Como estes estudos reforçam a importância da 2ª dose

Proteção contra a covid-19 não é significativa com apenas uma dose, segundo pesquisas. Algumas cidades fazem busca ativa de pessoas que perderam prazo da vacinação

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As vacinas contra a covid-19 só garantem proteção significativa contra a doença a partir da aplicação da segunda dose, segundo estudos que analisaram a efetividade dos imunizantes Coronavac e AstraZeneca no Brasil. A imunização completa da população é necessária para que a pandemia do novo coronavírus possa ser controlada, mas o país vem tendo dificuldades para garantir que todos tomem as duas doses.

Em ritmo considerado lento, a campanha de vacinação alcançou apenas 17,25% da população com duas doses até sexta-feira (23), de acordo com o levantamento do consórcio de veículos de imprensa. Apesar do avanço da imunização, que em muitas capitais já atinge adultos na casa dos 20 anos, grupos prioritários não foram totalmente vacinados — 7% dos idosos acima de 60 anos em todo o país ainda não tinham completado o ciclo de vacinação até o final de julho, mais de sete meses após o início da campanha, segundo o Ministério da Saúde.

Neste texto, o Nexo mostra como estudos comprovam a necessidade da aplicação das duas doses para uma proteção robusta e quais estratégias vêm sendo adotadas pelo país para garantir a imunidade total da população.

A efetividade da Coronavac

Um estudo ainda não revisado por outros cientistas, publicado na quarta-feira (21) por pesquisadores liderados pelo infectologista Julio Croda, que foi diretor do Departamento de Imunizações e Doenças Transmissíveis do Ministério da Saúde de 2019 a 2020, aponta que a Coronavac apresentou pouca ou nenhuma proteção nos 13 dias seguintes à aplicação da primeira dose em idosos.

O estudo foi feito com 15.852 pessoas de 70 anos ou mais, vacinadas em São Paulo com o imunizante da chinesa Sinovac, produzido pelo Instituto Butantan. Os casos ocorreram entre 17 de janeiro, data do início da vacinação do Brasil, a 29 de abril. No período houve predomínio da variante P.1, surgida em Manaus — a cepa, que é mais contagiosa, foi posteriormente batizada como gama.

A conclusão dos pesquisadores foi que a vacina só produz proteção significativa no grupo de idosos depois de 14 dias da aplicação da segunda dose. A efetividade do imunizante também cai quanto maior a idade da pessoa. No geral, a efetividade da Coronavac após 14 dias da segunda dose foi de 41,6% contra casos sintomáticos, de 59% contra hospitalizações e 71,4% contra mortes. Os resultados, porém, variam por faixa etária.

Proteção da Coronavac por faixa etária

De 70 a 74 anos

O imunizante preveniu sintomas de covid-19 em 61,8% dos casos. A efetividade ficou em 80,1% para hospitalizações e em 86% para mortes.

De 75 a 79 anos

A proteção foi de 48,9% para casos sintomáticos, 69,5% para hospitalizações e 87,1% para mortes.

80 anos ou mais

A queda nas taxas foi significativa. A efetividade ficou em 28% para casos sintomáticos, 43,4% para hospitalizações e 49,9% para mortes.

Em entrevista ao jornal O Globo, na quinta-feira (22), Croda afirmou que os dados indicam que a vacina está funcionando bem, com bons resultados até 79 anos, e desempenho superior a imunizantes como o da gripe, que previne 40% das mortes em pessoas acima dos 80 anos. A tendência, segundo ele, é que a proteção seja ainda maior entre os mais jovens.

“Existe uma queda [na proteção com o aumento da idade], mas ela [vacina] ainda mantém alguma efetividade. Ao pensarmos em revacinação podemos olhar para esse grupo”

Julio Croda

infectologista que liderou pesquisa sobre a Coronavac, em entrevista ao jornal O Globo

Segundo o pesquisador, em entrevista ao jornal Folha de S.Paulo, é preciso monitorar o grupo de idosos ao longo do tempo para saber se será necessária a aplicação de uma terceira dose. “Ele [idoso] responde menos ao longo do tempo. Os dados que temos até o momento apontam oito meses [de proteção] para a população em geral. Em um ano será que ela se manterá? Não temos como afirmar agora”, disse.

