O que a crise diz sobre a forma como o Brasil produz e vende comida

Estudo mostra que pandemia exacerbou fragilidades no sistema alimentar do país, baseado em grandes produtores e varejistas

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Cerca de 19 milhões de brasileiros enfrentaram a fome no último trimestre de 2020, o maior número desde 2004, e mais da metade da população viveu algum grau de insegurança alimentar no mesmo período, segundo dados da Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional.

O problema da fome foi agravado pela crise econômica e o desemprego gerados pela pandemia de covid-19. Mas a situação também expõe fragilidades pré-existentes no sistema alimentar brasileiro — a forma como o país produz, consome, comercializa e descarta comida —, de acordo com um estudo publicado nesta segunda-feira (30) pela revista Demetra e divulgado pela Agência Bori.

Realizado por pesquisadores da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) e do Ministério do Meio Ambiente, o estudo ressalta a importância de fortalecer “cadeias locais e circuitos curtos de produção, feiras livres e pequenos comércios, como açougues, mercados de frutas, legumes e verduras, padarias, entre outros”.

Neste texto, o Nexo explica como está estruturado atualmente o sistema alimentar brasileiro e como a pandemia mostra seus impactos na economia, na saúde pública e no meio ambiente.

O sistema alimentar no Brasil

Na análise feita pelos pesquisadores, o sistema alimentar hegemônico no país é um “modelo baseado na larga escala de propriedade, [emprego] de tecnologia e voltado para produção de commodities”, que “favorece a concentração da distribuição de alimentos em poucos grandes grupos de hipermercados e supermercados, em detrimento das feiras livres e dos pequenos varejos distribuídos”.

Os pequenos produtores familiares, apesar de representarem cerca de 80% dos estabelecimentos agropecuários e produzirem parte significativa dos alimentos consumidos pelos brasileiros (em especial das frutas, legumes e hortaliças), ocupam somente 23% da extensão de terras destinadas a essa atividade, segundo dados do Censo Agropecuário de 2017, do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

Ainda de acordo com o IBGE, a agricultura familiar encolheu no país à medida que o agronegócio cresceu em anos recentes. Entre 2006 e 2017, houve uma redução de 9,5% no número de estabelecimentos e uma perda de 2,2 milhões de postos de trabalho. Enquanto isso, a agricultura não familiar ganhou 702 mil empregos durante o mesmo período.

Produtores médios e grandes também recebem a maior parte dos investimentos do governo federal na agropecuária:

R$ 251,2 bilhões

valor total de crédito concedido à agropecuária pelo Plano Safra 2020-2021

R$ 39,3 bilhões

crédito concedido à agricultura familiar pelo Plano Safra 2020-2021

Já no comércio, os supermercados concentram cerca de 93% do faturamento no varejo de alimentos, enquanto o varejo tradicional (açougues, quitandas, mercearias e feiras livres) é responsável por apenas 7%, segundo dados da agência de pesquisas Nielsen. A porcentagem de compras feitas por brasileiros em supermercados também tem aumentado com o tempo, de acordo com a Pesquisa de Orçamento Familiar do IBGE.

O estudo publicado na revista Demetra aponta as consequências negativas desse sistema, que são relacionadas entre si e foram exacerbadas pela pandemia de covid-19.

A exportação acima do mercado interno

O Brasil vem batendo sucessivos recordes de produção no campo e foi o terceiro maior produtor de alimentos do mundo em 2020. Apesar disso, dados da Pesquisa de Orçamento Familiar do IBGE mostram que a insegurança alimentar voltou a crescer no país a partir de 2013. Esse índice, que mede a falta de acesso regular e permanente a alimentos de qualidade, vinha caindo desde 2004.

Segundo os autores do estudo, “a contraditória concomitância entre aumento de produção de alimentos e de insegurança alimentar” é explicada pela prioridade dada à exportação de commodities no sistema alimentar brasileiro.

Essa característica ficou ainda mais evidente durante a crise econômica causada pela pandemia de covid-19. Com a desvalorização do real em relação ao dólar, e a alta na demanda por alimentos em países estrangeiros como a China, o agronegócio tem registrado recordes de exportação.

19,8%

foi a alta das exportações do agronegócio entre janeiro e abril de 2021, na comparação com o mesmo período em 2020, segundo dados do Ministério da Agricultura

O aumento das exportações, por sua vez, levou à diminuição da disponibilidade de alimentos no mercado interno, o que fez subir preços do arroz, da carne, do óleo de soja, entre outros elementos comuns no prato dos brasileiros.

