Quanto as farmacêuticas ganharam com o ‘kit covid’

Empresas que vendem remédios ineficazes cresceram em grande escala desde o início da pandemia. CPI no Senado investiga contexto de ganhos de laboratórios e sua relação com o governo

O Nexo é um jornal independente sem publicidade financiado por assinaturas. A maior parte dos nossos conteúdos são exclusivos para assinantes. Aproveite para experimentar o jornal digital mais premiado do Brasil. Conheça nossos planos. Junte-se ao Nexo!

    Com a promoção do chamado “kit covid-19” pelo governo federal, especialmente pelo presidente da República, Jair Bolsonaro, empresas farmacêuticas brasileiras que fabricam remédios como a cloroquina e a ivermectina faturaram significativamente mais desde março de 2020, quando a pandemia foi decretada pela Organização Mundial da Saúde.

    Embora seja ineficaz, como demonstrado por dezenas de estudos qualificados, o “kit” ganhou adesão no país não apenas pela propaganda oficial mas também pela adesão de médicos ao tratamento anticientífico. A CPI da Covid no Senado investiga como o governo pode ter beneficiado laboratórios, assim como os gastos públicos com algo que não funciona e pode ter colocado a vida de brasileiros em risco.

    O Nexo explica o que é o chamado “kit covid”, qual o problema em sua promoção junto ao público, quanto as principais farmacêuticas que vendem esses remédios faturaram entre 2020 e 2021 e como o governo se empenhou na ideia negacionista para evitar que as atividades econômicas do país parassem.

    O que é o ‘kit covid’

    O “kit covid”, como costuma ser chamado, é um coquetel de medicamentos indicados para tratar ou prevenir a covid-19, doença causada pelo novo coronavírus, mas ineficazes para esse fim. Os remédios recomendados incluem cloroquina, hidroxicloroquina, ivermectina e azitromicina.

    O presidente Jair Bolsonaro e representantes do governo federal defenderam de forma ampla o uso desses medicamentos com o início da pandemia, acompanhados por parte das secretarias de Saúde estaduais e municipais, que também os adotaram.

    Bolsonaro promovia tais medicamentos para dar confiança à população, a fim de que ela não paralisasse atividades. O presidente era explícito na preocupação com o isolamento social e seu impacto na economia. Chegou a declarar que isso poderia prejudicá-lo politicamente, prejudicando seu governo.

    O cálculo de Bolsonaro, porém, atropelava as questões sanitárias em meio a uma pandemia mortal. A OMS (Organização Mundial da Saúde) afirma que não há tratamento precoce ou profilático contra a covid-19, assim como a Sociedade Brasileira de Infectologia e a Associação Médica Brasileira.

    O uso desses medicamentos pode inclusive trazer riscos. Entre eles estão o desencadeamento de efeitos adversos das medicações. Outro risco é o de a pessoa que usa o “kit covid” demorar para buscar um médico caso esteja com covid-19, segundo o Nexo Políticas Públicas.

    Segundo a lei em vigor, determinada pelo CFM (Conselho Federal de Medicina), os médicos do país têm autonomia para indicar qualquer medicação a seus pacientes, mesmo contra a orientação de entidades reguladoras. Nesse contexto, os remédios têm sido prescritos.

    8 a cada 10

    brasileiros se automedicavam em 2018; automedicação e uso indiscriminado de remédios também se tornaram problema na pandemia

    Conduzido por médicos alinhados ao bolsonarismo, o CFM despertou críticas de parte da comunidade médica e de cientistas, que condenam a entidade por não seguir as recomendações da ciência e estimular o negacionismo da pandemia, segundo eles.

    Qual o ganho das farmacêuticas

    Com a pandemia, as vendas de cloroquina e hidroxicloroquina subiram de R$ 55 milhões em 2019 para R$ 91,6 milhões em 2020, enquanto as de ivermectina saltaram de R$ 44,4 milhões para R$ 409 milhões, segundo dados do varejo obtidos pelo jornal Valor Econômico.

    Os dados, que são do Sindusfarma (Sindicato da Indústria de Produtos Farmacêuticos), indicam crescimento em grande escala na primeira fase da crise, mas não contemplam o ano de 2021, quando o país viveu o pico da pandemia e as vendas desses remédios tiveram novos repiques.

    Em janeiro de 2021, por exemplo, o governo promoveu a ida de médicos que defendiam o tratamento precoce para Manaus (AM) para divulgar o TrateCov, aplicativo que indicava o uso de remédios sem eficácia comprovada para todo paciente com suspeita da doença.

    As farmacêuticas que mais faturaram até o fim de 2020 foram a Vitamedic, que respondeu por 80% das unidades de ivermectina vendidas em 2020, e a Apsen, com 85% de cloroquina e hidroxicloroquina, segundo o Valor Econômico. A Vitamedic cresceu mais de 200% em 2020, e a Apsen, 17%.

    O diretor da Vitamedic, João Batista, prestou depoimento à CPI da Covid no Senado nesta quarta-feira (11). Ele afirmou que a empresa faturou R$ 470 milhões em 2020, contra R$ 15,7 milhões no ano anterior. O laboratório entrou no radar da CPI por seus ganhos na pandemia.

    Batista também afirmou que a Vitamedic destinou R$ 717 mil para anúncios na imprensa que defendiam o tratamento precoce contra a covid-19, mesmo reconhecendo que a empresa não fez estudos para verificar sua eficácia contra a doença.

