Os casos de covid-19 na Olimpíada. E as regras para evitar um surto

Governo japonês aposta em código de conduta para impedir a disseminação da doença, que já foi diagnosticada em local que abriga equipes 

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    Atletas que estão dentro da Vila Olímpica, local que abriga os competidores dos Jogos de Tóquio, foram diagnosticados com a covid-19 em meio a um cenário de desaprovação da população japonesa sobre a realização da Olimpíada. A abertura dos jogos será nesta sexta-feira (23), com cerimônia às 8h (horário de Brasília) restrita a convidados e a chefes de Estado.

    O primeiro caso foi confirmado no sábado (17): trata-se de um funcionário, e que está cumprindo quarentena de 14 dias em um hotel. Os dois seguintes vieram a público no domingo (18); dois atletas sul-africanos. Nesta segunda-feira (19), foi confirmado que estão com covid-19 o jogador de vôlei de praia da República Tcheca Ondrej Perusic e a ginasta Kara Eaker, dos Estados Unidos. A Vila Olímpica é restrita aos atletas e funcionários e deve reunir cerca de 11 mil pessoas durante o evento.

    Neste texto, o Nexo fala como a doença está atingindo o país asiático, quais são as medidas tomadas pelo Japão para controlar a disseminação do vírus e qual foi o resultado sanitário da realização de outras competições esportivas recentes, a Eurocopa e a Copa América.

    Os esforços para conter a transmissão

    A confirmação dos casos entre os atletas confinados na Vila Olímpica vem gerando questionamentos da imprensa japonesa e da população, que argumentam sobre a efetividade das medidas adotadas pelo COI (Comitê Olímpico Internacional) e pelo governo japonês. Além disso, pesquisa divulgada no início de julho pelo jornal Japan News Network mostrou que 77% da população acredita que os jogos não deveriam ser realizados por causa da pandemia de coronavírus.

    Além dos contaminados na Vila Olímpica, o vírus atingiu pelo menos sete equipes que chegaram ao Japão a uma semana da cerimônia de abertura, segundo a agência Reuters. Um dos exemplos é a brasileira de judô: 49 membros estão em isolamento depois de oito casos de covid-19 serem descobertos entre funcionários de um hotel onde a delegação está hospedada, no sudoeste da capital japonesa.

    O presidente do Comitê Organizador de Tóquio, Seiko Hashimoto, disse que há esforço para evitar um surto, mas que, se o surto ocorrer, “teremos um plano para conter”. A fala contradiz a declaração do presidente do COI (Comitê Olímpico Internacional), Thomas Bach, que afirmou em 15 de julho que a disseminação da doença no Japão por causa da Olimpíada tinha “risco zero”. O especialista em saúde e conselheiro dos Jogos Brian McCloskey disse à imprensa que as situações estão dentro do esperado e que o total de casos é abaixo do que se imaginava para o momento.

    Desde o dia 1° de julho, o país saltou de uma média móvel de casos diários de 1.500 para quase 3.000, de acordo com dados do site Our World In Data. Pouco mais de 33% da população japonesa está vacinada com uma dose e 21,7% totalmente imunizada. Em junho, a campanha de vacinação foi acelerada por conta da competição.

    Desde a divulgação do primeiro código de conduta em fevereiro de 2021, com diretrizes para atletas, delegações e imprensa, o Comitê Organizador vêm divulgando uma série de estratégias, que mudaram conforme a curva de casos de covid-19 no Japão.

    Código de conduta

    Arquibancadas vazias

    Uma das medidas consideradas mais drásticas foi a proibição da presença do público em anúncio feito pelo governo japonês no dia 8 de julho. Antes disso, a limitação era restrita a 10 mil pessoas, residentes do país, por evento. A decisão se deu pelo aumento de casos e pela detecção da variante delta no Japão, considerada mais contagiosa.

    A ‘bolha anticovid’

    A Vila Olímpica, inaugurada no dia 13 de julho, foi definida pela organização como uma “bolha anticovid”, com medidas que evitariam um eventual alastramento do vírus. Os quase 11 mil atletas ficarão restritos ao local, que conta com 3.800 alojamentos, refeitório, academia e uma clínica médica. O uso de máscara é obrigatório, bem como o distanciamento social.

    Testes diários

    O código de conduta do COI definiu que os atletas e outros profissionais que viajarem ao país para atuar na Olimpíada precisam fazer dois testes de covid-19 para viajar. Os atletas que chegam ao país realizam o primeiro PCR no aeroporto e são testados diariamente até o fim da estadia no país. Os demais participantes são testados por três dias consecutivos e depois monitorados conforme necessidade. Os atletas devem deixar a Vila Olímpica 48 horas após a última competição.

    Quarentena em hotéis

    Em caso de PCR positivo no aeroporto, a pessoa é transportada em veículos específicos e enviada a um hotel para quarentena de 14 dias ou para um hospital, se necessário. Delegações com membros que tiveram diagnóstico positivo ou que tiveram contato com alguém infectado se mantêm isoladas, mesmo com teste PCR negativo.

    Comitivas limitadas

    Inicialmente, o COI permitia que cada atleta pudesse ser acompanhado por duas pessoas. Por causa do aumento dos casos e receio de novas variantes do vírus, o comitê vetou a presença dos acompanhantes, diminuindo assim o número de estrangeiros no país.

    O saldo da Eurocopa e da Copa América

    Mesmo com regras mais rígidas do que outros países que sediaram competições esportivas recentemente, o Japão pode enfrentar uma alta nos casos de covid-19 e outras complicações, a exemplo da Eurocopa, o campeonato europeu de futebol. De acordo com a Organização Mundial da Saúde, a presença de público nos estádios e nos bares impulsionaram a alta de casos em 10% no fim do mês de junho.

    No Brasil, a Copa América aconteceu entre 11 de junho a 10 de julho em meio a um clima político tenso por conta de revelações da CPI da Covid, das oscilações no ritmo de vacinação e do discurso negacionista do presidente Jair Bolsonaro. Em 1° de junho, quando foi confirmado que o país seria sede da competição, o Brasil acumulava 460 mil mortes pela doença.

    Alguns dias depois do início do torneio, no dia 19 de junho, o país alcançou a marca trágica de 500 mil mortes. Mas os meses de junho e julho têm sido marcados pela desaceleração de novos casos e mortes. O contexto sanitário e político, no entanto, é um dos aspectos que levaram ao desinteresse pelas partidas, que teve a Argentina como campeã, com derrota da seleção brasileira na final.

    Além da detecção de casos de covid-19 a cada delegação que chegava ao Brasil, como a da Venezuela, que teve 12 casos, um balanço da Conmebol (Confederação Sul Americana de Futebol) confirmou que ao menos 166 pessoas ligadas à Copa América foram infectadas pelo vírus. Os jogos foram realizados sem público, com exceção da final, que teve 10% do estádio do Maracanã liberado.

    A Copa América também trouxe uma nova cepa ao país, a B.1.621, identificada pela primeira vez na Colômbia. Segundo análise genética feita pelo Instituto Adolfo Lutz, ela foi responsável por dois casos de covid-19 detectados em jogadores de seleções que participaram do torneio.

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