Por que a variante delta da covid desafia as reaberturas

Países que tentaram retorno à ‘vida normal’ após avanço da vacinação tiveram que recuar por causa de cepa mais contagiosa. São Paulo e Rio anunciaram maior flexibilização nas próximas semanas

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Com o avanço da vacinação e a queda momentânea nas internações e mortes por covid-19, estados e municípios têm decidido flexibilizar ainda mais as medidas de restrição de circulação. A ampla retomada das atividades econômicas, porém, é vista por especialistas como arriscada devido, principalmente, à ameaça da variante delta. Em países onde a vacinação está ainda mais avançada do que no Brasil, a nova cepa do vírus tem feito os gestores recuarem e repensarem as reaberturas.

Identificada no final de 2020, na Índia, a delta é mais transmissível que o coronavírus original e já se espalhou por mais de 100 países, segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde). Em julho, ela respondia pela maioria dos casos de infecção em países como Estados Unidos e Reino Unido. No Brasil, os primeiros casos importados foram identificados em junho. Nas semanas seguintes, vários estados anunciaram já haver transmissão comunitária da nova cepa. Não se sabe o real alcance dela no país por causa das limitações da vigilância genômica nacional.

Mesmo com os riscos, a maioria dos estados deve retomar as aulas presenciais em agosto. Estados como São Paulo anunciaram o fim das restrições ao comércio e aos serviços já no próximo mês. A Prefeitura do Rio de Janeiro anunciou um feriado para marcar a reabertura em setembro, com shows nas ruas e público nos estádios. Neste texto, o Nexo mostra por que a variante delta tem preocupado a maioria dos países e quais os riscos envolvidos nas flexibilizações das atividades.

As características da delta

Um estudo de julho feito por pesquisadores ligados à OMS e ao Imperial College, de Londres, mostrou que a delta é 97% mais transmissível do que o coronavírus original, identificado na China. O trabalho indica que ela é ainda mais preocupante do que as variantes surgidas no Reino Unido (alfa), na África do Sul (beta) e no Brasil (gama).

Essas mutações são comuns e esperadas. Elas acontecem no processo de replicação do agente infeccioso no organismo. Durante a cópia do material genético, erros podem acontecer. Algumas mudanças trazem vantagens evolutivas, e a variante pode se tornar predominante. Quanto mais o vírus circula livremente, maiores as chances de surgirem novas cepas mais contagiosas. O aparecimento da gama, em Manaus, por exemplo, coincidiu com uma nova onda de casos e mortes no Brasil no começo de 2021. Ela rapidamente se espalhou pelo resto do país.

No caso da delta, estudos mostram que ela se replica de forma mais rápida nos infectados, gerando maior carga viral (quantidade de vírus presente no organismo), o que a torna mais transmissível. Ela tem uma taxa de transmissão 55% maior do que a alfa, 60% do que a beta, e 34% do que a gama, segundo os estudos.

Em entrevista à CNN Brasil, o médico Alexandre Naime, que é chefe do departamento de infectologia da Unesp (Universidade Estadual Paulista) e consultor da SBI (Sociedade Brasileira de Infectologia), disse que a delta deverá “substituir todas as outras variantes em um curto período de tempo”.

“Vamos ter mais casos de covid-19 por conta da variante delta, caso a gente não melhore as medidas sanitárias e aumente a velocidade da vacinação”, afirmou. Ele ressaltou que as vacinas atualmente em uso, embora tenham sido desenvolvidas a partir do vírus original, continuam sendo eficazes contra as variantes. Alguns estudos, porém, têm demonstrado que a proteção é mais baixa.

O risco em outros países

Em meados de julho, a variante delta já era responsável por 83% dos novos casos de covid-19 nos Estados Unidos, segundo dados do CDC (Centro de Controle e Prevenção de Doenças), agência ligada ao Departamento de Saúde americano. Em algumas regiões onde a vacinação estava mais atrasada, a taxa era ainda maior.

Desde a posse do presidente Joe Biden, em janeiro de 2021, o país tem feito um esforço para acelerar a vacinação. Até o final de junho, quase metade dos americanos (48,91%) havia recebido as duas doses da vacina, segundo dados do Our World in Data, projeto ligado à Universidade de Oxford. Mas o país vem esbarrando na recusa de alguns grupos em se vacinar.

Desde o início de julho, com o avanço da variante delta, os casos de covid-19 voltaram a crescer no país, especialmente entre aqueles que não haviam se imunizado, o que fez o assessor da Casa Branca para doenças infecciosas, Anthony Fauci, declarar que os Estados Unidos estavam vivendo uma “pandemia entre os não vacinados”.

Em maio, o CDC havia derrubado a exigência do uso de máscaras em espaços abertos e na maioria dos fechados. Com a nova situação, o órgão voltou a recomendar o item de proteção. A orientação não é obrigatória, e muitos americanos podem não segui-las. Pelo menos oito estados de maioria republicana proíbem as escolas de exigir máscaras.

O aumento de casos devido à variante delta também fez o país decidir por manter as restrições às viagens internacionais. Quem esteve nos 14 dias anteriores em países como Brasil, África do Sul, China, Índia, Reino Unido e demais países da Europa não pode entrar nos Estados Unidos.

