Por que o ‘pânico satânico’ se perpetua. E quais os riscos disso

Agentes da polícia de Goiás e Distrito Federal citam suposta relação de assassino com ‘satanismo e bruxaria’. Fala foi criticada por especialistas e evocou fenômeno social e midiático dos anos 80 que teve efeitos duradouros

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    As forças de segurança de Goiás e do Distrito Federal estão em busca de Lázaro Barbosa de Sousa, procurado desde o dia 9 de junho e acusado de matar quatro pessoas e balear três, além de atear fogo em uma casa, invadir chácaras e manter reféns.

    Na terça-feira (15), a Polícia Militar de Goiás afirmou ver indícios de que Lázaro tenha relações com “satanismo e bruxaria”, e que faria parte de uma seita macabra. Na cena de um dos crimes foram encontrados objetos como velas, cachaça, mechas de cabelo, desenhos de pentagramas e uma cruz invertida, o que, de acordo com a PM, corrobora com a linha investigativa.

    A hipótese levantada pela polícia foi criticada nas redes sociais por estudiosos de religiões, que afirmam que a fala da polícia pode ser uma manifestação do “pânico satânico”, fenômeno midiático e social surgido nos EUA da década de 1980, caracterizado pela histeria coletiva em torno de uma possível conspiração satanista.

    Neste texto, o Nexo relata o caso Lázaro, explica o que é o pânico satânico e por que o fenômeno é um problema que pode ter repercussões graves.

    O caso Lázaro

    Lázaro Barbosa está foragido desde o dia 9 de junho. Nesta quarta-feira (16), cerca de 200 agentes de segurança estavam em busca do suspeito, que está sendo descrito pela polícia como um psicopata.

    A linha do tempo das informações públicas sobre o caso, de acordo com a polícia e testemunhas é a seguinte:

    • 9 de junho: Lázaro Barbosa invade a chácara de Cláudio Vidal, na cidade satélite de Ceilândia, onde teria matado o proprietário e seus dois filhos. Na fuga, encontra e sequestra Cleonice Vidal, esposa de Cláudio
    • 10 de junho: Lázaro invade a chácara de Silvia e Anderson Campos, a poucos quilômetros da propriedade da família Vidal. Segundo o casal, ele manteve os dois reféns por três horas, roubou celulares e a quantia de R$ 200, fugindo na sequência
    • 11 de junho: De acordo com a polícia, Lázaro roubou um carro e fez mais um refém, não identificado. Neste dia, ele teria deixado Ceilândia e partido para Cocalzinho, a 88 km de distância
    • 12 de junho: O corpo de Cleonice Vidal é encontrado, morta com dois tiros. Lázaro invade uma chácara em Cocalzinho, atira em três homens que estavam lá e rouba armas de fogo. Ele também teria incendiado uma casa da cidade.
    • 13 de junho: Lázaro invade mais uma casa e rouba outro carro. O veículo foi abandonado 30 km depois. Acredita-se que ele se deparou com um bloqueio policial e fugiu a pé, por um matagal.
    • 14 de junho: Lázaro troca tiros com um fazendeiro do povoado de Edilândia, no município de Cocalzinho. A polícia é acionada, mas não consegue prendê-lo. Acredita-se que ele tenha sido baleado por um policial
    • 15 de junho: Lázaro mantém refém uma família de Edilândia. Uma das filhas do casal consegue mandar uma mensagem para a polícia, que chega rapidamente. Há troca de tiros. Um policial foi baleado de raspão e Lázaro conseguiu fugir
    • 16 de junho: cerca de 200 policiais militares formam um cerco na cidade de Cocalzinho para tentar prender Lázaro

    As motivações de Lázaro para os crimes são desconhecidas. Ele foi condenado na Bahia em 2013 por um homicídio doloso e fugiu. Foi preso em 2018, mas conseguiu fugir do presídio. Ele também é acusado de ter estuprado uma mulher no Distrito Federal em abril de 2021.

    À época da condenação em 2013, um laudo psicológico afirmou que Lázaro tem em sua personalidade “agressividade, ausência de mecanismos de controle, dependência emocional, impulsividade, instabilidade emocional, possibilidade de ruptura do equilíbrio, preocupações sexuais e sentimentos de angústia”.

