Por que o uso da Sputnik não decolou no Brasil e no mundo

Consórcio de estados do Nordeste suspende compra de vacina russa, e países que incluíram imunizante em suas campanhas nacionais buscam alternativas

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Vladimir Putin já a chamou de “a melhor vacina do mundo”. Também a comparou com um símbolo soviético, o fuzil AK-47, ao dizer que ela era tão “confiável” quanto uma arma. Lançada pela Rússia como um instrumento de geopolítica em meio à corrida global por vacinas, a Sputnik V — cujo nome homenageia o primeiro satélite enviado ao espaço, pelos russos, em 1957 — não tem conseguido se firmar como uma opção para os países em suas campanhas de imunização.

Nações que já adotaram a vacina, como a Argentina, vêm sofrendo com atrasos e desabastecimento e planejam substituí-la. No Brasil, quase um mês após o consórcio de estados do Nordeste anunciar sua chegada ao país, os governadores decidiram na quinta-feira (5) suspender a compra, depois de esbarrar numa série de exigências da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), que levantou dúvidas sobre a segurança do imunizante.

Neste texto, o Nexo relembra o percurso no desenvolvimento e na aprovação da Sputnik, os problemas enfrentados por países que apostaram no imunizante e os percalços da vacina no Brasil.

Aprovação precipitada e outras desconfianças

Desenvolvida pelo Instituto Gamaleya, ligado ao Ministério da Saúde russo, e financiada pelo Fundo de Investimento Direto da Rússia, a Sputnik V começou a ser testada em humanos em junho de 2020. Apenas dois meses depois, ela já estava autorizada para uso em anúncio feito pelo próprio presidente Putin, que ressaltou o fato de ela ter sido a primeira vacina aprovada no mundo, mesmo sem o início dos testes de fase 3, etapa que avalia eficácia e segurança em milhares de pessoas. A decisão foi criticada por cientistas.

Em novembro de 2020, os resultados preliminares da fase 3 foram anunciados, indicando uma eficácia de 92%, embora fossem baseados em apenas 20 casos de infecção entre os voluntários. No mesmo mês, o governo russo começou a vacinar a população com o imunizante.

Apenas em dezembro a fase 3 alcançou 78 casos de covid-19, número considerado suficiente para uma avaliação mais confiável. Os resultados do estudo foram publicados em fevereiro de 2021 na revista Lancet, demonstrando que a vacina era eficaz com duas doses e não causava graves efeitos colaterais. Os dados primários, porém, não foram disponibilizados, impedindo uma avaliação independente do estudo.

A maneira como os processos de aprovação e divulgação da eficácia ocorreram levantaram desconfianças sobre a vacina. Ela usa dois tipos diferentes de adenovírus (vírus que causa gripe comum) modificados com o material genético do coronavírus. Diferentemente do que ocorre com imunizantes como a AstraZeneca, a primeira e a segunda doses da Sputnik são diferentes (cada uma carrega um dos tipos de adenovírus).

O Instituto Gamaleya trabalha também, desde o começo de 2021, numa versão que necessita de apenas uma dose, como a vacina da Janssen. Batizada de Sputnik Light, ela mostrou eficácia de 79,4%, mas os detalhes da pesquisa também não foram divulgados.

Os países que adotaram a Sputnik V

Ainda em dezembro, Belarus foi o primeiro país fora da Rússia a adotar a vacina. Ao todo, 69 países aprovaram seu uso nos meses seguintes. Vizinhos do Brasil como Argentina, Paraguai, Bolívia e Venezuela recorreram ao imunizante, mas vêm tendo problemas de atrasos nas entregas das doses.

1,6 bilhão

de doses é a estimativa de produção da Sputnik ao longo de 2021, segundo o Fundo de Investimento Direto da Rússia

A Guatemala, por exemplo, não conseguiu receber o pedido inicial e anunciou que tentaria recorrer a outro laboratório para substituir as oito milhões de doses que estavam previstas.

Na Argentina, a falta da vacina foi classificada como uma situação de risco para a população por um assessor do presidente Alberto Fernández. As duas doses da Sputnik são aplicadas num intervalo de três meses. O governo argentino decidiu recorrer à Pfizer e anunciou um acordo de compra de 20 milhões de doses até o final de 2021.

