Por que manter os cuidados, mesmo com o recuo da covid

Números em queda indicam nova fase da pandemia no Brasil, mas especialistas alertam que patamar de casos e mortes ainda é alto e cobertura vacinal é insuficiente para bloquear transmissão

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    Meses depois de ter atingido o pico da pandemia, entre março e abril de 2021, o Brasil vê em julho quedas simultâneas nos números de novos casos, mortes e internações por covid-19, ao mesmo tempo em que a vacinação avança entre a população adulta.

    Embora o quadro represente um recuo na crise sanitária, os números da covid-19 no país ainda são altos, e os cuidados para evitar o contágio devem ser mantidos, segundo especialistas ouvidos pelo Nexo. O alerta também vale para as pessoas vacinadas com uma ou duas doses.

    Neste texto, o Nexo explica o quadro atual da pandemia e por que ainda não é o momento para recuar nas medidas de prevenção, segundo especialistas. Mostra também medidas de redução de danos para evitar o contágio.

    Quais são os sinais de melhora

    Segundo o boletim mais recente do Observatório Covid-19 da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz), com dados até 10 de julho, o país vive uma nova fase da pandemia, marcada pela manutenção, durante semanas consecutivas, de uma tendência de queda nos indicadores da covid-19.

    A fase atual da pandemia também é marcada pela vacinação. Na segunda-feira (19), 42,5% da população havia sido vacinada com uma dose, e 16,2%, com as duas, segundo consórcio de veículos de imprensa.

    Os gráficos abaixo mostram onde o país está em comparação com o pico da pandemia, entre março e abril. As curvas de novos casos e óbitos por covid-19 começaram a cair em junho, e até hoje estão em queda. Análises da última semana mostram que essa tendência continua.

    Menos casos

    Gráfico mostra número de casos de covid em cada semana desde o início da pandemia, em março de 2021. Últimas semanas registraram menos casos que em março e abril de 2021, mas eles ainda são altos em comparação com épocas de 2020.

    Menos mortes

    Gráfico mostra número de óbitos por covid em cada semana desde o início da pandemia, em março de 2021. Últimas semanas registraram menos óbitos que em março e abril de 2021, mas ainda são altos em comparação com épocas de 2020.

    O quadro geral brasileiro de ocupação de leitos de UTI no SUS (Sistema Único de Saúde) também segue há semanas uma tendência de melhora, segundo a Fiocruz. Apenas cinco estados (Rondônia, Amazonas, Pará, Tocantins e Goiás) tiveram aumento no índice até 12 de julho.

    Por que ainda manter os cuidados

    Embora os números estejam em queda, o patamar de casos e óbitos continua elevado, segundo a Fiocruz. Na segunda-feira (19), a média semanal de mortos pela covid-19 foi de 1.218. A taxa de positividade de testes também está alta, o que sugere intensa circulação do vírus.

    A publicação recomenda que as pessoas mantenham as medidas de distanciamento social, uso de máscaras e higiene. “Estamos em uma fase em que dá para respirar, mas a pandemia não acabou”, disse ao Nexo Raphael Guimarães, do Observatório Fiocruz Covid-19.

    “É uma nova fase. Temos a chance de refazer a rota: ver o que aconteceu de errado na pandemia e tentar fazer melhor. Mas há uma preocupação, porque, em cenários de melhora, as pessoas relaxam mais. Qualquer relaxamento pode levar a repiques”

    Raphael Guimarães

    integrante do Observatório Fiocruz Covid-19, em entrevista ao Nexo

    Os cuidados valem inclusive para quem se vacinou. Membro do Observatório Covid-19 BR e professor da Unesp (Universidade Estadual Paulista), Roberto Kraemer lembrou ao Nexo que a maior parte dos vacinados no país tomou uma dose, quando o necessário para defesa completa contra o vírus são duas.

    Embora os imunizantes protejam contra covid-19 grave e morte, pessoas vacinadas ainda estão sujeitas à infecção em um cenário de alta circulação do vírus. Elas também podem transmiti-lo para outras pessoas. Os cuidados servem para proteger não só a si, mas os outros.

    70%

    é quanto precisa ser a cobertura vacinal com duas doses para se chegar a um patamar seguro, segundo estimativas; taxa no país é de menos de 20%

    “Outra coisa importante são as sequelas. Casos sintomáticos de covid podem ter consequências de longo prazo”, segundo o físico Roberto Kraenkel, professor da Unesp (Universidade do Estado de São Paulo) e pesquisador do Centro de Contingência contra Covid-19 no estado. “Seria uma loucura abrir tudo porque a população mais vulnerável a casos graves está majoritariamente vacinada”, disse ao Nexo.