    O Nexo tentou contato com as Secretarias de Segurança Pública de Goiás e do Distrito Federal para fazer perguntas sobre a suposta ligação de Lázaro com “bruxaria e satanismo”, mas não obteve resposta.

    A Constituição garante liberdade religiosa – inclusive para satanistas e membros de doutrina que se classificam como bruxas – e o Código Penal não prevê aumento de pena em casos de homicídio pela religião ou crença seguida pelo assassino.

    “O caso do Lázaro parece ser um caso de psicopatia. Ir além disso é temerário”, disse ao Nexo Edin Abumanssur, coordenador do programa de pós-graduação em ciências da religião da PUC-SP. “É uma irresponsabilidade fazer essa associação.”

    O que é o pânico satânico

    O pânico satânico é um fenômeno midiático e social que surgiu nos EUA na década de 1980. Nessa época, o país passou por uma febre de denúncias contra supostos abusos infantis ligados a rituais de adoração ao diabo.

    Ampliadas pela mídia, as denúncias ganharam ares conspiratórios, com teorias que diziam que havia um grande plano de dominação mundial em curso, encabeçado pelos adoradores do demônio.

    Em todos os casos que foram denunciados e investigados, não foram encontradas evidências de que havia uma conspiração maior por trás do crime, ou mesmo da ligação dos suspeitos com qualquer prática ritualística a nível local.

    Nos casos em que foram encontrados desenhos, objetos ritualísticos e afins nas cenas do crime – como os que foram achados nas buscas por Lázaro – a conclusão foi de que se tratava de uma alucinação do suspeito causada por algum distúrbio mental ou então numa tentativa de evitar a responsabilização pelo crime, sob a alegação de que estavam diante de pressões vindas de forças malignas.

    À época, o pânico satânico ganhou força diante de uma “crise identitária” dos EUA, que deixaram de ser o país dos sonhos – visão consolidada depois da 2ª Guerra Mundial – e estavam diante de aumento no número de divórcios, aumento de violência, queda nas taxas de adesão religiosa e uma juventude que questionava os valores de seus pais.

    Na década de 2010, o pânico satânico dos EUA voltou a aparecer por meio do grupo de extrema direita QAnon.

    A QAnon é uma teoria da conspiração, que nasceu na internet, segundo a qual o presidente Donald Trump enfrenta uma campanha secreta contra o chamado “Estado profundo”, uma suposta elite de inimigos que controla as principais esferas da vida social e adora satã e a pedofilia.

    A teoria, que não traz nenhuma evidência para as acusações, tem outras ramificações negacionistas — ela vê dúvidas nas vacinas, nos atentados de 11 de Setembro e na pandemia do novo coronavírus, por exemplo — que, juntas, convergem numa ideia de que há uma força maligna, poderosa e global que as pessoas com boas intenções devem desmascarar.

    O preconceito inerente ao pânico satânico

    Sociólogos, antropólogos, historiadores e cientistas da religião afirmam que o pânico satânico é inerentemente preconceituoso.

    Isso porque a ideia de que determinadas pessoas ou grupos estão cometendo crimes em nome do diabo normalmente é direcionada a indivíduos que não são cristãos ou que, de alguma forma, têm gostos e comportamentos que fogem do que a sociedade considera normal.

    “Todo pânico moral tem uma figura considerada demoníaca”, disse à rádio americana NPR a socióloga Mary de Young, autora de um livro sobre o pânico satânico. “Eles precisam de uma pessoa – ou mais provavelmente um grupo de pessoas, sejam elas reais ou imaginárias – que são consideradas o demônio causador de todos os males.”

    Este vídeo usado pela polícia da Pensilvânia em 1994 exemplifica como a ideia de considerar satânico tudo aquilo que é considerado distinto da moralidade cristã foi defendida por órgãos de segurança nos EUA:

    “No ocultismo satânico, aquilo que consideramos bom, é ruim. E aquilo que consideramos ruim, é bom. Enquanto você assiste a esta fita educacional, preste atenção no padrão de tornar anormal tudo que é normal”, diz a gravação, que chega a afirmar que a homossexualidade “está de mãos dadas” com o satanismo.

