Por que Carlos Wizard virou alvo da CPI da Covid

Empresário teve sigilos fiscal, bancário, telefônico e telemático quebrados por ordem dos senadores que investigam atuação do governo federal na pandemia

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    Ausente na sessão da CPI da Covid marcada para seu depoimento, nesta quinta-feira (17), Carlos Wizard segue na mira do Senado. Na véspera, a comissão já tinha aprovado a quebra dos sigilos fiscal e bancário do empresário. A ordem para a quebra de seus sigilos telefônico e telemático, dada em 10 de junho, também foi mantida pela ministra Rosa Weber, do Supremo Tribunal Federal. Agora, ele pode ser conduzido à força ao Congresso quando retornar dos Estados Unidos ao Brasil.

    Na quarta-feira (16), a CPI ainda aprovou quebra de sigilos de responsáveis por farmacêuticas produtoras de remédios como hidroxicloroquina e ivermectina, além de outros requerimentos da abertura ao público de documentos recebidos. Todas essas medidas partem da suspeita de que houve um “ministério paralelo” que sustentou decisões anticientíficas do governo Jair Bolsonaro. Os senadores, portanto, buscam saber quem eram, como atuaram e o que ganharam as pessoas que integraram essa estrutura.

    O Nexo explica abaixo quem é Wizard, qual sua relação com o governo Bolsonaro, o que a CPI procura em seus dados sigilosos e por que o Supremo deu aval à investigação contra ele.

    O empresário e suas pautas na pandemia

    Bilionário, Wizard criou nos anos 1980 a franquia de escolas de inglês que leva seu sobrenome, à qual não é mais ligado. Atualmente é dono de uma gestora de investimentos, a Sforza, que atua em diversos segmentos, incluindo empresas como Pizza Hut, KFC, Taco Bells, Mundo Verde e a escola de inglês Wise Up.

    Ele também se apresenta como empreendedor social e uma espécie de coach nas redes sociais para quem quer empreender. Como missionário mórmon, Wizard trabalhou na Operação Acolhida, levada a cabo pelo Exército para receber os imigrantes da Venezuela em Roraima. Nos trabalhos da operação, em 2018, conheceu o general Eduardo Pazuello, que viria a se tornar ministro da Saúde de Bolsonaro.

    Graduado em ciência da computação e estatística por uma universidade dos Estados Unidos, Wizard se notabilizou na pandemia por seu negacionismo, seja pelo entusiasmo na defesa de medicamentos sem eficácia comprovada contra a covid-19, seja pelas críticas que faz a medidas de isolamento social, necessárias para reduzir a transmissão da doença que já matou quase 500 mil pessoas no Brasil.

    “Eu sou tão adepto do tratamento profilático [comprovadamente ineficaz contra a covid-19], que a cada 15 dias eu tomo hidroxicloroquina. Tomo invermectina, zinco e vitamina D. Já estamos com um ano de pandemia, e, até agora, não tive nenhum sintoma de Covid. Não peguei”

    Carlos Wizard

    empresário, em entrevista ao jornal Folha de S. Paulo, publicada em 12 de março de 2021

    Wizard também liderou nos primeiros meses de 2021 um grupo de aproximadamente 100 empresários que tentavam comprar vacinas para vacinar seus funcionários fora da fila do SUS (Sistema Único de Saúde).

    A compra privada foi autorizada, sob condicionantes, pelo Congresso, mas as próprias farmacêuticas afirmaram que, no momento atual, ainda de escassez de vacinas no mundo, só vendem para governos — únicos que seriam capazes de organizar uma fila justa de vacinação, com a priorização devida a grupos mais vulneráveis à covid-19.

    Pela lei aprovada pelos parlamentares e sancionada por Bolsonaro, as empresas que comprarem vacinas deverão doar doses ao SUS enquanto estiver em curso a imunização de grupos prioritários, como idosos e profissionais de saúde. Wizard criticou a obrigação de fornecimento à rede pública.

    O assessoramento informal ao governo

    À CPI da Covid Pazuello, que comandou o Ministério da Saúde de maio de 2020 a março de 2021, afirmou que chamou Wizard para aconselhá-lo durante a pandemia porque, na sua visão, o empresário poderia ser “um grande link entre o ministério [da Saúde] e a parte da compreensão social”.

    Wizard afirmou que trabalhou, pro bono (sem remuneração), como “conselheiro informal”, antes de ser convidado a assumir um cargo oficial, como secretário de Ciência, Tecnologia e Insumos Estratégicos, em junho de 2020.

    Antes mesmo de tomar posse, manifestações suas na imprensa foram alvo de diversas críticas. Ao jornal O Globo, por exemplo, Wizard afirmou que os dados de mortos de covid-19 no Brasil eram “fantasiosos”, uma vez que governos estaduais e municipais estariam inflando os números para receber mais recursos do governo federal. O empresário não apresentou qualquer prova e foi duramente rebatido pelo Conass (Conselho Nacional de Secretários de Saúde).

