Os estudos que avaliam se a 3ª dose da vacina será necessária

Anvisa aprova teste no Brasil com terceira aplicação da AstraZeneca e São Paulo fala em nova campanha em 2022. Pesquisadores vêm analisando como será a continuidade da imunização contra a covid

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    A Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) aprovou na segunda-feira (19) a realização de testes clínicos no Brasil para estudar a eficácia e a segurança da aplicação de uma terceira dose da vacina contra a covid-19 da AstraZeneca. No mesmo dia, o governo de São Paulo anunciou já planejar uma nova campanha de imunização contra a doença no estado a partir de janeiro de 2022.

    À medida que a vacinação contra a covid-19 avança no mundo e novas variantes mais preocupantes do novo coronavírus surgem, cresce na comunidade científica a discussão sobre possíveis doses de reforço na imunização, e estudos tentam entender quando elas seriam necessárias e de que forma seria feita a aplicação. Além da pesquisa com a AstraZeneca autorizada pela Anvisa no Brasil, há no Chile estudos em andamento com a Coronavac. A farmacêutica americana Pfizer já fala na possibilidade de incluir uma terceira dose em seu esquema vacinal.

    O Nexo explica neste texto o que dizem os principais estudos em andamento sobre a possibilidade de doses de reforço e mostra como o assunto está sendo tratado no Brasil e no resto do mundo.

    A discussão sobre a terceira dose no Brasil

    A possibilidade de doses de reforço serem necessárias no futuro para manter a proteção contra um agente patogênico é algo comum em várias vacinas, explica ao Nexo Juarez Cunha, presidente da SBIm (Sociedade Brasileira de Imunizações). A dose de reforço pode ser necessária porque, com o tempo, a proteção oferecida pela vacina cai. Um exemplo disso é a vacina contra tétano, tomada de 10 em 10 anos. Outra questão são as mutações sofridas por vírus, que precisam ser acompanhadas por mudanças na vacina e novas aplicações. Um exemplo é a vacina da gripe, alterada anualmente.

    Ainda não há respostas claras em relação ao novo coronavírus em nenhum dos dois casos, mas Cunha diz que é importante que haja estudos justamente para que o Brasil esteja preparado caso seja necessário fornecer uma dose de reforço ou uma vacina diferente.

    “Pesquisas serão fundamentais para definir necessidade, qual será a performance de cada vacina e também em relação às variantes. No entanto, o mais importante é avançar na campanha. Até o momento, vemos que, mesmo com a delta, variante mais transmissível, as vacinas têm mostrado bons resultados, independentemente do tipo usado”, disse ao Nexo. O Brasil tem visto queda nos números de casos e mortes por covid-19 graças à campanha de vacinação, dizem especialistas.

    42,51%

    da população brasileira recebeu pelo menos a primeira dose da vacina contra a covid-19 até 19 de julho de 2021, segundo o consórcio de veículos de imprensa

    16,22%

    da população recebeu as duas doses ou a vacina de dose única

    Atualmente são administradas no Brasil as vacinas AstraZeneca/Oxford, Pfizer, Coronavac e Janssen. A AstraZeneca é a mais usada, seguida pela Coronavac. No dia 14 de julho, a Anvisa deu autorização para testes clínicos no Brasil com duas novas vacinas. Uma é desenvolvida pelo Instituto de Biologia Médica da Academia Chinesa de Ciências Médicas e a outra é uma nova versão da AstraZeneca.

    Recentemente, nas redes sociais, têm circulado vídeos e mensagens com desinformação sobre a imunidade após a vacinação contra a covid. Neles, pessoas aparecem fazendo testes de anticorpos para avaliar a eficácia da vacina. Cunha, assim como outros especialistas, explicam que esses testes não são capazes de medir a eficácia da vacina, pois a imunização não se mostra apenas dessa forma. Cunha lembra também que não se deve procurar tomar uma terceira dose, pois no momento não há evidências científicas de que isso seja necessário.

    Especialistas em geral reforçam que é importante que a população não busque escolher qual vacina tomar. Isso porque a imunização não é um processo individual, mas coletivo. É necessário aumentar ao máximo a cobertura vacinal para que os níveis de circulação das variantes caia e, dessa forma, todos estejam protegidos.

    Cunha também destaca que a discussão sobre aplicações além do esquema de duas doses (ou dose única) da vacina precisa levar em conta a equidade na distribuição global de vacinas, um alerta que é feito com frequência pela OMS (Organização Mundial da Saúde).