    Há críticas também que apontam que há centenas de crimes que são cometidos por pessoas cristãs, mas que, quando noticiados na mídia, não chegam acompanhados de falas como “imagem de santo foi encontrada na casa do suspeito”.

    Além da marginalização de grupos que fogem da tradição cristã, especialistas também apontam que o pânico satânico deixa de lado esforços para elucidar os reais problemas – como as taxas de homicídio e casos de pedofilia.

    “Quem tem medo dos satanistas se vê como herói. Como você pode ser herói nos dias de hoje? Você protege as crianças. Você protege as crianças do bicho papão que está solto transformando-as em escravas sexuais. O que poderia ser mais importante que isso?”

    Lawrence Wright

    autor do livro “Remembering Satan”, em entrevista à rádio NPR

    No caso de Lázaro Barbosa, o pesquisador Edin Abumanssur teme que religiões de matrizes africanas serão perseguidas caso a associação do crime com “satanismo e bruxaria” ganhe força.

    “As fotos que foram veiculadas, com cachaça, podem criar associações com religiões de matriz africana, que são perseguidas. Para muita gente essas religiões são ‘coisa do diabo’. É um grande equívoco fazer essa associação, é irresponsável”, afirmou ao Nexo.

    Os temores infundados sobre sacrifícios

    Os sacrifícios humanos estavam presentes na cultura de povos da Antiguidade como os celtas, antigos egípcios, maias, incas e astecas, mas em nenhuma religião moderna ou que aceite a ideia de Cristo. Há religiões atuais que trazem em seus rituais o sacrifício de animais, como galinhas e bodes, mas não sacrifícios humanos.

    A figura de satã integra o imaginário judaico-cristão, com a adoração ao diabo sendo uma resposta ao cristianismo. Nem mesmo sob a ótica do próprio satanismo as afirmações do pânico satânico se sustentam.

    O satanismo moderno se divide em dois grupos: o teísta e o ateísta. O grupo ateísta – o mais expressivo numericamente – não acredita em um deus e também não acredita no próprio diabo. Seus adeptos apenas acreditam que os prazeres da vida devem ser aproveitados em sua totalidade e que a moral cristã deve ser rejeitada. A presença de satã no nome da ordem é apenas uma escolha estética feita para chocar a “família tradicional”.

    Já o grupo teísta acredita que Satã é uma entidade que existe e que deve ser adorada. Contudo, nenhum grupo satanista teísta prevê em suas práticas o sacrifício humano.

    A exceção é a seita chamada Ordem dos Nove Ângulos, surgida no Reino Unido na década de 1970. O grupo, porém, é caracterizado mais como uma organização neo-nazista – de cunho político – do que como uma religião ou filosofia religiosa. Ainda sim, a Ordem dos Nove Ângulos diz que os sacrifícios devem ser feitos com "feitiços", e não com assassinatos diretos.

    Em casos onde um grupo comete crimes ritualísticos alegando que estão fazendo oferendas a forças sobrenaturais – como no caso de Charles Manson e seus seguidores, em 1969 – psicólogos e psiquiatras forenses concluíram que as ideias surgiram de alucinações e crenças de um único indivíduo que, com seu poder de convencimento, incitava os demais a agir.

    Causa de erros jurídicos graves

    Em uma segunda camada, para além do preconceito, o pânico satânico já esteve no cerne de erros jurídicos graves, e impediu a resolução de crimes violentos. Abaixo, o Nexo lista dois casos emblemáticos em que isso aconteceu.

    Brasil, 1992

    Em abril de 1992, na cidade de Guaratuba, Paraná, o menino Evandro Ramos Caetano, 7 anos, desapareceu. Dois meses antes, Leandro Bossi, um outro garoto da mesma idade, tinha desaparecido na cidade.

    A Polícia Civil do Paraná foi acionada para investigar o desaparecimento de Evandro. Dias depois, o corpo do menino foi encontrado em um matagal. O couro cabeludo tinha sido removido, bem como suas orelhas, mãos, dedos do pé e órgãos internos.

    A polícia continuou as diligências por meses. Desde o princípio do caso, um parente distante da vítima – o engenheiro e ex-investigador Diógenes Caetano Santos Filho – se envolveu com a atividade policial, apontando suspeitos e levantando hipóteses.