    Wizard acabou desistindo do cargo e prometeu continuar ajudando o governo de forma independente. Em nota, ele pediu desculpas “por qualquer ato ou declaração de minha autoria que tenha sido interpretada como desrespeito aos familiares das vítimas da covid-19 ou profissionais de saúde que assumiram a nobre missão de salvar vidas”.

    Um conselho independente

    Em julho de 2020, o empresário falou à TV Brasil que chegou a organizar um “conselho científico independente”, com a participação de médicos como Nise Yamaguchi, que prestou depoimento à CPI no dia 1º de junho. “Ou seja, são voluntários que estão dedicados, dedicando seu tempo, sua habilidade, sua experiência, compartilhando com a população o tratamento precoce”, afirmou Wizard.

    À CPI Pazuello disse que recusou uma proposta de Wizard para reunir médicos num conselho para ajudar o ministério. “Na primeira vez que sentei para ouvir as ideias dos médicos, não gostei da dinâmica da conversa. Foi uma única vez, não tive aconselhamento nem assessoramento de grupos de médicos”, afirmou o ex-ministro.

    Segundo senadores, a iniciativa de um conselho, assim como depoimentos coletados pela CPI, são indícios de que Wizard fez parte do “gabinete paralelo” denunciado à comissão pelo ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta (DEM-MS). Segundo os senadores da CPI, o ex-assessor da Presidência Arthur Weintraub, irmão do ex-ministro da Educação Abraham Weintraub, e filhos do presidente faziam parte desse gabinete.

    Da estrutura teria vindo o planejamento do governo federal para propagandear e distribuir com recursos públicos medicamentos ineficazes e para apostar na imunização da população pela contaminação viral, e não pelas vacinas.

    Segundo reportagem do jornal Folha de S.Paulo, o “gabinete paralelo” participou de ao menos 24 reuniões no Palácio do Planalto e no Palácio da Alvorada. Nelas estavam, por exemplo, a oncologista Nise Yamaguchi, em quatro encontros, e o deputado Osmar Terra (MDB-RS), em 11.

    O depoimento à CPI da Covid

    Convocado pela CPI no dia 26 de maio, Wizard pediu para dar seu depoimento de forma virtual. Ele afirma estar nos Estados Unidos acompanhando tratamento médico de familiar e diz temer não poder retornar ao país por causa das barreiras sanitárias.

    O pedido foi reiterado nesta quarta (15). Para comprovar que está no exterior, ele apresentou um print do site da alfândega americana que, segundo a defesa, atesta sua entrada em solo americano no dia 14 de abril.

    O presidente da comissão, Omar Aziz (PSD-AM), negou a possibilidade de depoimento virtual e nesta quinta-feira (17), diante da ausência de Wizard, afirmou que o empresário poderá ser alvo de condução coercitiva (por oficial de Justiça, com possível uso de aparato policial) ao Senado, quando retornar ao Brasil. O passaporte de Wizard, segundo o senador, deverá ser retido pela Polícia Federal.

    “É uma brincadeira dele, né? Uma data combinada para ele vir. É uma autoridade!”, ironizou Aziz, sobre o fato de o advogado do empresário ter solicitando uma reunião virtual do seu cliente com a cúpula da CPI, para decidirem uma data para o depoimento.

    A investigação e o aval do Supremo

    Com o depoimento e a quebra dos sigilos de dados de Wizard, a CPI da Covid pretende entender os seguintes pontos sobre o empresário:

    • Ele era integrante do “gabinete paralelo”?
    • De que forma ele contribuiu para a campanha de desinformação sobre remédios observada durante a pandemia?
    • Houve financiamento para a difusão de notícias anticientíficas?

    Segundo a revista Crusoé, Wizard fez visitas em julho de 2020 a redações de veículos de imprensa, supostamente a fim de tentar emplacar reportagens em favor da tese do tratamento precoce. Teria ficado implícito nas conversas que o atendimento da demanda poderia ser recompensado com compra de espaços publicitários nos veículos pelas suas empresas.

    Na decisão desta quarta-feira (16), sobre a quebra dos sigilos telefônico e telemático de Wizard, a ministra Rosa Weber considerou que a CPI apresentou indícios suficientes para demonstrar a necessidade das medidas contra o empresário.

    A eventual existência de um Ministério da Saúde Paralelo, desvinculado da estrutura formal da administração pública, constitui fato gravíssimo que dificulta o exercício do controle dos atos do poder público (...). Assim, a investigação de seus integrantes (...) possibilitará, em abstrato, campo lícito para o desenvolvimento das atividades de investigação

    Rosa Weber

    ministra do Supremo Tribunal Federal, em decisão no dia 16 de junho de 2021

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