    “É egoísmo pensar em terceira dose enquanto há países que não começaram a se vacinar ainda. Não adianta um país vacinar 80% e outro, 1%, porque o vírus vai continuar circulando, variantes continuarão circulando e há a possibilidade de vacinas diminuírem a proteção se surgirem variantes que têm mutações mais importantes”, disse.

    Terceira dose e revacinação nos estados

    O governo de São Paulo anunciou também na segunda-feira (19) que pretende começar um novo ciclo de vacinação contra a covid-19 em janeiro de 2022, o que não seria uma aplicação de terceira dose, segundo o secretário estadual de Saúde, Jean Gorinchteyn.

    De acordo com ele, não se trata de um reforço, mas sim “uma necessidade que nós temos de estar sempre anualmente fazendo uma proteção”. A secretaria não esclareceu de que forma isso seria diferente de um reforço. Disse, em nota, que o objetivo no momento é vacinar com pelo menos uma dose toda a população adulta até o dia 20 de agosto e completar o esquema vacinal da campanha vigente.

    Disse também que o Plano Estadual de Imunização trabalha com a possibilidade da vacinação anual contra a covid-19, “com intervalo de tempo que permita segurança e reforço da proteção da população, a exemplo do que atualmente ocorre com a campanha contra a gripe, e todas as iniciativas serão pautadas em dados científicos e técnicos”.

    Ao jornal O Estado de S. Paulo, Gorinchteyn disse que a nova campanha poderá ser feita com apenas uma dose e que o governo priorizará a Butanvac, ainda em testes, como imunizante principal.

    No Rio de Janeiro, a Secretaria Municipal de Saúde afirmou ter a intenção de aplicar terceiras doses em idosos, mas disse que isso só acontecerá “diante de recomendação científica, liberação da Anvisa e após toda a população carioca estar imunizada”. Não informou, no entanto, o que embasou essa intenção.

    O Ministério da Saúde disse, em nota, que até o momento não há evidência científica que confirme a necessidade de doses adicionais. A recomendação é que estados e municípios sigam o que é definido pela Câmara Técnica Assessora em Imunização e Doenças Transmissíveis, que é pactuada entre União e gestores estaduais e municipais, e pelo Plano Nacional de Operacionalização da Vacinação contra a Covid-19 (PNO).

    O ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, disse na segunda-feira (19), após o anúncio do governo de São Paulo, que acha que é cedo para falar sobre a terceira dose no Brasil. Na visão dele, primeiro, é preciso concluir a vacinação com pelo menos uma dose em toda a população. Ele também fez um “apelo a todos os gestores para que nós sigamos a decisão do Programa Nacional de Imunização”.

    “Qual é a evidência científica disponível que nós devamos já começar a falar numa terceira dose? (...) Quando nós dissermos isso à população é necessário que nós tenhamos uma evidência científica sólida, inclusive como nós devemos fazer. Por exemplo, se é com o mesmo imunizante, se vamos usar intercambialidade, se é com outro imunizante, se é só um booster que vai se fazer, um reforço, ou se nós precisamos aplicar duas doses”, afirmou o ministro.

    Os estudos com a AstraZeneca

    O estudo autorizado pela Anvisa na segunda-feira (19) é financiado pela farmacêutica anglo-sueca AstraZeneca e será conduzido somente no Brasil com 10 mil voluntários na Bahia, no Rio de Janeiro, no Rio Grande do Sul, no Rio Grande do Norte e em São Paulo.

    A pesquisa terá como participantes os voluntários dos ensaios clínicos iniciais que receberam as duas doses da vacina com um intervalo de quatro semanas entre elas. A terceira dose será aplicada entre 11 e 13 meses após a segunda.

    No fim de junho, pesquisadores da Universidade de Oxford, que desenvolveu a vacina da Astrazeneca junto com a farmacêutica, concluíram que uma terceira dose da vacina aumenta a resposta imunológica que ela produz, mas que não há evidências científicas que comprovem que ela é necessária para garantir a manutenção da proteção.

    O estudo da Universidade de Oxford mostrou que uma terceira dose da vacina aumenta as respostas imunes de anticorpos e de células T. A pesquisa é um pre-print, ou seja, ainda não passou por revisão de outros cientistas. Ela analisou 90 participantes que receberam uma terceira dose. Todos os participantes tinham entre 18 e 55 anos.

    O diretor do Grupo de Vacinas de Oxford, Andrew Pollard, disse ao divulgar a pesquisa que ainda não está claro que uma terceira dose seja necessária e que evidências mostram que a vacina protege contra as variantes existentes por um período considerável.

