Por que é preciso usar máscara mesmo depois de imunizado

Contra as evidências, Bolsonaro quer desobrigar uso da proteção por pessoas vacinadas ou por quem já foi contaminado por covid

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O uso de máscaras é necessário mesmo que você já esteja vacinado contra a covid-19 ou já tenha tido a doença, diferentemente do que afirmou o presidente Jair Bolsonaro na quinta-feira (10).

Durante um evento, Bolsonaro disse que tinha pedido ao ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, a edição de uma norma que desobriga o uso de máscaras por pessoas que já foram vacinadas ou que já foram contaminadas no passado. A fala presidencial ignora algumas dinâmicas já estudadas da covid-19 e do funcionamento das vacinas.

Horas depois do evento, Queiroga se manifestou. Deu um jeito de elogiar o negacionismo do presidente, mas disse que qualquer norma desse tipo só será cogitada quando a vacinação tiver avançado significativamente no país. Neste texto, o Nexo explica por que você deve continuar usando máscaras por mais um tempo.

A proteção individual

Nenhuma vacina é 100% eficaz. Diferentes organismos reagem de formas diferentes – para algumas pessoas, a barreira imunológica da vacina será forte e ampla; para outras, será frágil ou inexistente.

Testes de eficácia de vacinas são feitos em laboratórios, com variáveis controladas. A efetividade – que mede o funcionamento do imunizante no mundo real – é cercada por fatores que não podem ser controlados, como questões individuais do sistema imunológico de cada um e histórico de doenças pregressas.

Laboratórios no país oferecem um teste que verifica a presença de anticorpos contra o coronavírus. O exame é chamado de Pesquisa de Anticorpos IgG para Sars-CoV-2 (nome científico do vírus).

Apesar de ter lastro científico, o teste não consegue mensurar com precisão a força da barreira imunológica, e também pode contar com dados enviesados do momento da coleta do sangue, apresentando um resultado falso positivo ou falso negativo.

Nesse contexto, não é possível saber se a vacinação de fato te protegeu ou se será eficaz em barrar o possível aparecimento de novas variantes do vírus. Por isso, evitar o contato com o vírus é essencial, e máscaras são comprovadamente uma barreira efetiva de contato.

Os riscos de reinfecção

Há também o risco de reinfecção – de o vírus contaminar e manifestar sintomas em pessoas que já tiveram a doença no passado.

94

é o número de casos confirmados de reinfecção ao redor do mundo até o dia 11 de junho de 2021

3

é o número de mortes após casos de reinfecção

Apesar de numericamente pouco expressivos, o risco da reinfecção existe, e pode aumentar com o passar do tempo, se surgirem novas variantes.

Os vírus são considerados parasitas obrigatórios, ou seja, só sobrevivem se estiverem em um organismo hospedeiro, onde se reproduzem, como forma de continuarem existindo.

Com o passar do tempo, vacinas e tratamentos vão surgindo, e o próprio corpo dos indivíduos passa a apresentar respostas imunológicas que combatem a presença dos vírus.

Os agentes infecciosos então precisam achar formas de se adaptar e criar mecanismos para continuarem se espalhando. Na maior parte dos casos, tais adaptações são feitas a partir de mutações espontâneas – surgidas de mudanças bruscas no genoma viral.

Em outros casos, as adaptações são mais rápidas e aperfeiçoadas, já que surgem do encontro de duas linhagens virais distintas, que se comunicam entre si e absorvem as melhores características uma da outra a fim de criar uma cepa mais resistente e com melhor capacidade de reprodução e transmissão.

Variantes mais transmissíveis e mais agressivas podem agravar o quadro da pandemia no Brasil e no mundo. Há também o risco dessas mutações conseguirem driblar a imunização promovida por vacinas.

A contenção da transmissão

É consenso entre os cientistas que medidas de distanciamento e isolamento social e o uso de máscaras só poderá ser dispensado quando cerca de três quartos da população adulta estiverem completamente vacinados.

Nesse cenário, o vírus continua circulando, mas encontra dificuldades em se espalhar de forma massiva, já que um número maior de pessoas está protegido. Como consequência disso, há menos casos confirmados e também menos mortes.

“A vacina não é uma ferramenta individual: eu me vacino, eu me protejo. É uma responsabilidade coletiva

Isabella Ballalai

vice-presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações, em entrevista ao Nexo em outubro de 2020

Países como Israel e Estados Unidos dispensaram o uso de máscaras após pelo menos um terço da população ter recebido duas doses da vacina. No Brasil, até sexta-feira (11), apenas 11,1% da população tinha recebido as duas aplicações.

O uso de máscaras também se faz necessário por incertezas em relação à capacidade das vacinas em impedir que imunizados transmitam o vírus para outras pessoas.

Até junho de 2021, apenas as vacinas da Pfizer e da Moderna (não disponível no Brasil) comprovadamente barraram a transmissão. Já a Coronavac e o imunizante de Oxford/AstraZeneca – os mais usados no país – ainda exigem estudos sobre a questão.

As diferenças entre as máscaras

MÁSCARAS DE PANO

Usadas desde o início da pandemia, as máscaras servem para isolar o sistema respiratório do usuário do ambiente externo, o que ajuda a combater doenças infecciosas. A OMS recomenda que as máscaras de pano tenham pelo menos três camadas para garantir boa filtragem. Essas máscaras têm a vantagem de poderem ser lavadas e reutilizadas.

MÁSCARAS DO TIPO N95 E PFF2

Os equipamentos do tipo N95 e PFF2 se diferenciam das máscaras de pano por apresentarem melhor filtragem e vedação (eles não têm “buracos” que deixam o ar entrar entre o rosto e a máscara). Diferentemente das de pano, essas máscaras são descartáveis, mas podem ser reutilizadas após alguns dias de uso, e são consideradas mais seguras.

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