O que Freixo ganha ao ir para o PSB. E como fica o PSOL sem ele 

Deputado anuncia troca de partido a fim de ampliar alianças para as eleições ao governo do Rio em 2022. Cientistas políticos analisam o impacto da decisão

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    Marcelo Freixo, um dos principais líderes do PSOL, deixou o partido nesta sexta-feira (11) para ingressar no PSB. A mudança do deputado federal visa a disputa do governo do Rio de Janeiro em 2022, com expectativa de formar uma aliança ampla com o PT e partidos para além do espectro político da esquerda.

    O deputado vinha conversando com outros partidos, como o PT de Luiz Inácio Lula da Silva e o PDT de Ciro Gomes. Sua ideia de ampliar alianças enfrentava resistências no PSOL. Em 2020, Freixo desistiu de concorrer à prefeitura carioca porque não conseguiu construir uma frente ampla com outros partidos de esquerda. A desistência frustrou o PSOL, pois ele estava em segundo lugar nas pesquisas.

    Neste texto, o Nexo mostra como a trajetória de Freixo, que liderou no Rio a CPI das Milícias, se mistura com a própria história do PSOL. E traz também análises de dois cientistas políticos sobre a mudança de partido do deputado.

    Uma voz contra as milícias

    Marcelo Freixo tem atualmente 54 anos. No passado, foi um nome importante do PT do Rio. Em 2005, decidiu ingressar no recém-criado PSOL, uma dissidência de petistas contrários à reforma da Previdência promovida no setor público por Lula, em seu primeiro ano de mandato como presidente, em 2003.

    Em 2008, como deputado estadual, Freixo presidiu a CPI das Milícias na Assembleia Legislativa fluminense. Sua atuação foi um marco não só para o PSOL como para o enfrentamento do crime organizado no Rio, com o pedido de indiciamento de 225 pessoas, incluindo políticos e agentes de segurança.

    Sua atuação na CPI o colocou no extremo oposto da família Bolsonaro no estado. Um dos personagens da franquia Tropa de Elite, do diretor José Padilha, foi inspirado no então deputado estadual.

    Em meio aos três mandatos na Assembleia, Freixo chegou ao segundo turno da disputa pela prefeitura do Rio em 2016, sendo derrotado por Marcelo Crivella (Republicanos).

    Em 2018, Freixo conquistou uma cadeira na Câmara dos Deputados, com uma expressiva votação: 342 mil votos. Em 2020, o socialista disputaria mais uma vez a prefeitura, mas desistiu por acreditar que não teria um arco de alianças suficiente para elegê-lo.

    A busca por alianças mais amplas

    Freixo vinha enfrentando dificuldades no PSOL. Desde o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, o deputado passou a se aproximar de líderes petistas e de nomes como o do deputado Alessandro Molon (PSB-RJ) e o do governador do Maranhão, Flávio Dino (PCdoB).

    O deputado passou a conversar também com Carlos Lupi, presidente do PDT. Mas com seu declarado apoio a Lula numa eventual candidatura presidencial em 2022, as chances de um acordo com o partido de Ciro, que também é pré-candidato ao Planalto, foram descartadas.

    “Esse movimento de ida [para o PSB] é para dialogar com o centro e com todos aqueles que não querem Bolsonaro”, disse Freixo em live de suas redes sociais na sexta-feira (11). Sobre a candidatura ao governo do Rio, ele disse o seguinte: “É a ordem da lei contra a ordem do crime. Porque essa é a disputa: civilização contra a barbárie. Se Bolsonaro for derrotado no Rio de Janeiro, Bolsonaro é derrotado no Brasil”.

    O PSB é um partido socialista que surgiu ainda nos anos 1940, foi extinto na ditadura militar e voltou à ativa após a redemocratização nos anos 1980. Tem forte influência em Pernambuco. Não tem um nome nacional desde a morte de Eduardo Campos, ex-governador do estado, num acidente de avião quando era candidato a presidente em 2014.

    Trata-se de um partido médio, com 641.502 filiados (diante de 186.606 do PSOL), segundo dados de 2020. Em 2018, elegeu três governadores (enquanto o PSOL não elegeu nenhum), dois senadores (o PSOL também não elegeu nenhum), 32 deputados federais (o PSOL elegeu 10) e 64 deputados estaduais (o PSOL elegeu 18).

    Duas análises sobre a saída de Freixo do PSOL

    O Nexo conversou com cientistas políticos para entender o que significa a saída de Freixo no contexto eleitoral do próximo ano. O que acontece com o PSOL e o qual o futuro imediato do deputado.

    • Paulo Baía, professor da UFRJ
    • Marco Antonio Teixeira, professor da FGV-SP

    Marcelo Freixo estava no PSOL desde 2005, quando o partido foi criado. O que sua saída da legenda significa para sua carreira?

    PAULO BAÍA Marcelo Freixo vai ganhar uma amplitude que jamais teve tanto na cidade do Rio como no estado. Ele era um candidato bem votado na zona sul do Rio de Janeiro, mas não em outras áreas da cidade, nem na Baixada Fluminense, São Gonçalo e no interior do estado. A entrada dele para o PSB significa uma possibilidade de ampliação da política que Freixo já faz há algum tempo, ao mesmo tempo em que abre a possibilidade de uma coligação forte do PSB com o PT, que tem base forte no Rio de Janeiro, como em Niterói, Maricá e São Gonçalo, junto com o prefeito da cidade do Rio, que está no PSD, Eduardo Paes.