39,7%

foi a alta do preço do arroz entre agosto de 2020 e julho de 2021, segundo dados do IBGE

34,3%

foi a alta das carnes entre agosto de 2020 e julho de 2021

Prejuízos à alimentação saudável

A alta nos preços durante a pandemia tem impulsionado a procura por alternativas mais baratas aos alimentos tradicionais, como carnes “de segunda” ou fragmentos de arroz. Embora sejam menos valorizados, esses ingredientes não têm valor nutricional menor, segundo disse ao Nexo Lourence Alves, doutora em Alimentação, Nutrição e Saúde pela Uerj (Universidade Estadual do Rio de Janeiro) e historiadora pela mesma instituição.

O mesmo não pode ser dito sobre os alimentos processados e ultraprocessados, que também vêm sendo consumidos com mais frequência pelos brasileiros, segundo dados da Pesquisa de Orçamentos Familiares do IBGE. Entre 2002 e 2018, o aumento no consumo desses produtos foi mais acentuado na parcela mais pobre da população (subiu 62,3%), e menos acentuado entre os mais ricos (subiu 27,3%).

Os ultraprocessados muitas vezes derivam de commodities produzidas pelo agronegócio, como o milho e a soja, aos quais são adicionados açúcar, sódio, gordura, conservantes e outros componentes cosméticos que os deixam mais duráveis e palatáveis. Pesquisas indicam que o maior consumo desses produtos está associado ao aumento do risco de desenvolvimento de obesidade e de outras doenças crônicas, como diabetes e hipertensão.

A parcela de brasileiros afetados por essas doenças tem crescido em anos recentes, de acordo com dados do Ministério da Saúde.

72%

foi o aumento da porcentagem obesa da população entre 2006 e 2019, segundo a pesquisa Vigitel do Ministério da Saúde

Isso é especialmente preocupante no contexto de uma pandemia que já matou mais de 579 mil brasileiros até o fim de agosto de 2021, visto que doenças como hipertensão e obesidade aumentam o risco de desenvolver um quadro de sintomas mais grave da covid-19.

O risco de novas pandemias

O modelo produtivo do agronegócio está associado ainda a graves impactos ambientais. A produção massiva de commodities incentiva a monocultura, amplia o uso da terra e reduz a biodiversidade. Um estudo publicado em julho de 2020 na revista Science estimou que um quinto das exportações brasileiras de soja e carne advém de desmatamento ilegal na Amazônia e no Cerrado.

Além de causar alterações no regime de chuvas que geram prejuízos à própria produção agrícola, o desmatamento aproxima os humanos de espécies animais silvestres. Isso aumenta o risco de contaminação por zoonoses contra as quais os humanos não têm proteção imunológica, que podem se espalhar e dar origem a pandemias.

Conforme as commodities são industrializadas na produção de alimentos ultraprocessados, há mais consumo de água, energia e geração de resíduos usados em embalagens, como o plástico. Em comparação com a agricultura familiar, esse processo tende a demandar também mais gastos com transporte, o que gera mais emissões de gases do efeito estufa, que contribuem para o aquecimento global.

A importância da agricultura familiar

A agricultura familiar, distribuída por meio de pequenos comércios, é apontada pelos autores do estudo publicado na revista Demetra como um sistema mais benéfico do que o agronegócio, por se basear em modelos produtivos mais sustentáveis, oferecer produtos in natura ou minimamente processados (e portanto mais saudáveis) e por estabelecer os chamados CCCs: “circuitos curtos de comercialização”, caracterizados por menor distância e menos intermediação entre produtor e consumidor.

Ainda de acordo com os autores, os CCCs proporcionam “maior transparência nas relações de compra, rastreabilidade, redução da poluição ambiental e do custo devido à menor distância de transportes, aumento de oportunidades de emprego para a população local, apoio às atividades de pequenos produtores e maior autonomia dos consumidores quanto a sua alimentação”.

Na pandemia, os pequenos produtores foram especialmente atingidos pela suspensão de contratos de compra, o fechamento de restaurantes e lanchonetes e a mudança de hábitos do consumidor durante a quarentena. Perda de estoque, prejuízo financeiro e incerteza com relação a safras futuras estão entre os problemas enfrentados pelo setor.

Iniciativas da sociedade civil, como os projetos Campo Favela e Orgânico Solidário, têm surgido como forma de apoiar os agricultores e doar alimentos frescos a comunidades em situação de insegurança alimentar. Mas os autores destacam a importância da ação governamental: “Não basta fomentar sistemas alimentares saudáveis, é necessário desinvestir em sistemas degenerativos. Isso implica em reconfigurar e redirecionar uma parte maior das políticas e recursos públicos [...] para nutrir sistemas alimentares que resultem em benefícios mais sistêmicos”.

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