Mais vacina e leitos livres, menos mortes: a pandemia vai recuar?

O ‘Nexo’ ouviu dois especialistas para entender a redução nas mortes e na ocupação de hospitais e o impacto da imunização até o momento

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    O Brasil chegou à marca de 100 milhões de doses de vacinas contra a covid-19 aplicadas na população. O número foi registrado na quinta-feira (1º).

    A campanha, que foi marcada por atrasos, tropeços e, mais recentemente, suspeitas de corrupção, já imunizou completamente 12,5% da população, entre os que receberam segunda dose ou vacina de dose única. Os dados são do consórcio de veículos de imprensa que monitora o avanço da covid-19 no país.

    Também na quinta-feira (1º), a média móvel de mortes no Brasil chegou ao menor patamar desde fevereiro de 2021: 1.588 óbitos, segundo o consórcio de imprensa. Uma queda de 14% em relação aos números da última quinzena de junho.

    Nos hospitais, houve uma pequena melhora nas taxas de ocupação de leitos de UTI: queda de 0,2% ao dia nos números de novos casos entre 20 e 26 de junho, de acordo com boletim epidemiológico divulgado pela Fundação Oswaldo Cruz na quarta-feira (30). A disponibilidade de leitos é considerada crítica em 8 dos 27 estados – nos momentos mais graves da pandemia, isso era observado em quase todos.

    O Nexo ouviu dois biólogos para entender qual foi o impacto da vacinação até o momento e o que vem agora. São eles:

    • Fábio Mesquita, geneticista, doutor em genética pela USP (Universidade de São Paulo), e professor da Faculdade Campos Elíseos, em São Paulo
    • Laura Marise, microbiologista, doutora em biociências pela Unesp (Universidade Estadual Paulista) e cofundadora do canal de YouTube Nunca vi 1 cientista.

    No quadro geral da pandemia, qual foi o impacto da vacinação até agora?

    Fábio Mesquita Em países em que a cobertura vacinal é ampla e abrange diversas faixas etárias, os números são animadores, como registrado nos EUA e em Israel. Entretanto, acredita-se que o impacto positivo das vacinas foi maior nesses países porque foi associado a medidas restritivas, entre elas, o lockdown.

    Em países como o Chile, por exemplo, em que as medidas restritivas não foram tão contundentes, como no Brasil, a relativamente ampla cobertura vacinal não teve o mesmo impacto positivo.

    Laura Marise Temos começado a ver uma queda na média de idade das pessoas que são internadas, que ficam em estado mais grave. Isso é um indício de que a vacinação está fazendo efeito, porque começamos a imunização pelas pessoas mais velhas.

    É esperado que isso aconteça, e já temos visto esse impacto na redução da média de idade, o que é bem importante.

    O ritmo da vacinação está sendo suficiente? A previsão de vacinar todos os brasileiros com mais de 18 anos até o fim de 2021 é factível?

    Fábio Mesquita Considerando apenas o Brasil, com suas elevadas taxas de transmissão e mortalidade, podemos dizer que a vacinação está longe de ser suficiente. Juntamente com medidas de isolamento, uso de máscara e de álcool em gel, a vacinação é uma variável importante no controle da doença, e esse controle infelizmente ainda não foi atingido no Brasil.

    Apesar de um aumento no ritmo de vacinação no mês de junho, observamos que apenas 35,2% da população brasileira recebeu a primeira dose de alguma vacina, e somente 12,55% da população recebeu a segunda dose, e é importante lembrar que já estamos na metade do ano. Mesmo considerando somente a parcela da população acima de 18 anos, será um grande desafio vacinar a todos até o final do ano, considerando apenas a primeira dose de alguma vacina. Se considerarmos a vacinação completa, incluindo a segunda dose, acredito que não será factível realizá-la até o final de 2021.

    Ainda há muita resistência à vacinação entre as pessoas, alimentada por fake news e medo de reações adversas. A falta de uma campanha de vacinação efetiva por parte do governo também contribui para que a procura pela vacina esteja aquém do esperado. Vale ressaltar que a resistência do governo federal à aquisição de vacinas em 2020 justifica boa parte da relativamente baixa cobertura vacinal registrada hoje.

    Laura Marise Estamos muito aquém do que poderíamos estar. O Brasil tem uma estrutura muito grande de vacinação para imunizar milhares ou milhões de pessoas por dia. Se a gente tivesse as doses disponíveis antes, estaríamos vacinando em uma velocidade muito maior.

    Também temos o problema das pessoas que querem escolher qual vacina vão tomar, o que também atrasa o ritmo, já que os postos de vacinação acabam não aplicando todas as doses previstas para aquela semana ou para aquele mês.

    Não é o suficiente para a gente conter o mais rápido possível, mas é melhor do que nada para o momento. A meta de vacinar todos até o final do ano é factível, desde que a gente tenha as doses disponíveis. Acredito que pelo menos uma dose conseguimos garantir até o fim de 2021, entre os maiores de 18 anos.

    A queda no número de mortes e nas taxas de ocupação das UTIs é reflexo da vacinação? É um indício de um possível começo do controle da pandemia no país?

    Fábio Mesquita Em se tratando de Brasil, embora a taxa de transmissão do coronavírus esteja aumentando continuamente desde o início do ano, de fato, a taxa de mortalidade vem diminuindo.

    Essa diminuição da mortalidade pode ser explicada pela vacinação, especialmente das pessoas que compõem os grupos de risco. Esse é um bom sinal de que o controle da pandemia passa pela vacinação, porém, esse controle ainda é muito incipiente.

    Laura Marise Acredito que esses dados sejam sim um reflexo, então começamos a enxergar uma menor gravidade da doença, menor número de casos que necessitam de internação e assistência de UTI.

    Mas pode ser que haja outros fatores associados, como cidades que fizeram um lockdown rígido. Podemos ter muitas coisas relacionadas a esses números, mas a vacinação com certeza é um dos fatores. Quanto ao controle da pandemia, não acredito nisso neste momento, porque temos visto o surgimento de novas variantes, e a qualquer momento essas cepas podem despertar novas ondas.

    A gente realmente só vai conseguir controlar quando todos os adultos tiverem as duas doses das vacinas que requerem duas doses. Por enquanto, precisamos seguir com todas as medidas restritivas, se não, não vamos conseguir controlar.

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