Protestos de atletas: o que pode e o que não pode na Olimpíada

Comitê Olímpico Internacional flexibilizou restrições a pronunciamentos de competidores em Tóquio. Manifestações feitas em cerimônias oficiais seguem proibidas

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    O COI (Comitê Olímpico Internacional) afrouxou sua regra interna sobre manifestações de cunho político nos Jogos Olímpicos. A mudança já vale para a Olimpíada de Tóquio, que começa nesta sexta-feira (23).

    As regras do COI, que proibiam quaisquer protestos de atletas, agora permitirão que competidores façam gestos durante as provas. Mas manifestações feitas nos pódios de medalha estão proibidas durante o evento.

    Neste texto, o Nexo explica o o que mudou nas normas, como o mundo esportivo tem tratado o assunto e narra episódios de protestos políticos em jogos passados.

    O que dizem as diretrizes. E o que mudou

    A Regra 50 é uma seção da Carta Olímpica, espécie de Constituição dos Jogos Olímpicos, que versa sobre anúncios, manifestações e propaganda. A Regra 50 dizia que “nenhum tipo de manifestação ou propaganda política, religiosa ou racial é permitida em quaisquer locais, instalações ou outras áreas olímpicas”. Versões dessa mensagem datam pelo menos desde a Carta de 1956.

    Agora em nova versão, anunciada no início de julho de 2021, as normas permitem que atletas “manifestem suas opiniões”, em suma, antes e depois de competições, mas não no pódio. Manifestações fora do espaço de competições, como declarações à imprensa e em redes sociais, já eram permitidas antes. Seguem não sendo permitidas manifestações durante cerimônias oficiais - de entrega de medalhas, abertura e encerramento - e na Vila Olímpica.

    Não está claro, no entanto, quais seriam as sanções caso uma manifestação política no pódio aconteça. A Carta Olímpica diz que “qualquer decisão sobre a concessão, retirada ou realocação de qualquer medalha de vitória ou diploma é da competência exclusiva do COI”, mas as novas regras dizem que cada caso será avaliado individualmente.

    As manifestações de opinião devem ser, segundo o código, consistentes com os princípios fundamentais do Olimpismo” e não podem ser dirigidas, direta ou indiretamente, contra pessoas, países, organizações e/ou sua dignidade”. Também não podem atrapalhar outros atletas e delegações.

    O que dizem atletas, delegações e o COI

    A flexibilização foi resultado de mobilizações feitas por atletas. A proibição a protestos já vinha sendo motivo de questionamentos há algumas edições dos Jogos e eles ganharam força nos últimos anos, com diversas manifestações antirracistas em competições, na esteira do crescimento do movimento Black Lives Matter.

    Alguns membros da comunidade esportiva têm dito que as normas ainda estão aquém do que gostariam de ver. Uma delas é a atleta do lançamento de martelo dos Estados Unidos Gwen Berry. “Quando eu chegar lá, penso em alguma coisa”, disse ela depois de ganhar a vaga na equipe dos EUA. “O que eu preciso fazer é falar pela minha comunidade, representar minha comunidade e ajudar minha comunidade, porque isso é muito mais importante do que o esporte”, disse, segundo o jornal The New York Times.

    A jogadora brasileira de vôlei Carol Solberg, referência no debate após se manifestar contra o presidente Jair Bolsonaro e receber advertência do Supremo Tribunal de Justiça Desportiva no vôlei, disse à Folha de S.Paulo que vê as mudanças com otimismo, mas que é preciso avançar mais. “Acredito muito na importância da voz de cada um de nós, e me parece absurdo eles não serem incentivados a levantar a bandeira de causas tão importantes e urgentes para nossa sociedade, como a luta antirracista, a defesa dos direitos humanos, do meio ambiente. Correr o risco de ser punido por defender essas causas? Isso, sim, é ir contra todos esses tais valores olímpicos”, disse a atleta.

    A posição do COI é conhecida. A entidade diz que zela pela neutralidade política dos jogos e trabalha para que o alvo das atenções seja o esporte.

    Em defesa das atuais restrições, Thomas Bach, presidente do comitê disse ao jornal inglês Financial Times que a missão dos Jogos é ter o mundo inteiro junto em um lugar e competindo pacificamente um com o outro. “Isto você nunca conseguiria se os Jogos (se tornassem) polarizadores”, disse Bach.

    “O pódio e as cerimônias de medalhas não são feitos (...) para uma manifestação política ou outra. Eles são feitos para homenagear os atletas e os ganhadores de medalhas por conquistas esportivas, e não por suas (opiniões) particulares”

    Thomas Bach

    presidente do COI em entrevista ao Financial Times no dia 16 de julho

    Não se sabe como cada delegação nacional recebeu as novas normas. Segundo o The New York Times, os Estados Unidos, ao menos, não pretendem punir ou repreender atletas que venham a fazer declarações políticas.

    Ao jornal Folha de S.Paulo, o vice-presidente do Comitê Olímpico do Brasil, Marco La Porta, disse que atletas estão livres para se manifestarem dentro das normas do COI. Ele, que é militar da reserva, disse que os atletas podem se manifestar a favor ou contra o governo. “Cada um se manifesta da maneira que acha melhor e assume as consequências.”

    A história dos protestos nos jogos

    Apesar das proibições, há casos emblemáticos de protestos na história dos Jogos Olímpicos. O mais lembrado deles aconteceu nos Jogos do México de 1968, quando o mundo vivia um momento de grandes demandas populares por mudanças políticas e sociais.

    No pódio, os velocistas negros norte-americanos Tommie Smith e John Carlos abaixaram as cabeças e ergueram os punhos em protesto contra a desigualdade racial. O gesto era referência aos Panteras Negras e o contexto era da luta por direitos civis nos EUA.

    Eles haviam vencido, respectivamente, as medalhas de ouro e bronze na prova de 200 metros rasos. As autoridades olímpicas dos EUA, sob pressão do COI, suspenderam os medalhistas e os mandaram de volta para casa.

    Também em 1968, a ginasta da então Tchecoslováquia Věra Čáslavská virou o rosto diante da bandeira da União Soviética durante uma cerimônia de entrega de medalhas. Ela venceu quatro de ouro e duas de prata. À época, acabara de acontecer a chamada Primavera de Praga, série de protestos que, sob a liderança de Alexander Dubcek, tentavam construir um “socialismo com face humana” no país, em contraposição ao modelo centralizador, censor e ditatorial imposto pelos soviéticos. Não houve sanções de autoridades esportivas. Fora dos jogos, a atleta foi banida do mundo da ginástica olímpica em seu país.

    Nos jogos seguintes, em 1972, em Munique, os atletas norte-americanos Vince Matthews e Wayne Collett se recusaram a seguir os protocolos de decoro no pódio após ganharem medalhas na corrida de 400 metros rasos. A dupla foi banida dos Jogos para sempre.

    Em 2004, na Olimpíada de Atenas, o lutador de taekwondo brasileiro Diogo Silva, após luta que o colocou no quarto lugar na competição, repetiu, no tatame, o gesto da dupla Smith e Carlos, em 1968. O atleta não chegou a ser punido.

    Na Olimpíada Rio 2016, o maratonista etíope Feyisa Lilesa ergueu os braços e cruzou os pulsos ao atravessar a linha de chegada para mostrar apoio a manifestantes de seu grupo étnico, oromo, que protestava contra o governo. Lilesa venceu a medalha de prata naquela competição. Não há registro de sanções a ele por autoridades esportivas. O atleta passou os anos seguintes fora do seu país, temendo represálias do governo, e voltou em 2018.

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