A queda de interesse pela CPI da Covid nas redes sociais

O ‘Nexo’ analisou dados sobre a repercussão da investigação e ouviu especialistas sobre como a opinião pública pode impactar a investigação parlamentar

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    A CPI da Covid o Senado, que mobilizou as redes sociais após sua criação, no fim de abril, e também ao longo de maio, perdeu fôlego no mês de junho. É o que mostram dados levantados a pedido do Nexo pelas consultorias Arquimedes, Bites, e pelo centro de pesquisa FGV-DAPP (Diretoria de Análise de Políticas Públicas da Fundação Getúlio Vargas).

    Essa queda ocorre após os senadores ouvirem depoimentos de personagens de menor envergadura, e a despeito do esforço dos parlamentares em interagir com usuários das redes durante as sessões. O prazo inicial previsto para os trabalhos da CPI é de 90 dias.

    Neste texto, o Nexo mostra a trajetória da repercussão da CPI da Covid nas redes sociais, contextualiza a queda recente nesses números e explica como a opinião pública pode impactar a investigação parlamentar.

    A trajetória da repercussão

    A Comissão Parlamentar de Inquérito da Covid foi instalada no Senado em 27 de abril, após o país bater sucessivos recordes de mortes diárias por covid-19. A investigação passou então a ser acompanhada por influenciadores, podcasters, streamers, e youtubers em clima de reality show.

    O relator da CPI, Renan Calheiros (MDB-AL) chegou a criar uma caixa de perguntas para os “internautas” em sua conta no Instagram. O senador, aliás, chega a modular o discurso a depender do humor das redes, com assessores acompanhando as reações à sua atuação em tempo real.

    O interesse pela comissão, porém, caiu. As menções relativas à CPI da Covid nas redes foram menos numerosas nas duas últimas semanas, segundo levantamentos das consultorias Arquimedes e Bites e do centro de pesquisa FGV-DAPP. Os dados foram coletados na quarta-feira (16).

    As menções relacionadas à CPI no Twitter sobem nos dias de depoimento, como afirmou Leonardo Barchini, analista da consultoria de mídias digitais Arquimedes. “Atingiu um ápice e agora vem caindo”, disse ele, que pondera que o depoimento de Wilson Witzel (PSC) gerou repercussão.

    Na quarta-feira (16), o ex-governador do Rio bateu boca com o senador Flávio Bolsonaro (Patriota-RJ), falou sobre o assassinato a vereadora carioca Marielle Franco, criticou a gestão da pandemia o governo federal e prometeu revelar informações sigilosas caso seja realizada uma sessão secreta com os senadores da comissão. Depois das declarações, Witzel deixou a sessão antes do previsto, munido de um habeas corpus do Supremo Tribunal Federal.

    A sessão foi tumultuada e, na tarde daquele dia, a palavra “Witzel” era a mais comentada no Twitter no Brasil. O termo #CPIdaCovid estava em terceiro. Mesmo assim, a repercussão do depoimento não alcançou o pico de semanas anteriores. O gráfico abaixo mostra a trajetória recente das menções relacionadas à CPI no Twitter, e foi feito a partir dos dados coletados pela Arquimedes. O Nexo também calculou a média móvel das menções indicada pela curva laranja.

    Repercussão no tempo

    Menções sobre a CPI da Covid no Twitter desde 27 de abril

    No levantamento da Arquimedes, o dia de maior repercussão no Twitter aparece como sendo o do depoimento de Fabio Wajngarten, ex-secretário de Comunicação Social, em 12 de maio. Os depoimentos de Pazuello, ex-ministro da Saúde, nos dias 19 e 20 de maio, também mobilizaram muita gente.

    Barchini explica que as coletas são feitas por meio de diversas palavras e termos que se relacionam ao debate na CPI. Ou seja, não há um número exato sobre a totalidade de menções que fazem referência à comissão, já que isso depende do que cada pesquisador define previamente que deverá ser captado na coleta dos dados. Também por isso os números podem variar entre diferentes análises, mas a tendência geral se mantém.

    Um levantamento da consultoria Bites também indica uma menor repercussão da CPI no Twitter em junho. “Houve um cansaço sobre a repercussão da CPI nas últimas semanas, o que mostra que a onda em torno dela pode ter se esgotado”, disse André Eler, diretor-adjunto da Bites. Segundo ele, é possível notar ainda mudanças em relação à repercussão dos trabalhos da comissão para o governo.

