Como foi o 3º ato nacional pelo impeachment de Bolsonaro

Ocorridas em todos os estados, manifestações incorporam pauta anticorrupção e promovem apelo a novos participantes. Em São Paulo, petistas e tucanos protestaram lado a lado

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    A terceira manifestação nacional pelo impeachment do presidente Jair Bolsonaro reuniu neste sábado (3) milhares de pessoas em todos os estados do Brasil. Inicialmente prevista para 24 de julho, ela foi antecipada devido às suspeitas em torno das negociações de vacinas contra a covid pelo governo federal.

    A organização dos atos disse que houve uma adesão maior do que a registrada no protesto anterior, em 19 de junho. Em São Paulo, único local onde houve estimativa de um órgão oficial, a Secretaria de Segurança Pública contou um número menor de presentes dessa vez. Por outro lado, houve uma ampliação do espectro político dos participantes: petistas e tucanos, por exemplo, manifestaram-se juntos.

    Neste texto, o Nexo conta qual foi a adesão aos protestos, quais pautas predominaram e quem foi às ruas.

    A adesão numérica aos atos

    A Campanha Fora Bolsonaro, que reúne partidos políticos de esquerda, centrais sindicais e movimentos sociais e organiza os protestos, informou ao jornal Folha de S.Paulo que houve 352 atos em 312 cidades em todos os estados do Brasil, além de outras 35 manifestações realizadas por brasileiros em diferentes países do exterior. Segundo os organizadores, todos esses protestos reuniram 800 mil pessoas.

    Em 19 de junho, a organização havia confirmado 227 atos em 210 cidades, fora 14 cidades no exterior. O número de manifestantes divulgado havia sido de 750 mil pessoas.

    O único órgão oficial a divulgar estimativas de manifestantes pelo Brasil foi a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo. Segundo a pasta, 5.500 pessoas compareceram à avenida Paulista, palco do ato na capital do estado. É menos do que foi registrado em 19 de junho, 9.000. E menos do que a “motociata” em favor de Bolsonaro naquele mês, quando o sistema de monitoramento da rodovia dos Bandeirantes registrou 6.600 veículos.

    Em São Paulo, manifestantes fecharam as duas vias da Paulista. Ao fim do ato, houve confrontos com policiais, após tumultos numa estação de metrô e uma agência de banco ser depredada na rua da Consolação. No Twitter, Bolsonaro compartilhou fotos do episódio, sugerindo que os protestos fazem parte de um projeto violento de tomada de poder. Em todo o Brasil, não houve outros incidentes entre manifestantes e agentes de segurança.

    Porto Alegre e Brasília também registraram um número mais volumoso de manifestantes. Na capital federal, os organizadores chegaram a estimar a presença de 30 mil participantes.

    Em Maceió, Recife, Belém, São Luís e Rio de Janeiro os protestos começaram de manhã e terminaram no início da tarde. No Rio, milhares compareceram às ruas, mas jornalistas presentes ao evento constataram uma adesão menor do que no dia 19 de junho.

    A corrupção somada às pautas

    Assim como nos dois últimos protestos, esse também teve como motes a defesa da vacinação em massa, a responsabilização de Bolsonaro pelas 500 mil mortes na pandemia e o aumento do auxílio emergencial.

    Mas o que chamou a atenção dessa vez foi a adesão à pauta contra a corrupção. Foram justamente as denúncias de irregularidades envolvendo o governo federal na compra de vacinas que anteciparam os atos do dia 24 para o dia 3 de julho.

    Uma das frentes de investigação veio dos depoimentos do deputado Luis Claudio Miranda (DEM-DF) e seu irmão, o servidor do Ministério da Saúde Luís Ricardo Miranda, que alertaram para possíveis irregularidades na aquisição do imunizante indiano Covaxin em março de 2021, como o alto preço por dose, inconsistências em documentos da transação e a pressão incomum para levar o acordo adiante.

    Segundo os irmãos Miranda, Bolsonaro foi informado das irregularidades e nada fez. Por isso, a ministra do Supremo Tribunal Federal, Rosa Weber, ordenou a abertura de um inquérito para investigar o presidente por prevaricação nesta sexta-feira (2).

    A segunda suspeita veio a público no dia 29 de junho em reportagem do jornal Folha de S.Paulo. Nela, o policial militar Luiz Paulo Dominguetti, que também trabalha como representante comercial de uma importadora de produtos médicos, acusa o ex-diretor do Ministério da Saúde Roberto Ferreira Dias de pedir uma propina de US$ 1 por cada uma das 400 milhões de doses de vacinas que ele negociava em fevereiro de 2021 como intermediário do laboratório AstraZeneca. Dominguetti prestou um depoimento confuso à CPI na quinta-feira (1º).