    Essa frente que reúne Eduardo Paes, Freixo e PT faz uma chapa muito competitiva no estado, uma chapa em que Freixo não vai ficar prisioneiro do voto dos estudantes universitários da zona sul, que é o que ele tem hoje, que chega a 400 mil votos. Como candidato a prefeito em 2016, ele chegou a ter quase um milhão de votos, mas foi batido com facilidade por Marcelo Crivella (Republicanos).

    Freixo está apostando numa esquerda que não é a que bate nele. A esquerda que agora bate em Freixo por sua aproximação com nomes de centro no PSB é a que já estava batendo antes. Ele aposta na liderança antiga do PT, com André Siciliano, presidente da Assembleia, com Quaquá e Benedita da Silva. Aposta na esquerda do PSB com Alessandro Molon. E quer trazer o PDT para junto dele. Não sei se vai conseguir, mas é bem visto no partido. O PDT tem Ciro Gomes como candidato a presidente e Freixo vai apoiar de maneira muito objetiva o ex-presidente Lula. O presidente do PDT, Carlos Lupi, é muito simpático a Freixo e queria que ele fosse para o partido. Já a esquerda que bate nele está muito localizada no PSOL e no PSTU.

    Marco Antonio Teixeira Essa saída do Freixo já era anunciada. Quando ele desistiu de ser candidato a prefeito do Rio, em 2020, ele desistiu por conta das limitações de aliança que o PSOL impôs a ele. Freixo já tinha uma clareza muito grande de que, com essa política de alianças, a possibilidade de o PSOL ter êxito na eleição de cargos executivos seria bastante restrita.

    Freixo vinha sinalizando que queria uma política de aliança mais ampla e com o crescimento do bolsonarismo, ele ampliou essa convicção. O que ele obviamente estava buscando era uma legenda mais adequada, em que ele, de certa forma, pudesse ser recebido e não tivesse tantas cisões internas para recebê-lo, o que seria o caso do PT do Rio, para sua eventual candidatura ao governo do Rio.

    A ida do Freixo para o PSB tem outra sinalização também. Ele decidiu entrar num partido cuja principal liderança é Alessandro Molon. Os dois são egressos do PT. São duas lideranças nacionais com trajetória muito respeitada. Isso mostra o quanto o PT está perdendo a capacidade de ter uma boa posição parlamentar, porque a qualidade parlamentar do PT ficou bastante precarizada.

    E como fica o PSOL com a saída de Freixo, uma de suas principais lideranças em todos esses anos?

    PAULO BAÍA O PSOL vai ter uma dificuldade em relação a sua chapa para deputados federais porque na eleição de 2022, com a cláusula de desempenho, vai ter de eleger 11 deputados em nove estados diferentes [para continuar tendo acesso ao fundo partidário e ao tempo de TV]. O Rio era um estado em que o partido tinha condições de eleger de 3 a 4 deputados federais com Freixo na chapa. A saída dele faz com que a competitividade da chapa federal diminua.

    Ao mesmo tempo, cria uma facilidade para o PSOL. O partido não gosta da tese da frente ampla que Freixo vinha defendendo. O PSOL já tinha lançado um candidato ao governo do estado, quer lançar candidato a presidente da República. Portanto, a saída do Freixo é positiva para a política do PSOL, na medida em que sua presença incomodava muitos setores do partido.

    Vamos pensar regionalmente: o PSOL sai forte em São Paulo com Guilherme Boulos, que é uma liderança nacional. O PSOL está forte no Rio Grande do Sul, com a deputada federal Fernanda Melchionna. Agora, o PSOL precisaria estar forte no Rio para não enfraquecer o partido nacionalmente.

    No Rio, o partido já tem uma liderança forte em crescimento, que é o Professor Tarcísio (vereador). É uma liderança mais nova, na eleição de 2020. Ele foi o vereador mais votado, mais até que Chico Alencar, um político que na campanha ao Senado em 2018 teve mais de um milhão de votos.

    Marco Antonio Teixeira Tem uma perda para o PSOL porque Freixo era sua principal liderança no Rio. Durante muito tempo o PSOL do Rio foi a grande referência para o PSOL nacional. O ganho que o partido teve com Guilherme Boulos em São Paulo não compensará, creio eu, a perda que teve agora.

    O eixo de referência do PSOL agora se desloca para São Paulo e Boulos passa a ser, de certa forma, um dos principais interlocutores do PSOL. Ele acabou de entrar no partido, mas já foi candidato a prefeito, presidente e, provavelmente, será candidato a governador. É alguém em quem o PSOL investe bastante, mas não de maneira unânime, pois há muitos rachas.

    A impressão que se tem é que o PSOL repete a história originária do PT. Está cheio de tendências, de grupos internos, que pensam várias direções diferentes para o partido. Assim, fica difícil traçar uma estratégia de ação.

    O PSOL tem uma visão muito curta de possibilidades de alianças políticas, o que é estranho tendo a deputada federal Luiza Erundina (SP) como uma das principais lideranças. É importante lembrar que, quando Erundina foi prefeita de São Paulo pelo PT (1990-1993), o maior problema dela foi esse. Ela quase perdeu o mandato porque vinha de uma concepção de alianças bastante restrita. Depois ela reviu, tentou fazer uma coalizão mais ampla, mas já era tarde.

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