A busca por um remédio eficaz contra a covid-19

Há 76 medicamentos em desenvolvimento no mundo para dar soluções específicas para tratar a doença. Os mais promissores são de empresa americana e universidade canadense

O Nexo é um jornal independente sem publicidade financiado por assinaturas. A maior parte dos nossos conteúdos são exclusivos para assinantes. Aproveite para experimentar o jornal digital mais premiado do Brasil. Conheça nossos planos. Junte-se ao Nexo!

    Pelo menos dois medicamentos contra a covid-19 estão em estágios avançados de desenvolvimento e apresentaram dados preliminares promissores. Um deles terá estudos clínicos no Brasil.

    As drogas estão sendo desenvolvidas pelas farmacêuticas americanas Merck (conhecida no Brasil como MSD) e pela Universidade Health Network, no Canadá.

    São substâncias antivirais desenvolvidas especificamente para a covid-19, e não medicamentos já existentes, com outras finalidades, usados para tratar o vírus, como a hidroxicloroquina – que surgiu como promessa em 2020, mas, com o tempo, mostrou-se comprovadamente ineficaz.

    Neste texto, o Nexo explica em que pé estão os estudos de novos medicamentos e o que uma droga comprovadamente eficaz poderia significar para a pandemia.

    O antiviral da Merck

    Estudado desde outubro de 2020, um medicamento da Merck/MSD é o que está em estágio mais avançado de desenvolvimento.

    O comprido molnupiravir tem como objetivo impedir a reprodução do vírus no organismo ainda nos primeiros dias de infecção. O tratamento é feito com pílulas de 800mg do composto, administrada duas vezes ao dia, por cinco dias – um regime similar ao de diversos antibióticos.

    Em 11 de junho, a empresa anunciou que fará estudos com o molnupiravir no Brasil, em sete centros de pesquisa:

    • Centro de Pesquisa do Hospital das Clínicas – São Paulo/SP
    • Instituto de Infectologia Emílio Ribas – São Paulo/SP
    • Hospital de Base – São José do Rio Preto/SP
    • Centro Chronos de Pesquisa Clínica – Brasília/DF
    • Santa Casa de Misericórdia – Belo Horizonte/MG
    • Hospital das Clínicas da Universidade Federal do Paraná – Curitiba/PR
    • Hospital Tacchini – Bento Gonçalves/RS

    Os sete centros de pesquisa estão recrutando voluntários por meio de seus respectivos telefones. Os voluntários precisam ter mais de 18 anos, apresentar diagnóstico da covid-19 e no máximo quatro dias de sintoma e ter alguma comorbidade que pode agravar a doença, como doenças pulmonares ou diabetes. Os voluntários não podem ter recebido doses de nenhuma das vacinas contra o coronavírus.

    A expectativa da Merck/MSD é concluir os estudos com o molnupiravir até setembro de 2021 e, caso os resultados sejam positivos, iniciar a produção. Um possível preço para o remédio não foi divulgado.

    O molnupiravir é usado para pacientes que descobriram a infecção rapidamente. Uma droga para pacientes graves e hospitalizados foi ensaiada pela MSD, mas descartada após entraves na condução dos testes.

    O comprimido canadense

    A Universidade Health Network, em Toronto, no Canadá, estuda desde novembro de 2020 o medicamento peginterferon-lambda.

    O comprimido atua impedindo que o organismo produza uma reação imunológica exagerada contra o vírus – uma das principais causas de mortes por covid-19. A ideia é que o medicamento seja administrado de forma preventiva, para pacientes com quadro leve.

    Nos casos mais graves, o coronavírus chega aos alvéolos pulmonares, pequenos sacos de ar presentes no pulmão, responsáveis pela troca gasosa que oxigena o sangue.

    Lutando contra o coronavírus, o corpo desencadeia um processo inflamatório. Porém, se a inflamação for muito intensa, o indivíduo pode ter seus alvéolos preenchidos com líquidos, cenário que caracteriza a pneumonia. Com os alvéolos obstruídos, a oxigenação do sangue pode diminuir, causando o quadro de insuficiência respiratória.

    Se a insuficiência respiratória for mais grave, o paciente pode precisar ser encaminhado para uma UTI (Unidade de Terapia Intensiva) a fim de respirar com o auxílio de equipamentos.

    Nos casos gravíssimos, a inflamação se espalha para além dos pulmões, causando ainda mais danos, como insuficiência renal e danos intestinais, que podem levar à morte.

    O objetivo do remédio peginterferon-lambda é impedir essa reação. Em fevereiro de 2021, um artigo com dados preliminares foi publicado na revista britânica The Lancet.

    A droga, administrada em doses de 180 microgramas (milionésimo de grama) foi eficaz em 80% dos 30 pacientes analisados para essa fase do estudo.

    A universidade não estabeleceu um prazo para a conclusão dos estudos com a peginterferon-lambda.

    Outras iniciativas

    Ao todo, 76 remédios contra a covid-19 estão em desenvolvimento globalmente. As substâncias estão em diferentes fases de pesquisa. As iniciativas da Merck e da universidade canadense são aquelas que mais avançaram e que podem ser promissoras.

    Apenas um remédio tem recomendação de uso oficial contra a covid-19. Trata-se do remdesivir, droga desenvolvida para o tratamento do ebola e que apresentou bons resultados.

    A Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) autorizou o uso da substância em pacientes gravíssimos, mas, dado o preço elevado (R$ 17 mil pelos cinco dias de tratamento) e as dificuldades de importação, ela não está sendo administrada no Brasil. Ainda sim, o uso do remdesivir não tem consenso dentro da comunidade científica.

    O impacto de uma droga eficaz

    Entender as dinâmicas estruturais do vírus foi o principal fator para a demora no desenvolvimento de remédios contra a covid-19. A maior parte dos medicamentos pesquisados começou a ser desenvolvido “do zero” (ou algo muito próximo disso).

    As vacinas, por outro lado, se aproveitaram de anos de pesquisa com outros tipos de coronavírus e tecnologias que já estavam em estágios avançados de desenvolvimento.

    Um remédio eficaz e seguro contra a covid-19 – em complemento com as vacinas – poderia mudar os rumos da pandemia, segundo infectologistas.

    “Esse seria o verdadeiro tratamento precoce, caso seja confirmada sua eficácia”, afirmou ao jornal Folha de S.Paulo o infectologista Esper Kallás, da Faculdade de Medicina da USP.

    Se uma substância tivesse sua eficácia e segurança comprovadas, sendo capaz de impedir a replicação do vírus e barrar a transmissão, os índices de internação e morte despencariam e algum senso de normalidade poderia voltar à vida cotidiana.

    “Se aparecer um comprimido que seja capaz de combater o vírus de forma a afetar a progressão da doença e a abortar a transmissão, isso teria um impacto enorme”, disse ao jornal O Globo Mauro Schechter, professor de infectologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

    “Uma droga oral que impede o vírus de se replicar seria uma ferramenta muito importante para reduzir a gravidade da pandemia”, afirmou ao canal americano NBC a infectologista Diana Bianchi, do Instituto Nacional de Saúde dos EUA.

    Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project.