    A principal hipótese de Diógenes era de que o sequestro e assassinato de Evandro teria sido feito por Osvaldo Marcineiro, um pai de santo que tinha se mudado para Guaratuba meses antes do ocorrido, e ventilava a possibilidade de um envolvimento de Beatriz e Celina Abagge, filha e esposa do então prefeito da cidade, Aldo Abagge.

    Ele afirmava que Marcineiro era praticante de “magia negra”, já que tinha feito rituais com sacrifício de animais. Na versão de Diógenes, se o pai de santo era capaz de matar galinhas para rituais, seria capaz de matar uma criança.

    Após meses de investigações inconclusivas, o Ministério Público do Paraná pediu uma série de diligências paralelas, conduzidas pela Polícia Militar do estado.

    Em 10 dias, a PM prendeu Osvaldo, Beatriz, Celina e outras quatro pessoas, que confessaram o crime e afirmaram que a morte de Evandro tinha sido parte de um ritual que tinha o intuito de “abrir os caminhos” da família Abagge.

    Imediatamente, Beatriz e Celina ficaram conhecidas na cidade como “as bruxas de Guaratuba”. A população local vandalizou a prefeitura do município e tentou linchar a filha e a esposa do então prefeito quando elas estavam sendo detidas.

    Dias depois, no entanto, os sete acusados passaram a afirmar que eram inocentes e que tinham sido torturados para assinar a confissão. À época, a afirmação não pôde ser comprovada e a hipótese foi desconsiderada.

    A tortura dos acusados foi comprovada em março de 2020. O jornalista Ivan Mizanzuk, que desde 2018 publicava um podcast sobre o caso, obteve por meio de uma fonte anônima as fitas integrais da confissão, com trechos que tinham sido cortados daquelas usadas durante o processo.

    Nesses trechos, os acusados falam que estão inventando os depoimentos e são ameaçados pelos policiais.

    Em maio de 2021, o serviço de streaming Globoplay estreou um documentário sobre o caso Evandro, que reitera que a tortura de fato aconteceu.

    No dia 10 de junho, Celina e Beatriz anunciaram que vão protocolar uma ação de reparação, bem como buscar a condenação dos policiais que dirigiram as torturas. Os sete acusados afirmam que tiveram suas vidas destruídas pelo pânico satânico gerado por uma hipótese que foi levantada por um civil e que nunca pôde ser comprovada.

    O caso Evandro e o desaparecimento de Leandro nunca foram esclarecidos.

    Estados Unidos, 1993

    Em 1993, o pânico satânico esteve presente no julgamento de Damien Echols, Jessie Misskeley e Jason Baldwin. Os três adolescentes eram acusados do assassinato de três crianças na cidade de West Memphis, no Arkansas.

    As crianças de oito anos desapareceram em 5 de maio de 1993. Dias depois, os cadáveres deles foram encontrados em um lago. Eles estavam com as mãos e os pés amarrados e com lacerações por todo o corpo.

    Baldwin, Echols e Misskelley moravam no mesmo bairro das vítimas, e foram considerados suspeitos porque gostavam de heavy metal, livros e filmes de terror e jogos de RPG. Os três também entraram no radar da polícia porque já tinham sido presos por vandalismo, roubo de lojas e agressão física.

    Um mês depois, Misskelley confessou o crime. Mas logo na sequência alegou que foi coagido e ameaçado pela polícia local, além de não ter entendido algumas das perguntas, dado seu déficit cognitivo diagnosticado.

    Os três foram julgados em 1994 e, apesar de apresentarem álibis sólidos que os inocentavam, foram condenados. Misskelley e Baldwin foram sentenciados à prisão perpétua, e Echols – apontado como arquiteto do crime – à pena de morte.

    O documentarista Joe Berlinger acreditava na inocência dos três e apontava o caso como um erro jurídico gravíssimo decorrente do pânico satânico. Berlinger dirigiu três documentários sobre o caso, exibidos pela HBO, com o título de “Paradise Lost” (Paraíso perdido, no Brasil), e lançados entre 1996 e 2011.

    Os três foram soltos e inocentados em 2011. O verdadeiro autor do crime segue desconhecido.

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