O crescimento do atos pelo impeachment de Bolsonaro

Convocadas por organizações de esquerda, manifestações de 19 de junho ampliam espectro político e superam mobilização de 29 de maio

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    Milhares de pessoas foram às ruas neste sábado (19) participar do segundo protesto nacional contra o governo de Jair Bolsonaro desde o início da pandemia de covid-19, em março de 2020. Os manifestantes pediram o impeachment do presidente, mais vacinas contra o novo coronavírus e aumento do auxílio emergencial a trabalhadores informais.

    Os protestos contra o governo aconteceram no mesmo dia em que o país atingiu a trágica marca de 500 mil mortes pelo novo coronavírus. O Brasil é o segundo país que mais registrou óbitos na pandemia, atrás apenas dos EUA. O dado é resultado da gestão desastrosa da crise de saúde e da atitude negacionista de Bolsonaro, segundo especialistas.

    Neste texto, o Nexo mostra como foi a segunda grande mobilização de oposição e explica o que mudou em relação ao primeiro ato — que ocorreu em 29 de maio.

    O aumento de adesão

    Organizados por movimentos sociais, partidos políticos e centrais sindicais, os protestos de sábado (19) foram registrados em mais de 380 cidades de todos os estados e no exterior, segundo os organizadores. A adesão é maior do que nos atos de 29 de maio, que registraram pessoas mobilizadas em 213 municípios brasileiros e 14 no exterior.

    Foto: Tuane Fernandes/Reuters - 19.jun.2021
    Imagem aérea mostra avenida lotada de pessoas, com carros de som e bandeiras. Vê-se ao lado o prédio do Masp.
    Manifestação pelo impeachment de Bolsonaro na Avenida Paulista, em São Paulo

    O protesto de São Paulo, que começou no fim da tarde na avenida Paulista, teve público de 100 mil pessoas, segundo os organizadores. No protesto anterior, foram 80 mil, também segundo os organizadores. A Polícia Militar e a Guarda Civil Metropolitana não divulgaram sua estimativas. Em Brasília e no Rio, os atos também foram maiores desta vez.

    Os protestos também registraram uma adesão mais ampla de partidos, para além da esquerda representada por legendas como o PT e o PSOL. O Cidadania aderiu aos atos, assim como PSB, PDT e Rede. O movimento Acredito também se juntou à organização das manifestações.

    Outros novos apoiadores aos atos são centrais sindicais, como CUT (Central Única dos Trabalhadores) e Força Sindical, e movimentos como o MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra), que em maio estavam reticentes em comparecer a manifestações no contexto da pandemia.

    Os organizadores das manifestações afirmaram que a chegada de novos apoiadores e a adesão de mais manifestantes se deve à crescente insatisfação com o governo Bolsonaro. E também à força dos protesto de maio, marcados pela adesão a protocolos contra a covid-19. A grande maioria dos manifestantes foi para a rua protegida por máscaras.

    O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva cogitou ir aos protestos, mas desistiu. Em postagem no Twitter na quinta-feira (17), o líder petista disse que tinha preocupação em comparecer porque não queria “transformar um ato político em um ato eleitoral”. Ele deve ser o candidato do PT na eleição de 2022.

    O contexto dos protestos

    O país registrou 500 mil mortes pelo novo coronavírus no fim da tarde deste sábado (19), segundo dados do Conass (Conselho Nacional dos Secretários de Saúde). Manifestantes fizeram referência ao número, assim como criticaram o ritmo lento da vacinação no país e omissões do governo reveladas na CPI da Covid no Senado.

    O cenário de crise sanitária, econômica e política levou a uma queda inédita na aprovação do governo federal. Em maio, Bolsonaro atingiu seu menor índice de “ótimo e bom” no mandato: 24%, segundo a pesquisa Datafolha. O índice daqueles que consideram seu governo ruim ou péssimo é de 45%.

    A CPI da Covid no Senado divulgou uma nota dizendo que lamenta as 500 mil mortes pelo novo coronavírus. O texto afirma que o cenário da pandemia no país tem culpados e que, no que depender dos senadores, eles serão “punidos exemplarmente”. A nota não cita o nome de Bolsonaro.

    O presidente não havia se manifestado sobre os protestos ou às 500 mil mortes até a noite deste sábado (29). Em maio, classificou os protestos como uma campanha a favor do PT de Lula.

    Bolsonaro tem apostado em atos focalizados para concentrar apoiadores. Em maio e junho, o presidente fez duas motociatas no Rio e em São Paulo. A moticiata mais recente, de 12 de junho, em São Paulo, reuniu 6.661 motocicletas.

    Os protocolos de prevenção

    O primeiro protesto contra o presidente foi marcado pelo dilema entre assumir os riscos de provocar aglomerações em meio a um novo agravamento da pandemia e a necessidade de manifestar oposição ao governo de forma mais contundente justamente por causa da crise sanitária.

    Com o objetivo de reduzir riscos, organizadores das manifestações incentivaram o uso de máscaras, que teve ampla adesão nas ruas. Houve também tentativas de manter distanciamento entre as pessoas, embora tenha havido pontos de aglomeração em cidades que reuniram mais manifestantes.

    O cenário não foi diferente no ato deste sábado (29). Em cidades como São Paulo e Osasco, a maioria dos manifestantes usava proteção reforçada e houve distribuição de máscaras do tipo PFF2, consideradas mais eficientes. Em megafones, organizadores dos atos buscaram incentivar o distanciamento.

    Embora a preocupação com o contágio seja generalizada, os manifestantes consideram que solucionar a grave situação da pandemia no país depende da saída de Bolsonaro do poder. Em cartazes, as pessoas perguntavam “quantas mortes são necessárias para haver impeachment?”.

    Para que um processo de deposição avance, é necessário que o presidente da Câmara aceite analisar uma das dezenas de denúncias apresentadas contra Bolsonaro no Congresso. Ocupante do cargo, o deputado Arthur Lira (PP-AL) é aliado do governo e não dá sinais de que esteja disposto a dar sequência a um pedido de impeachment.

    A presença indígena em Brasília

    Indígenas que fazem parte do acampamento Levante pela Terra, que desde o início de junho está em Brasília para se manifestar contra o que consideram ataques recentes a seus direitos, se juntaram aos atos contra o presidente neste sábado (19) na capital federal.

    O acampamento reúne 850 pessoas de 45 povos indígenas em Brasília desde o dia 8 de junho. O grupo protesta contra medidas como o projeto de lei 490, que propõe mudanças na demarcação de terras no país, e a tese do marco temporal, que pode ser votada no Supremo Tribunal Federal.

    Os indígenas também pedem proteção para comunidades que vêm sendo ameaçadas pela violência. Desde março, garimpeiros protagonizam uma escalada de conflitos em locais como a terra indígena Yanomami (RR) e a terra indígena Munduruku (PA).

    O grupo levou as bandeiras para o protesto deste sábado (19) e também se manifestou contra a gestão do governo Bolsonaro na pandemia. No Rio de Janeiro e em Ji-Paraná (RO), onde também houve atos, pessoas levantaram placas que diziam que “vidas indígenas importam” e pediam “não ao genocídio indígena”.

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