Por que estrangeiros estão colocando tanto dinheiro na bolsa

Investidores de fora colocam mais de R$ 60 bilhões no mercado de ativos brasileiro no primeiro semestre de 2021. O ‘Nexo’ conversou com um economista para entender o fenômeno

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    A Bolsa de Valores de São Paulo registrou no primeiro semestre de 2021 um alto volume de dinheiro estrangeiro chegando ao Brasil. No saldo de entradas e saídas, os investidores de outros países colocaram mais de R$ 60 bilhões na bolsa nos primeiros seis meses do ano, segundo dados da B3.

    R$ 65,1 bilhões

    é o dinheiro de estrangeiros que entrou na bolsa de São Paulo no 1° semestre de 2021, segundo dados da B3 atualizados até 29 de junho

    A entrada de dinheiro estrangeiro na primeira metade de 2021 supera com folga os saldos de anos recentes. O movimento acontece em meio à alta da bolsa brasileira e à retomada da atividade econômica no país – que não é acompanhada de uma geração expressiva de empregos, segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

    Neste texto, o Nexo detalha esse movimento e conversa com um economista sobre o que está por trás do fenômeno.

    A entrada de dinheiro estrangeiro em 2021

    O saldo de R$ 65,1 bilhões em dinheiro de fora entrando na bolsa brasileira é o maior de anos recentes. O valor supera até a soma de todos os saldos de 2016 a 2020. O gráfico abaixo ilustra essa diferença.

    DINHEIRO DE FORA

    Saldo do fluxo de dinheiro estrangeiro na bolsa brasileira no ano. 2021 supera todos os anos desde 2016

    O fluxo do dinheiro de fora na bolsa pode ser dividido em duas frentes. A primeira é o saldo de compra e vendas de ações que já estavam sendo negociadas na bolsa. Essas ações compõem o chamado mercado secundário.

    A segunda frente se dá nas novas ofertas públicas de ações – ou seja, quando empresas colocam papéis novos à venda no pregão. Essas operações são conhecidas como IPOs (“initial public offering” ou oferta pública inicial) e follow-ons. IPOs são os processos em que empresas vendem ações ao público pela primeira vez, enquanto follow-ons são novas vendas de ações por uma empresa que já tem capital aberto na bolsa.

    No primeiro semestre de 2021, investidores de fora compraram R$ 17,6 bilhões em novas ações ofertadas no pregão. Isso representa pouco mais de um quarto de todo o dinheiro que os estrangeiros colocaram na bolsa no período. O dado não considera IPOs e follow-ons que ocorreram no mês de junho – o saldo dessas operações nesse mês ainda não havia sido divulgado pela B3 até o fechamento deste texto.

    Esse número foi impulsionado pela alta quantidade de IPOs no primeiro semestre de 2021. Nesse período, foram 28 empresas estreando na bolsa, igualando o total de 2020. Com isso, 2021 caminha para ser o ano com maior número de empresas abrindo capital no Brasil desde ao menos 2007, quando ocorreram 64 IPOs em doze meses. É o que mostra o gráfico abaixo.

    CAPITAL ABERTO

    Empresas que abriram capital na bolsa brasileira, por ano. Em um semestre, 2021 já iguala o total de 2020

    O contexto da bolsa de valores

    A entrada massiva de dinheiro de fora se deu em um momento de alta da bolsa de valores. O Ibovespa – principal índice da bolsa brasileira – fechou o primeiro semestre de 2021 com alta acumulada de 6,5%, dando continuidade à tendência de crescimento observada desde meados de 2020.

    BOLSA EM ALTA

    Trajetória do Ibovespa de 2020 a metade de 2021. Queda forte no início de 2020, mas depois recuperação e superação do patamar pré-pandemia.

    O Ibovespa é um índice que reúne as principais ações num pacote pensado para representar a bolsa brasileira. Ele é comumente usado como sinônimo da bolsa brasileira, mas é só um índice. A bolsa é composta por mais empresas. Por convenção, quando se diz que a bolsa subiu 1%, quer dizer que o valor do Ibovespa em pontos aumentou 1%. Saiu, por exemplo, de 100 mil para 101 mil pontos.

    O que está por trás do fluxo de dinheiro de fora

    Para Joelson Sampaio, coordenador do curso de economia da FGV-EESP (Escola de Economia de São Paulo da Fundação Getulio Vargas), o principal motivo por trás desse movimento foi o câmbio. “A questão do câmbio foi bem favorável para os ativos no Brasil ficarem bastante acessíveis para os estrangeiros. E isso favoreceu, num cenário de recuperação econômica, a entrada de capital”, disse Sampaio ao Nexo.

    A cotação da moeda americana permanece alta em 2021, embora tenha registrado alguma queda no segundo trimestre. Com o real desvalorizado frente ao dólar, as ações na bolsa brasileira – negociadas em real – ficaram mais baratas em dólar. “Outros países não tiveram isso na mesma proporção”, afirmou o professor da FGV.

    A recuperação econômica e a bolsa

    Além disso, os investidores enxergaram no Brasil uma perspectiva melhor de recuperação econômica em 2021, segundo Sampaio. E o boom internacional de commodities – que vem favorecendo exportações de produtores brasileiros na agropecuária e na indústria extrativa – teve papel importante para melhorar essas expectativas com relação ao crescimento do país. “O Brasil tem uma característica de um grande operador e exportador de commodities. Isso certamente facilitou e influenciou a entrada desses investidores nesse período”, disse Sampaio ao Nexo.

    Com relação à forma como a retomada da atividade econômica vem acontecendo no Brasil – com pouca geração de emprego e renda, segundo o IBGE –, o economista afirmou que esse fato acaba tendo pouco impacto na decisão dos investidores internacionais. “O desemprego é a última variável a sair da crise – o que não é uma coisa particular do Brasil. Os investidores olham mais para quanto o PIB [Produto Interno Bruto] vai crescer, quais ações estão baratas e o que pode fazer essas empresas com ações em baixa voltarem a crescer”, disse. “Também olham se o país tem estabilidade nas regras, para saber se vale a pena colocar o dinheiro aqui – o risco país, em resumo. Olham muito mais para tudo isso do que para a questão ligada a empregos”.

    Sobre a perspectiva para o fluxo de dinheiro estrangeiro no Brasil no segundo semestre de 2021, Sampaio afirmou que o movimento “vai depender bastante de como o Brasil vai reagir daqui para frente em relação aos desafios da dívida e aos desafios mais estruturais – reformas como a tributária e administrativa”. “Isso vai afetar se esse dinheiro continuará aqui ou não”, disse o professor da FGV ao Nexo.

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