Qual o papel da Davati na crise das vacinas na mira da CPI

Representante de empresa americana que negociou imunizantes com o Ministério da Saúde confirma a senadores ter sido avisado sobre suposto pedido de propina

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Na última sessão antes do recesso parlamentar, a CPI da Covid ouviu na quinta-feira (15), por mais de seis horas, o consultor Cristiano Alberto Hossri Carvalho, representante da Davati Medical Supply no Brasil. A empresa americana esteve em contato com o Ministério da Saúde no começo do ano para oferecer 400 milhões de doses da vacina da AstraZeneca, embora elas não sejam vendidas por intermediários.

O caso atraiu a atenção dos senadores após o policial militar Luiz Paulo Dominghetti, que tentava vender as vacinas em nome da Davati, denunciar um suposto pedido de propina de US$ 1 por dose feito por um funcionário da Saúde. Criada para apurar as ações e omissões do governo federal na pandemia, a comissão investiga se servidores se aproveitaram da crise sanitária e da demora na compra de vacinas para desviar dinheiro público de dentro da pasta. A CPI, que foi prorrogada por mais 90 dias, irá retomar os trabalhos em 3 de agosto.

Em seu depoimento, Carvalho confirmou o pedido de propina feito a Dominghetti. Ele também listou ao menos seis militares, a maioria com funções no governo federal, que teriam participado das negociações. A seguir, o Nexo traz os principais pontos de sua fala.

O que é a Davati

Com sede no Texas, nos Estados Unidos, o Grupo Davati é uma holding criada pelo empresário Herman Cardenas que realiza vários tipos de negócios, como a venda de materiais de acabamento (portas, janelas, pias, entre outros) para a construção civil. A Medical Supply fornece equipamentos de proteção, remédios contra a gripe e vacinas.

Ela não tem escritório ou contrato no Brasil e na América Latina. Carvalho alegou ter uma carta de representação em inglês que lhe dá “poderes limitados para representar a empresa no Brasil e, eventualmente, trazer negócios”.

À CPI ele descreveu seu trabalho como uma espécie de “mensageiro das informações que recebia nos Estados Unidos com os interessados no Brasil”. “Eu só fazia realmente a relação comercial entre o Brasil e os Estados Unidos, passando aqui as necessidades que haviam sido expostas pelos interlocutores locais”, disse.

Já Dominghetti não tinha vínculo formal com a Davati, mas disse ter firmado um acordo verbal com Carvalho para poder representar a empresa americana nas negociações com o Ministério da Saúde.

Apesar da oferta, Cardenas confirmou ao jornal Folha de S.Paulo na quinta-feira (15) que a Davati nunca teve vacinas para entregar. Segundo ele, a intenção era apenas “alocar vacinas” da AstraZeneca para o Brasil e facilitar o negócio entre a fabricante e o governo brasileiro, mediante uma comissão não informada.

A AstraZeneca afirma não negociar com empresas privadas, apenas diretamente com governos. A farmacêutica anglo-sueca tem um acordo fechado desde 2020 com a Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz), ligada ao Ministério da Saúde, para a produção do seu imunizante no Brasil.

O pedido de comissionamento

A denúncia sobre o pedido de propina foi feita por Dominghetti ao jornal Folha de S.Paulo no final de junho e confirmada pelo policial militar à CPI no começo de julho. Segundo ele, o então diretor de Logística do Ministério da Saúde, Roberto Ferreira Dias, teria pedido durante um encontro num restaurante de Brasília, em 25 de fevereiro, US$ 1 de propina para cada dose ofertada pela Davati para que a compra pudesse ocorrer. Dias confirmou o encontro, mas negou ter feito o pedido. Ele foi exonerado do cargo após a revelação das suspeitas.

Em seu depoimento na quinta-feira (15), Cristiano Carvalho afirmou não ter participado do encontro, mas confirmou ter sido informado sobre o caso por Dominghetti. Ele disse não ter ouvido pessoalmente nenhum pedido de propina de integrantes do ministério.

“A informação que veio a mim — vale ressaltar isso — não foi o nome propina, tá? Ele usou comissionamento. Ele [Dominghetti] se referiu a esse comissionamento sendo do grupo do Tenente-Coronel Blanco e da pessoa que o tinha apresentado ao Blanco, que é de nome Odilon”

Cristiano Carvalho

representante da Davati

O tenente-coronel Marcelo Blanco é apontado como um dos participantes do encontro no restaurante. Ele atuou como assessor do departamento na gestão de Dias, mas foi exonerado em janeiro. Mesmo assim, continuava na função de substituto do diretor do Departamento de Logística do ministério, até ser dispensado no final de junho, após as denúncias.