    Esse dólar por dose de vacina foi usado como símbolo por manifestantes neste sábado (3). Notas com o rosto de Bolsonaro e manchas falsas de sangue foram distribuídas, e outros adereços associando o presidente à corrupção marcaram presença, como bonecos de papelão com o político vestido de presidiário e cartazes com dizeres “não era negacionismo, era corrupção” e “Jail [prenda, em inglês] Bolsonaro”.

    Manifestantes também endereçaram gritos de ordem ao presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL). O objetivo era pressioná-lo para dar andamento a algum dos mais de cem processos de impeachment que estão sobre sua mesa.

    A ampliação do espectro político

    A maioria dos participantes dos atos continua sendo de simpatizantes de partidos, entidades e causas de esquerda, e o vermelho segue sendo a cor predominante das manifestações.

    Além de centrais sindicais e movimentos sociais, integram a organização dos atos PT, PSOL, PCdoB, PCB, UP, PCO e PSTU, desde o primeiro, em 29 de maio, todos partidos à esquerda no espectro político.

    Já no protesto nacional de 9 de junho, outros partidos mais ao centro aderiram: Cidadania, PSB, PDT e Rede. O movimento Acredito também se juntou à organização das manifestações.

    A apresentação de um “superpedido de impeachment” de Bolsonaro na quarta-feira (30) por uma frente que uniu representantes de diferentes partidos, da esquerda à direita, fez com que aumentasse a expectativa de uma ampliação ainda maior no espectro político dos participantes.

    Políticos de esquerda usaram um discurso conciliador para ampliar o alcance da manifestação desde sábado (3). “Vamos focar no que é importante e deixar o sectarismo de alguns de lado”, escreveu nas redes sociais o deputado federal Orlando Silva (PCdoB-SP).

    Houve uma tentativa, inclusive, de resgatar o uso das cores da bandeira brasileira brasileira, mesmo entre políticos de esquerda. A combinação de verde e amerelo está fortemente associada às manifestações pelo impeachment da petista Dilma Rousseff em 2015 e 2016 e também ao bolsonarismo.

    “As cores do Brasil não pertencem a nenhum ditador. Pertencem ao povo brasileiro. Bolsonaro fez as cores da bandeira serem a da divisão e do ódio. Qualquer um que defenda a democracia tem o direito de usar a bandeira”

    Marcelo Freixo

    Deputado federal (PSB-RJ), em manifestação em 3 de julho de 2021. Ele usava uma camisa verde e amarela do Flamengo

    Sobretudo em São Paulo, havia bandeiras com os slogans dos partidos PV, Avante e até do PSL. O diretório municipal do PSDB armou uma banca nas cercanias da rua Augusta e concentrou os manifestantes mais afeitos ao centro e à direita. Segundo o presidente do diretório paulistano tucano, Fernando Alfredo, essa foi a primeira participação do partido em manifestações de rua. Ele comparou o ato deste sábado (3) às manifestações pelo impeachment de Dilma.

    “A última vez que fui para as ruas foi no impeachment da Dilma e a única diferença que vi agora é que tinha menos verde e amarelo” disse ao Nexo. “Mas mesmo assim teve muita representatividade, muita gente de preto, de luto, muita gente de vermelho, claro, mas bastante gente de verde e amarelo também. Muitas famílias e muitas crianças”.

    Ao final do ato, militantes do PCO, de extrema esquerda, agrediram integrantes do PSDB. Alfredo minimizou o episódio. “Andei a paulista inteira com a camisa do PSDB e não fui hostilizado”, afirmou. “E o pessoal do PT nos convidou para falarmos no caminhão de som deles. Não fomos, mas achei muito nobre”, disse.

    A presidente nacional do partido, deputada Gleisi Hoffmann (PR), comemorou a participação dos tucanos na manifestação. “Isso significa que o movimento para tirar Bolsonaro está crescendo”, disse ao portal UOL.

    Quem também passou pela barraca dos tucanos na Paulista foi a deputada Tabata Amaral (sem partido-SP), vestida de verde e amarelo. Ali, ela discursou dizendo que é necessário “tirar o monopólio que Bolsonaro tem sobre os símbolos do Brasil”.

    Ex-apoiador de Bolsonaro e atual integrante do grupo que se opõe aos bolsonaristas no partido que elegeu o presidente, o deputado Junior Bozzella (PSL-SP) também foi à Paulista. Disse que a decisão foi individual, mas que pretende mobilizar correligionários. “Isso comoveu lideranças do meu partido a comparecer aos próximos eventos. E vou trabalhar para mobilizar as bases”, disse ao Nexo.

    Bozzella acredita que Arthur Lira (PP-AL), presidente da Câmara responsável por dar ou não prosseguimento a impeachments, está atento ao movimento das ruas. “Ele é um agente político inteligente. A única resistência para o avanço do impeachment é o número de deputados que, por conveniência, estão tirando seus dividendos da aliança com o governo”. Por ora, Lira diz que não há clima político para abrir um processo de impedimento. O presidente da Câmara não se manifestou sobre os atos até a noite de sábado (3).

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