    1.230%

    foi quanto as vendas de ivermectina da Vitamedic saltaram em 2020 em comparação com 2019, segundo dados enviados à CPI da Covid

    Levantamento do jornal Folha de S.Paulo com base em documentos enviados à CPI mostram que outras sete farmacêuticas que vendem medicamentos do “kit covid” — incluindo também nitazoxanida, azitromicina e vitamina D — venderam mais na pandemia.

    O faturamento dessas empresas apenas com esses remédios foi de R$ 482 milhões de janeiro de 2020 a maio de 2021. Os dados do levantamento se referem aos laboratórios EMS, Farmoquímica, Momenta Farmacêutica, Abbott, Sandoz, Cristália e Supera Farma.

    R$ 1 bilhão

    é o valor ao qual pode ter chegado o faturamento total com a venda de remédios do “kit covid” de 2020 a maio de 2021, incluindo os ganhos de farmacêuticas não incluídas no levantamento, segundo a Folha

    A EMS, que vende ivermectina, hidroxicloroquina, nitazoxanida e azitromicina, por exemplo, cresceu 709% em 2020, segundo a Folha. A Abbott, com a ivermectina, cresceu 734%, e a Sandoz, com azitromicina, 115%. As empresas já trabalhavam com os remédios em outros anos.

    Os gastos do governo federal

    Com o aval de Jair Bolsonaro, que desde o início da pandemia defende o uso de remédios como a cloroquina e a hidroxicloroquina, o governo federal gastou milhões de reais para a compra de insumos, a produção e a propaganda do “kit covid”.

    O preço pode ter chegado a R$ 89 milhões apenas para adquirir esse tipo de medicamento, segundo levantamento feito em janeiro de 2021 pela BBC News Brasil. Os gastos incluem a compra de cloroquina, hidroxicloroquina, ivermectina, azitromicina, Tamiflu e nitazoxanida.

    O governo também promoveu a cloroquina por meio de isenções de impostos e facilitação na circulação do produto, segundo o jornal Folha de S.Paulo. Ministérios como o da Saúde, o da Economia e o das Relações Exteriores, além do Exército, participaram do processo.

    A CPI da Covid no Senado busca investigar se há relação entre o governo e as farmacêuticas que vendem os remédios do “kit covid”. Nesta quarta-feira (11), os senadores disseram que devem indiciar Bolsonaro por charlatanismo e curandeirismo por sua propaganda do tratamento.

    Outros exemplos de gastos

    Produção de cloroquina

    Em maio de 2020, o laboratório do Exército foi mobilizado para produzir unidades de cloroquina durante meses. No fim do ano, o local havia produzido cerca de 3,2 milhões de comprimidos, ao custo de R$ 1,16 milhão no total, segundo os ministérios da Saúde e Defesa.

    265 mil

    comprimidos de cloroquina foram produzidos pelo Exército em todo o ano de 2017 para combate a outras doenças, como a malária; produção ganhou enorme escala em 2020

    Compra de insumos

    Em 2020, o TCU (Tribunal de Contas da União) passou a investigar suspeitas de superfaturamento na compra de insumos para a produção do Exército, segundo a CNN Brasil. O preço do material comprado pelo governo registrou aumento de 167% entre março e maio de 2020.

    Fabricação na Fiocruz

    O governo também usou a Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz) para a fabricação de cloroquina. Entre junho e outubro de 2020, a entidade gastou R$ 70,4 milhões na produção de 4 milhões de unidades do remédio e de tamiflu (também usado no “kit covid”), segundo documentos.

    Campanhas publicitárias

    Outros órgãos do governo também se mobilizaram para promover o “kit”. A Secretaria de Comunicação gastou pelo menos R$ 23,3 milhões para divulgá-lo em emissoras de rádio, TV, outdoors e paradas de ônibus desde o início da pandemia, segundo o Ministério da Saúde.

    Médicos em Manaus

    Em junho, documentos enviados à CPI da Covid no Senado mostraram ainda outros gastos do governo, como R$ 52 mil em passagens para médicos que foram a Manaus (AM) no início de 2021, no auge da pandemia na cidade, para divulgar os remédios do “kit covid”.

    Como as vendas do ‘kit’ caíram

    Com o avanço da vacinação, que começou no país em janeiro e chegou a mais de 50% da população (vacinada com a primeira dose) nesta terça-feira (10), a demanda pelos remédios do “kit covid” entrou em trajetória de queda, segundo o jornal Folha de S.Paulo.

    51,5%

    dos brasileiros se vacinaram contra a covid-19 com a primeira dose até terça-feira (10), segundo dados de consórcio de veículos de imprensa; 22,1% estão totalmente imunizados

    As vendas de ivermectina, que foram de 15,6 milhões de unidades em março de 2021, caíram para 3,6 milhões em junho, segundo dados do instituto Iqvia sobre o varejo de remédios. No mesmo período, as vendas de hidroxicloroquina caíram de 468 mil para 218 mil.

    Segundo pesquisas de opinião, a população brasileira é uma das que mais registram adesão à vacinação contra a covid-19 no mundo. Em julho, 94% dos brasileiros acima de 16 anos disseram ter se imunizado ou querer se imunizar, segundo levantamento do Instituto Datafolha.

    Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project.