O fundo russo tem alegado que todos os produtores de vacinas estão tendo problemas de fornecimento devido à alta demanda mundial. Em entrevista à agência Bloomberg, o professor Vasily Vlassov, da Escola Superior de Economia de Moscou, chamou a Sputnik V de uma “vitória da propaganda”, já que, apesar dos problemas, ela é apresentada como uma arma capaz de ampliar o “soft power” (poder pela influência) russo.

“No governo e nos meios de comunicação, eles se concentram no sucesso [da vacina] em ter sido aprovada para uso em tantos países, e não nos detalhes inconvenientes”, afirmou.

O presidente Vladimir Putin chegou a anunciar em junho planos para realizar na Rússia o turismo da vacina, ou seja, abrir o país para estrangeiros que queiram se vacinar com o imunizante desenvolvido localmente. Ele já acusou o Ocidente de dificultar a comercialização da vacina russa em razão de “proibições por motivação política”.

Mas apesar de contar com a Sputnik e com a EpiVacCorona, outra vacina produzida no país, a imunização na Rússia não conseguiu avançar. Dados do Our World In Data, projeto ligado à Universidade de Oxford, mostram que, até o começo de agosto, apenas um em cada quatro russos (25,93%) havia recebido ao menos uma dose. Apenas 18,34% da população estava completamente imunizada contra o coronavírus.

Os percalços no Brasil

No Brasil, a Sputnik vem encontrando dificuldades para conseguir aprovação. Em abril, a Anvisa barrou a importação por falta de dados consistentes e confiáveis. O pedido para importar o produto havia sido feito por 14 estados brasileiros e dois municípios, Maricá e Niterói.

A agência apontou falhas em todas as etapas de estudos clínicos, insuficiência de dados sobre segurança e qualidade e indícios de que os adenovírus usados nas vacinas podem se replicar no organismo, o que poderia causar infecção. Os russos negaram a informação, ameaçaram processar a Anvisa e a acusaram de fazer “declarações incorretas e enganosas sem ter testado a vacina”. O Instituto Gamaleya chegou a chamar a decisão de “política” e disse que o Brasil sofria pressão dos Estados Unidos para não aprovar a vacina.

Em junho, a Anvisa aprovou a importação excepcional com uma série de restrições. Os lotes só poderiam vir das fábricas inspecionadas pela agência brasileira, as doses só poderiam ser aplicadas em pessoas saudáveis de 18 a 60 anos e a quantidade enviada aos estados deveria representar apenas 1% da população de cada um deles. Por causa das regras, alguns estados planejavam imunizar toda a população vacinável de algumas cidades, a exemplo do que ocorreu em Serrana, no interior de São Paulo, num estudo do Instituto Butantan com a Coronavac.

Em julho, o Consórcio Nordeste anunciou que as vacinas chegariam no final do mês, mas o envio foi suspenso porque o governo russo não conseguiu outra autorização específica de importação da Anvisa. O aval dependia do cumprimento de condicionantes. No começo de agosto, o governador do Piauí e presidente do consórcio, Wellington Dias (PT), disse que a compra estava suspensa.

37 milhões

de doses da Sputnik estavam previstas no acordo de compra do consórcio com a Rússia; o Nordeste tem 54 milhões de habitantes

Além da dificuldade para a importação, Dias alegou que a vacina não foi incluída no PNI (Programa Nacional de Imunizações) pelo Ministério da Saúde, para que pudesse ser comprada pelo governo federal e distribuída em todo o país. Em julho, o ministro Marcelo Queiroga declarou que o Brasil não precisava mais das doses da vacina russa e da indiana Covaxin (que também teve sua compra cancelada depois de suspeita de corrupção no contrato apuradas pela CPI da Covid) — inicialmente, elas constavam do plano de vacinação do governo.

“É lamentável, o Brasil vive uma situação com alta mortalidade (...). Temos vacinas disponíveis, mas impedidas de entrar no Brasil”, afirmou o governador sobre a suspensão. Ele disse que a compra ainda poderá acontecer caso a vacina receba autorização para uso.

Além das tentativas de importação feita por estados e municípios, a empresa União Química também tenta produzir as doses da Sputnik no país. Ela fez um pedido de uso emergencial do imunizante, mas a análise na Anvisa está pendente de complementação de informações.

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