    “Neste momento, com uma alta taxa de proteção na população do Reino Unido e nenhuma evidência de que isso foi perdido, aplicar terceiras doses no Reino Unido enquanto outros países têm zero doses não é aceitável”, disse Pollard, segundo a agência Reuters.

    “Não se sabe se doses de reforço serão necessárias devido ao declínio da imunidade ou para aumentar a imunidade contra variantes preocupantes”, disse ao site da universidade a professora associada Teresa Lambe, autora principal desses estudos.

    Os estudos com a Coronavac

    O Chile teve uma das campanhas de vacinação mais rápidas do mundo, com 18,1 milhões de doses de Coronavac administradas até o dia 15 de julho, além de 3,9 milhões de doses da vacina da Pfizer/BioNTech e outras quantidades menores de imunizantes da Cansino Biologics e da AstraZeneca. Até a data, 70% da população do país recebeu ao menos uma dose e 61% estavam completamente vacinados, segundo o site Our World in Data. O país, no entanto, enfrentou novas ondas de infecção e agora estuda a adoção de uma terceira dose.

    Há uma pesquisa em estágio avançado que avalia a necessidade de novas doses da Coronavac. Os líderes do estudo dizem que, seis meses depois da vacinação, os resultados de imunização são muito positivos, mas ainda assim recomendaram, em 14 de julho, que seja adotada uma terceira dose do imunizante.

    Alexis Kalergis, diretor do Instituto Millennium de Imunologia e Imunoterapia do Chile e professora da Universidade Católica do Chile, que realizou o ensaio clínico com 2.000 participantes, disse ao órgão de comunicação da universidade: “até o momento, as vacinas aprovadas têm demonstrado uma eficácia populacional muito boa, reduzindo os casos da doença. (...) Porém, a diminuição natural dos anticorpos após a vacinação evidencia a necessidade de fortalecer a imunidade com doses de reforço para compensar e potencializar a neutralização do vírus”.

    Kalergis tambem afirmou que todas as vacinas aprovadas para uso demonstram manter a proteção contra as variantes do vírus.

    Juarez Cunha, presidente da SBIm (Sociedade Brasileira de Imunizações), diz que é importante ter cautela ao olhar para pesquisas realizadas em outros países, pois cada um tem realidades particulares e situações socioeconômicas diferentes.

    Ele destaca, por exemplo, que o resultado da Coronavac no Brasil tem sido muito positivo. Um estudo conduzido a partir de abril em Serrana, no interior de São Paulo, mostrou que a aplicação em massa da Coronavac reduziu de maneira expressiva os números de casos, internações e mortes por covid-19. Oito semanas depois de vacinar 95,7% da população adulta da cidade, Serrana teve uma queda de 95% nas mortes, 86% nas hospitalizações e 80% nos casos sintomáticos, de acordo com o Butantan.

    A discussão em outros países e com outras vacinas

    A fabricante de vacinas Pfizer tem avaliado a necessidade de uma dose de reforço da imunização contra o coronavírus.

    No dia 8 de julho, representantes da empresa disseram à agência de notícias Associated Press que dados preliminares de um estudo que a empresa está fazendo indicam que os níveis de anticorpos podem aumentar de cinco a dez vezes após uma terceira dose, em comparação com o constatado após a segunda dose meses antes.

    A farmacêutica e sua parceira BioNTech disseram que buscariam a aprovação dos EUA e da Europa para uma terceira dose, em meio à disseminação de novas variantes.

    Segundo a agência Reuters, as empresas dizem que há evidências de risco de infecção seis meses após a aplicação inicial. O governo americano, no entanto, disse que o país não precisa de reforço neste momento.

    O governo do Reino Unido diz que avalia a possibilidade de adoção de terceiras doses. Israel também estuda a possibilidade de doses extras para sua população, disse o primeiro-ministro, Naftali Bennett, enquanto o país enfrenta nova onda de casos. O país já disse que vai oferecer a terceira dose para as pessoas mais vulneráveis, como idosos, mas ainda avalia se o fará para o restante da população.

    Um documento interno da OMS (Organização Mundial da Saúde) obtido pela agência Reuters prevê que as pessoas mais vulneráveis à doença, como os idosos, precisarão receber um reforço vacinal anual para se protegerem contra novas variantes. O documento também sugere reforços a cada dois anos para a população em geral. Isso porque novas variantes continuariam a surgir e as vacinas seriam atualizadas regularmente para enfrentar essas ameaças.

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