira dose da Coronavac ter sido aplicada no Brasil. O Butantan desenvolve um novo imunizante, a Butanvac.

    Já o governo federal previu na proposta de orçamento encaminhada ao Congresso R$ 3,9 bilhões para a compra de vacinas em 2022. A quantia, porém, é 86% menor do que foi autorizado em 2021, quando R$ 27,79 bilhões foram reservados para a ação.

    Os desafios da covid endêmica

    O surgimento da variante delta, que se propaga mais rapidamente que o vírus original, praticamente enterrou as discussões sobre a possibilidade de se alcançar a imunidade de rebanho, estágio em que quase toda a população estaria imunizada, o que faria o vírus parar de circular.

    Nos Estados Unidos, o CDC (Centro de Controle e Prevenção de Doenças) estimou que, com o surgimento da delta, 90% da população teria que ser vacinada para que isso aconteça, o que estudiosos dizem ser matematicamente impossível de acontecer.

    Com o cenário de uma doença endêmica à vista, especialistas defendem mudanças na forma de organização da sociedade para amortecer o impacto da covid-19. Em artigo publicado na revista Atlantic, nos Estados Unidos, no domingo (12), o médico Scott Gottlieb, que comandou o FDA (Food and Drug Administration, agência do Departamento de Saúde dos Estados Unidos) de 2017 a 2019, escreveu que o grande desafio será adaptar o trabalho e as escolas a um vírus onipresente de modo a torná-lo um “risco maleável”.

    Ele defende, entre outras medidas, a exigência da vacinação para os trabalhadores, o teletrabalho durante os picos da doença para reduzir a densidade nos escritórios e videoconferências mesmo dentro dos locais de trabalho para reduzir aglomerações internas. Pessoas que tiveram casos da doença na família devem permanecer em casa. Os edifícios também deverão passar por reestruturações para melhorar a circulação de ar.

    Para ele, o uso voluntário da máscara em locais fechados nas temporadas de doenças respiratórias deverá se tornar uma norma cultural. “Eventualmente, alguns de nós provavelmente serão infectados. Para muitos, a esperança será estar protegido pelas vacinas e não manifestar nada além de uma infecção leve”, escreveu.

    Gottlieb defende que as medidas serão necessárias para evitar que a covid e a gripe, juntas, causem um estrago ainda maior. “Estivemos sendo muito complacentes com a gripe sazonal, permitindo que ela adoeça e mate muitas pessoas todos os anos. Com uma segunda doença séria no horizonte, seremos forçados a agir”, disse.

    Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project.