Do negacionismo à corrupção: o que move a indignação nacional

Suspeita de propina nas vacinas engrossa coro por impeachment e mobiliza oposição. Debate sobre relevância de eventuais crimes ao patrimônio diante de eventuais crimes contra a vida ganha força

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    A união de adversários políticos num “superpedido de impeachment”, a ampliação da adesão aos protestos de rua contra o presidente Jair Bolsonaro e a adoção do bordão “não era negacionismo, era corrupção”, reproduzido inclusive por parte da esquerda, marcam um novo momento da mobilização da oposição.

    O movimento ocorre após a revelação de suspeitas de propina nas negociações de vacinas contra o novo coronavírus, algo que levou a CPI da Covid no Senado a mudar seu foco: às investigações sobre o número de mortes, que teria sido agravado por ações e omissões do governo federal, se somam agora as denúncias de possíveis desvios de dinheiro público.

    A repercussão desses casos, porém, também foi acompanhada de críticas: por que eventuais crimes contra o patrimônio, no caso, a corrupção, geram mais indignação do que crimes contra a vida, no caso, uma atitude deliberada de Bolsonaro contra medidas de proteção da população durante a pandemia?

    Nesse cenário, o Nexo procurou três pesquisadores da sociologia, da ciência política e da história do pensamento brasileiro para responder à questão. Veja abaixo o que eles disseram:

    ‘São raízes profundas na história brasileira’

    Bernardo Ricupero

    cientista político e professor da USP, estuda a história do pensamento político

    “Para começar a enfrentar essa questão, talvez o primeiro passo seja separá-la em duas. Uma questão que a gente possa pensar é mais em termos de longa duração, não tanto do acontecimento imediato. Isso tem raízes profundas na história brasileira, no que é a sociedade brasileira. O Brasil se constituiu como uma colônia, pensando basicamente em realizar necessidades externas à sua população. E a maior parte dessa população, ou boa parte dela, especialmente por conta da escravidão, e mesmo depois, foi vista praticamente como um instrumento de trabalho. Nesse sentido, a gente pode, no fundo, avaliar que a vida humana, no Brasil, talvez não tenha o valor que imaginamos e que gostaríamos que tivesse. E até declarações tristes como as de Bolsonaro em relação à pandemia, como o ‘e daí’, a ‘gripezinha’, coisas do tipo, a gente talvez entenda elas nesse contexto maior.

    A outra parte da questão tem muito a ver com as condições de eleição de Bolsonaro. A gente pode até falar no discurso com o qual ele foi eleito, que era um discurso em que o apelo contra a corrupção era muito forte, e isso sensibilizou - e sensibiliza - um extrato importante do eleitorado brasileiro. Isso foi uma dimensão importante, e que também tem uma certa história no Brasil, que vem pelo menos desde a UDN [partido de orientação conservadora que fazia oposição ao varguismo], também com discurso anticorrupção. O PT, em determinado momento, também teve muito o discurso da ética na política. O fato em relação à compra de vacinas, de que agora já tem indícios bastante fortes que houve práticas pouco republicanas, abala Bolsonaro no sentido que mostra uma desconexão com o discurso dele de campanha e cria problemas com uma parte significativa do eleitorado.

    Então eu basicamente diria que tem esses dois lados da coisa. Um lado que talvez seja o mais sério, e que incomoda mais para pensarmos como sociedade, é no fundo uma certa facilidade, uma certa disposição de aceitar coisas que poderiam ser vistas como absurdas em relação a como se trata a vida humana, e que tem motivos históricos, ligados à colônia e à escravidão. E tem a questão mais imediata da corrupção, que vai contra o discurso de Bolsonaro, como ele foi eleito, e também de alguma maneira se choca, em particular, com uma parcela de seu eleitorado.”