Os resultados da AstraZeneca

O grupo de Croda também analisou, em outro estudo, a efetividade da vacina da AstraZeneca, a partir de informações de 61.164 idosos de 60 a 79 anos que vivem no estado de São Paulo. A pesquisa usou dados de 17 de janeiro a 2 de julho do Sistema de Informação da Vigilância Epidemiológica da Gripe (Sivep-Gripe) e do sistema e-SUS, do Ministério da Saúde. O trabalho também não foi revisado por outros pesquisadores.

De acordo com os resultados, a efetividade do imunizante desenvolvido pela Universidade de Oxford, em parceria com o laboratório anglo-sueco AstraZeneca, e produzido no Brasil pela Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz) também é muito superior com duas doses.

Proteção da Astrazeneca

28 dias após 1ª dose

A eficiência observada foi de apenas 33,4% contra casos sintomáticos, 55,1% contra hospitalizações, e 61,8% contra mortes.

14 dias após 2ª dose

A taxa de efetividade ficou em 77,9% para casos sintomáticos, 87,6% para hospitalizações e 93,6% para mortes.

“A principal mensagem desses resultados é o incremento que temos com o esquema vacinal completo. É muito importante porque sai de cerca de 62% para prevenção de óbito e vai para 94%. Reforça a ideia que é necessário o esquema vacinal completo para uma excelente proteção”

Julio Croda

infectologista, em entrevista ao jornal Folha de S.Paulo, na quinta-feira (22)

A situação da segunda dose

O número de pessoas que se vacinaram com a primeira dose, mas deixaram de receber a segunda vem crescendo e preocupa as autoridades de saúde.

Só no estado de São Paulo, por exemplo, 239 mil pessoas deixaram de tomar a segunda dose no prazo, em junho. Na terça-feira (20), esse número já tinha pulado para 642 mil, o que representou um crescimento de 168%. Na quarta-feira (21), um dia depois da divulgação do número, o estado disse ter conseguido reduzir o número para 563 mil, em parte pelo fato de a imprensa ter noticiado o problema, o que pode ter conscientizado as pessoas.

Segundo a coordenadora do Programa Estadual de Imunização de São Paulo, Regiane de Paula, em entrevista ao jornal Folha de S.Paulo na terça-feira (20), buscar a segunda dose não é uma questão apenas de interesse pessoal, mas um “trabalho coletivo de combate à pandemia”.

O vírus só para de circular quando encontra barreiras, e isso só acontece quando uma quantidade significativa de pessoas está imunizada — especialistas defendem como ideal uma cobertura de 90% do público-alvo. Apenas com uma dose, a pessoa fica mais exposta, como mostraram os estudos sobre a efetividade das vacinas.

4 milhões

é o número de pessoas que não voltaram para tomar a segunda dose no prazo, em todo o país, até quinta-feira (22), segundo o Ministério da Saúde

Os estados com maiores atrasos são Amazonas, Bahia, Pará, Ceará e Rio de Janeiro, com quase 10% de pessoas que perderam o prazo, de acordo com os dados do ministério. São Paulo tem índice de 4,6%.

Nas cidades que não reservam a segunda dose, pessoas têm reclamado de dificuldades para encontrar vacinas nos postos de saúde, o que contribui para o atraso. Por isso, algumas cidades decidiram reservar a dose para a segunda aplicação. A estratégia, porém, tende a tornar mais lenta a fila da vacinação.

“Se nós quisermos controlar mesmo essa pandemia e, inclusive prevenindo contra novas variantes, a gente precisa das duas doses, e o mais rápido possível”

Gustavo Cabral

imunologista da USP, em entrevista ao Jornal Nacional, da TV Globo, na quinta-feira (22)

Para tentar diminuir a taxa de abstenção na segunda dose, algumas prefeituras têm feito busca ativa de pessoas que perderam o prazo. Profissionais de saúde telefonam para as pessoas ou marcam visitas para vacinar as pessoas em suas casas.

Há outras iniciativas, como o envio de mensagens via SMS ou por e-mails para lembrar a data da segunda dose, como vem sendo feito pelo governo do estado de São Paulo. Os avisos são enviados com base nas informações do pré-cadastro pelo site Vacina Já ou do cadastro obrigatório realizado durante a aplicação da primeira dose.

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