Já Odilon é apontado pela CPI como Guilherme Filho Odilon, que teria sido o responsável por apresentar Blanco a Dominghetti.

Insistência do ministério

O representante da Davati também revelou ter havido uma certa insistência de Roberto Dias, o diretor do Ministério da Saúde, na compra de vacinas. Ele leu uma série de mensagens seguidas que diz ter recebido do ex-funcionário do governo pedindo para que ele retornasse o contato. Todas foram enviadas no mesmo dia, à noite, num curto intervalo de tempo.

“Como vocês vão verificar nas mensagens e nas informações, eu nunca entrei em contato com o Ministério da Saúde; o Ministério da Saúde é que me procurou através do sr. Roberto Ferreira Dias”

Cristiano Carvalho

representante da Davati

Carvalho disse ter ficado surpreso com o contato e desconfiado, a ponto de confirmar na internet se Dias era realmente funcionário da Saúde. Os senadores ironizaram o episódio de interesse do governo em comprar as vacinas da Davati, dizendo que era o contrário do que havia acontecido nas negociações da farmacêutica Pfizer com o governo, que demoraram 11 meses.

Os envolvidos nas negociações

As negociações paralelas que ocorriam no Ministério da Saúde reveladas pelo representante da Davati implicam ao menos seis militares, a maioria deles com cargos no governo. O nome do coronel Elcio Franco, que foi secretário-executivo da pasta na gestão de Eduardo Pazuello, também foi citado. Franco foi exonerado do cargo na Saúde em março de 2021 e, em abril, foi nomeado assessor na Casa Civil. Ele é citado também no Caso Covaxin, que envolve suspeitas de favorecimento e sobrepreço na negociação da vacina indiana.

Segundo Carvalho, havia duas maneiras de entrar no ministério para negociar vacinas: por meio de Dias ou por Franco. Segundo o representante da Davati, Dominghetti tentou primeiro por meio de Dias, mas as negociações não teriam prosseguido devido ao pedido de propina.

Paralelamente, a Davati continuou conversando com a pasta e falou diretamente com Franco, segundo o representante. Quem teria feito a ponte entre eles foi o coronel da reserva Helcio Bruno, que preside um instituto chamado Força Brasil.

Durante a CPI, o site do instituto estava fora do ar. O senador Randolfe Rodrigues acusou o Força Brasil de patrocinar redes que estavam sendo investigadas no inquérito das fake news e pela CPMI das Fake News.

Carvalho, porém, exime Franco do caso envolvendo Dias. Segundo ele, ao participar de uma reunião com o secretário-executivo do ministério ao lado de outros dois coronéis, o grupo demonstrou desconhecer que a Davati já estava negociando com o governo por meio do diretor.

Outra entidade apontada nas investigações como facilitador de contatos entre a Davati e o governo é a ONG evangélica Senah (Secretaria Nacional de Assuntos Humanitários). Ela é presidida pelo reverendo Amilton Gomes de Paula e prometia a Dominghetti acesso a nomes do ministério.

Constrangimento dos senadores

Os detalhes das negociações entre a Davati, uma empresa que não tinha como garantir o fornecimento das vacinas prometidas, e o governo federal, que recebeu seus representantes dentro do ministério para negociar, causaram desconforto nos senadores governistas.

Líder do governo no Senado, Fernando Bezerra (MDB-PE) afirmou que os relatos expunham a falta de capacidade técnica da Davati e de representantes para “tratar com o governo brasileiro uma eventual aquisição ou compra de vacinas”.

“Eu estou realmente, digamos assim, constrangido com os diálogos que estão sendo aqui mostrados, mas é importante também deixar claro que, apesar de todas essas contradições ou equívocos, ou falhas, ou transgressões que possam ter sido praticados por eventuais colaboradores ou servidores, essas negociações não foram à frente”

Fernando Bezerra

líder do governo no Senado

Senadores de oposição lembraram que a corrupção pode ser caracterizada nas negociações que envolviam propina mesmo que nenhuma vacina tenha sido comprada. Eles lembraram também que outro acordo suspeito, envolvendo a vacina indiana Covaxin, foi cancelado pelo governo apenas após suspeitas virem à tona.

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