    ‘O tema corrupção tem organizado a política’

    André Botelho

    professor de sociologia na UFRJ, tem publicações com ênfase nas área de pensamento social brasileiro e sociologia política

    “A corrupção vem sendo construída e mobilizada como uma clivagem na vida política nacional. Embora denúncias de corrupção e promessa de combate à corrupção sejam constantes na vida política brasileira desde o início da República, no contexto atual isso assumiu uma outra dimensão, não apenas por conta de novos atores - como mídias digitais -, mas também com atores institucionais, sobretudo a Operação Lava Jato, que passaram a organizar a opinião pública em torno de denúncias de corrupção.

    Desde 2016 há uma saturação na opinião pública, e da esfera pública como um todo, de discussões em torno do tema. A questão é que você tem uma espécie de rotinização. Vai se formando uma rotina em torno de determinadas questões, que passam a ter mais visibilidade que outras. Foi isso que mobilizou o impeachment [de Dilma Rousseff]. A ideia de corrupção foi mobilizada para a construção de um certo consenso. O motivo [do impeachment em si] foi a pedalada fiscal. Mas chama atenção como o tema da corrupção estava sendo mobilizado na opinião pública de modo geral, mesmo que o impeachment em si não tenha sido um caso de corrupção.

    O impeachment de Dilma e a Lava Jato colocam esse tema da corrupção na pauta do dia cada vez mais, e vão organizando a opinião pública. O momento atual se organizou inclusive com uma institucionalidade. Era a Justiça, o Judiciário, que estava organizado para esse suposto combate [na Lava Jato].

    Então você tem opinião pública que vai se adensando em torno desse tema, você tem a constituição de atores políticos, como o então candidato Bolsonaro, que se apresenta como uma alternativa a um sistema corrupto. Quando ele se apresenta como não político de forma paradoxal [porque era deputado havia quase 30 anos], ele está reivindicando uma ideia de pureza em relação a essa prática que seria sistêmica, a corrupção. A denúncia de corrupção, num governo que se constrói na base desse discurso, é muito promissora para a crítica.”

    ‘Atenção se deve ao próprio discurso de Bolsonaro’

    Vanessa Elias de Oliveira

    cientista política, professora e coordenadora da pós-graduação em políticas públicas da Universidade Federal do ABC, trabalha com temas de saúde pública

    Em grande parte, isso [atenção maior aos casos de corrupção] se deve ao próprio discurso de Bolsonaro. Por um lado, o presidente minimiza a importância da gestão da pandemia e toda ação necessária para se evitar mortes, e ao mesmo tempo sempre ressalta que no seu governo não há corrupção. Quando a corrupção aparece, isso vira de fato uma grande questão. E aparece num momento em que a gente tem no país mais de 500 mil mortes, então essas coisas se juntam.

    A postura do presidente é essencial para estabelecer parâmetros de postura da sociedade perante a pandemia. Seria muito diferente se a gente tivesse um presidente que falasse pelo isolamento social, sobre o quão trágico são as mortes. Sua postura é de quase que naturalizar as mortes, como se fossem um efeito inevitável da pandemia, e que a gestão da pandemia pelo governo federal não tem nada a ver com o número de mortes. Então o discurso dele gera essa desconexão.

    Talvez o debate público tenha passado pouco pela questão sobre o que significa a má gestão da pandemia, sobre o que é gestão da pandemia. Talvez a indignação da população em relação à corrupção seja mais recebida por conta dessa clara relação entre corrupção e governo. E o caso da corrupção, ele de certa forma choca não só porque é corrupção, mas porque é uma corrupção que agrava a situação da pandemia. As pessoas começam, talvez, a perceber que a morte de seu amigo, de seu parente, veio não só pela pandemia, mas também pela gestão desastrosa da pandemia.

    É preciso lembrar também toda a discussão do ‘lavajatismo’, que colocou a corrupção como o centro do debate público, como o grande problema nacional. A corrupção ganhou uma centralidade tão grande no debate nacional desde então, passando pela campanha eleitoral, e depois continuando já no governo Bolsonaro, que as pessoas estão de fato muito sensibilizadas por essa questão.”

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