    O problema da variante delta

    Outro motivo para manter os cuidados contra o contágio é a variante delta, que entrou no país em maio. Identificada em 2020 na Índia, a cepa é considerada responsável por novos repiques da pandemia em lugares com alta cobertura vacinal, como EUA e Reino Unido.

    Chamada também de B.1.1.7, a delta foi classificada como variante de preocupação do novo coronavírus pela OMS (Organização Mundial da Saúde) em maio de 2021, por conta de sua maior capacidade de transmissão e por sua propagação em mais de 100 países.

    Os primeiros registros da delta no Brasil ocorreram no Maranhão, em maio. O país identificou mais casos em outros estados, como São Paulo, Rio de Janeiro, Goiás, Minas Gerais e Paraná, e cidades como São Paulo e Rio confirmaram transmissão comunitária da nova variante.

    Em outros contextos, variantes do exterior não ganharam terreno no país — que hoje tem a maioria de casos de covid-19 ligados à gama, cepa identificada em Manaus. Para Roberto Kraenkel, não se sabe se o mesmo pode ocorrer com a delta, mas subestimá-la é um risco.

    Estudos mostram que, além de ser mais transmissível, a delta tem escape parcial da vacina contra a covid-19. Os imunizantes usados hoje, porém, oferecem proteção o bastante contra ela. Para as vacinas com regime de duas doses, é preciso duas para haver defesa completa.

    Oportunidade para conter o vírus

    Para Roberto Kraenkel, além de incentivar medidas como o distanciamento social e o uso de máscaras, os governos deveriam aproveitar o momento de recuo da pandemia para adotar medidas como a testagem em massa, que pode evitar a chegada de outra onda.

    Sem testes ou rastreio de contatos de quem tem covid-19, “o país está em voo cego” para avaliar ou controlar a pandemia, segundo o professor. Com dados mais precisos sobre a covid-19, os governos poderiam fazer inclusive reaberturas mais seguras no futuro, disse.

    Kraenkel também defende que os governos invistam mais em vigilância genômica para detectar novas variantes, como a delta, e evitar sua expansão. Considerada fraca, a rede de vigilância brasileira faz poucas análises das amostras dos vírus em comparação com outros países.

    Guimarães comentou estratégias de outros países de “conviver” com a covid-19. Na segunda-feira (19), a Inglaterra suspendeu medidas de restrição, apesar de críticas quanto ao momento, porque o país enfrenta uma alta no número de casos, grande parte ligada à variante delta.

    Com a ampliação da vacinação, propostas como essa devem aparecer no país. Segundo Guimarães, a reabertura de atividades, porém, não pode ser precipitada. Para se pensar em voltar à normalidade, a cobertura vacinal deve chegar ao patamar de 70%, reforçou ao Nexo.

    “Quando um novo vírus começa a circular, ele não volta mais para dentro da caixinha. A perspectiva de que vamos conviver para sempre com o novo coronavírus é real. A questão é que precisamos que ele não represente mais uma ameaça — nem global, nem local”

    Raphael Guimarães

    pesquisador e integrante do Observatório Fiocruz Covid-19, em entrevista ao Nexo

    Alternativas para redução de danos

    Mesmo que o distanciamento social seja a medida mais recomendada para evitar o contágio da covid-19, é importante também manter em mente medidas para reduzir os riscos de infecção em determinadas situações.

    O ideal é privilegiar saídas ao ar livre ou em ambientes com boa ventilação, considerados menos favoráveis à disseminação do novo coronavírus. Kraenkel também afirma que é importante usar boas máscaras, evitar aglomerações e manter distância de outras pessoas.

    “É necessário também levar em conta a condição da pandemia”, cujos indicadores variam dependendo do lugar do país. “Estou em um lugar com muita circulação de vírus? Se sim, vou ter mais chances de infecção”, e isso deve ser ponderado, segundo o professor.

    Espaços fechados ou com aglomeração devem ser evitados ao máximo. Caso seja inevitável passar por essa situação, é preciso tomar todos os cuidados, segundo Raphael Guimarães. “Já situações não fundamentais precisam ser evitadas agora e ainda por algum tempo.”

    “Entendo que existe um cansaço da pandemia. Mas a situação brasileira não é boa, e é preciso ter paciência”, afirmou Kraenkel ao Nexo. “A melhor medida ainda é usar máscaras e evitar o máximo de contatos.”

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