    “Basicamente, tem dois momentos da CPI. Tem um momento de crescimento mesmo, de interesse grande, quando ainda havia uma expectativa de que a CPI trouxesse coisas novas. Isso ficou muito forte, especialmente nos depoimentos de Wajngarten e Pazuello. A partir do momento em que a doutora Nise Yamaguchi participa da CPI, o governo consegue formular uma narrativa unificada para rebater os oposicionistas na CPI”

    André Eler

    diretor-adjunto da Bites

    “Se a oposição não conseguir criar fatos novos, é de certa forma uma CPI que não está na pior fase para o governo”, afirmou André Eler. Mas ele ponderou que, entre os tweets com mais RTs [republicações] que se destacam desde o início da CPI, ainda aparecem vários contrários ao governo.”

    O que explica a queda

    Para Amaro Grassi, cientista político e coordenador de pesquisa na FGV-DAPP, um fator que explica a recente queda de repercussão é a própria dinâmica da comissão. “No começo tinha o fator novidade, e tinha as figuras mais expressivas sendo convocadas. É natural que isso não se sustente por tanto tempo naquele nível de exposição”, disse ele.

    Nas duas últimas semanas, foram ouvidos o ministro da Saúde, Marcelo Queiroga (pela segunda vez), o ex-secretário geral do Ministério da Saúde Elcio Franco e o ex-secretário de Saúde do Amazonas Marcellus Campêlo, além de Witzel e de especialistas.

    Para Grassi, a queda de repercussão não significa que isso vá seguir em queda. “Daqui a pouco pode ter a convocação de mais alguém [de maior expressão] e isso se retoma. Acredito que é algo mais pontual do que propriamente a CPI perdendo força.”

    Cientista política e pesquisadora na UniRio, Flávia Bozza Martins também disse que parte da queda era esperada. “São depoimentos muito longos, é difícil você acompanhar tanta coisa, e é algo que se prolonga, a coisa vai esfriando um pouco”, afirmou ela.

    “Por outro lado, temos também perguntas menos objetivas do que o desejado. Perguntas que não nos levam a encontrar possibilidades de criminalizar alguma ação concretamente”, disse Martins, que vê nisso um possível motivo para um menor interesse em relação aos trabalhos.

    Nesse cenário, os senadores buscam novas frentes de investigação. Eles apostam em quebras de sigilo para obter informações e fechar o cerco sobre Pazuello e sobre a suspeita de relação da família Bolsonaro com farmacêuticas e organizações sociais do Rio de Janeiro.

    O impacto da opinião pública

    Analistas de dados digitais e cientistas políticos ouvidos pelo Nexo afirmaram que a opinião pública é um elemento fundamental para a investigação parlamentar, capaz de influenciar a dimensão dos seus resultados. Segundo eles, a repercussão nas redes sociais tem grande relevância nesse sentido.

    “É um fator de legitimação da ação da CPI, que é um fato político muito forte hoje”, disse Grassi. “No momento em que a política, ou pelo menos as disputas de narrativas das política se dão principalmente nas redes sociais, ter um gerador de fatos políticos que reverberam no ambiente digital é fundamental.”

    As CPIs não processam ou julgam, elas apenas investigam fatos determinados e então encaminham sugestões de responsabilização para as autoridades competentes. Por isso, cientistas políticos também apontam que um dos principais resultados de uma comissão é a própria mobilização em torno do tema e a reorganização das forças políticas - dois elementos para os quais a opinião pública tem papel fundamental.

    Martins disse que a repercussão na opinião pública funciona como uma “via de mão dupla”, que pode tanto impulsionar as investigações quanto ser mobilizada por ela.

    “Os senadores, recebendo um sinal verde do eleitorado de que eles estão apoiando essa investigação, têm um incentivo, tanto no sentido de eles se sentirem apoiados quanto no sentido de eles sentirem que o eleitor está esperando uma resposta”, afirmou. “A gente também tem discursos na CPI que dão gás na opinião pública. As manifestações de rua contra o governo estão carregadas disso”, afirmou ela.

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