As regras também foram revistas em Israel, país que em junho chegou a comemorar a volta à normalidade, depois de abandonar as máscaras e medidas de distanciamento e isolamento social. Até o final de julho, 62% da população havia tomado as duas doses do imunizante.

Assim como os Estados Unidos, Israel voltou a registrar a partir do final de junho um novo aumento de casos, por conta da variante delta. Por isso, o governo decidiu rever as flexibilizações e voltou a exigir o uso de máscaras em locais fechados (apenas dez dias após abandoná-las) e adotou quarentenas para todos que chegam de viagem ao país.

Mesmo países que conseguiram impor estratégias eficientes de controle da covid-19, como a China e a Austrália, estão preocupados com a variante. Houve aumento de casos da doença nos dois países.

Apesar do rígido sistema de testagem e quarentenas, a China tem tido surtos da doença — um deles teve origem num aeroporto no leste do país. A capital Pequim registrou a primeira transmissão local após seis meses sem qualquer registro, a partir de uma pessoa que esteve na região do surto.

A Austrália adota um sistema de quarentena obrigatória em hotéis, mas mesmo assim registrou um surto causado pela variante delta em Sydney. O país decidiu estender uma quarentena imposta no final de junho. Pesa contra a Austrália a lentidão na vacinação. Apenas um terço da população recebeu ao menos uma dose do imunizante. A proporção de pessoas completamente vacinadas era de apenas 14% no final de julho.

As flexibilização no Brasil

Até o final de julho, o Brasil tinha vacinado 46,28% da população com uma dose, e 18,65% com duas, números considerados insuficientes por especialistas para interromper a transmissão do vírus, mas que já geraram reflexo nas internações e mortes por covid-19 no país.

Com a melhora momentânea da pandemia, governos anunciaram flexibilizações. Na quarta-feira (28), o governador de São Paulo, João Doria (PSDB), anunciou uma nova fase do plano de reaberturas chamado de “retomada segura”. De 1º a 16 de agosto, o fechamento dos estabelecimentos pula de 23h para a meia-noite, e a ocupação limite subirá de 60% para 80%.

A partir de 17 de agosto, não haverá mais restrição de horários de fechamento nem limite de ocupação. O toque de recolher fica extinto. “A vida está voltando ao normal no estado de São Paulo”, afirmou Doria. A previsão do governo é vacinar toda a população do estado acima de 18 anos com ao menos uma dose até a data da medida.

No Rio de Janeiro, a prefeitura fez anúncio semelhante na quinta-feira (29). Batizado de “Rio de Novo, um ano de reencontros”, o plano prevê um feriado municipal, em 2 de setembro, chamado de o “Dia do Reencontro”, shows com DJs em toda a orla e a reabertura de estádios com metade do público. A intenção é vacinar 90% dos adultos acima dos 18 anos com uma dose até lá.

“A gente quer fazer um ano de celebração do fim da pandemia. É fundamental que as pessoas continuem se cuidando, termos uma alta cobertura vacinal em pessoas acima de 60 anos e com comorbidades”, afirmou o prefeito da cidade, Eduardo Paes (PSD).

O temor de uma nova onda

Especialistas foram cautelosos ao comentar as medidas anunciadas. Em entrevista ao portal UOL, na quinta-feira (29), o médico sanitarista e ex-presidente da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) Gonzalo Vecina Neto, disse que as reaberturas estão sendo anunciadas com base numa melhora momentânea, e não numa análise a longo prazo. O risco das flexibilizações em meio à ameaça da variante delta é o surgimento de uma terceira onda da doença.

“Enquanto não soubermos o que a variante delta vai fazer aqui — e o que ela vai fazer aqui é o que ela fez em outros países — vai se tornar dominante e vai fazer o estrago que ela está fazendo na Holanda, na Inglaterra, na França, nos Estados Unidos. Nós estamos olhando o hemisfério Norte, estamos vendo o que está acontecendo com a variante delta lá. Não querer enxergar isso é olhar apenas para um conjunto de parâmetros, particularmente políticos”, afirmou.

O médico infectologista Leonardo Weissmann, que é consultor da SBI (Sociedade Brasileira de Infectologia), classificou em entrevista ao jornal O Globo, na quarta-feira (28), a decisão de São Paulo como “precipitada”. “Sabemos que a flexibilização é necessária, mas sempre de maneira gradual. Uma mudança tão grande e rápida pode ser um tiro no pé. Não é possível ter distanciamento físico em ambientes totalmente ocupados”, disse.

Membros do Centro de Contingência da Covid-19, que aconselha o governo de São Paulo, também foram contra o anúncio. O médico infectologista Marcos Boulos, que é professor da USP (Universidade de São Paulo), disse também ao jornal O Globo que o plano é inadequado. “Não adianta abrir tudo e se chegar uma variante delta ter que correr para fechar”, afirmou.

O infectologista Renato Grinbaum, também consultor da SBI, lembrou ao jornal Folha de S.Paulo, na quarta-feira (28), o que vem ocorrendo em outros países. “Tenho medo de abrir demais e possibilitar a disseminação da variante delta. Eu seria mais cauteloso. Não diria que esse é o tempo errado, mas acho pouco cauteloso adotar esse tipo de medida no momento em que o mundo está retomando restrições”, disse.

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