O mito europeísta reproduzido pelo presidente da Argentina

Alberto Fernández diz que ‘brasileiros saíram da selva’ e argentinos ‘dos barcos’. Fala racista remete a pensamento que enaltece a origem branca e invisibiliza as heranças indígenas e africanas no país

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O presidente da Argentina, Alberto Fernández, disse na quarta-feira (9) que “os mexicanos vieram dos indígenas; os brasileiros saíram da selva; e nós [argentinos], chegamos em barcos, barcos que eram vindos da Europa”. Fernández atribuiu a frase erroneamente ao escritor mexicano Octavio Paz. Na realidade, a citação é de uma canção do músico argentino Litto Nebbia.

Feita durante um encontro com o premiê da Espanha, Pedro Sánchez, a fala de Fernandéz foi considerada racista e alvo de uma série de críticas nas redes sociais e entre líderes políticos e artistas da América Latina. Após a repercussão negativa, o presidente foi às redes para pedir desculpas a quem se sentiu ofendido. Ele disse que se referia aos mais de 5 milhões de imigrantes que chegaram à Argentina na primeira metade do século 20 e “conviveram com nossos povos originários”. Ele também afirmou que “nossa diversidade é um orgulho”.

A declaração do líder da Argentina remeteu ao mito da formação racial do país, que enaltece a herança europeia e invisibiliza as origens indígenas e africanas de parte da população argentina. Abaixo, o Nexo mostra de onde vem esse pensamento, por que ele não se sustenta, e como mitos raciais também persistem no Brasil.

O mito europeísta argentino

A ideia de que as raízes da população argentina são exclusivamente europeias não é verdadeira, mas é amplamente disseminada. Esse suposto europeísmo é frequentemente reproduzido por importantes figuras públicas do país. Como Fernández, outros presidentes recentes também fizeram menções a uma falsa homogeneidade branca e europeia na população do país.

Em 1993, o então presidente Carlos Menem (1989 a 1999) disse que “não há negros” na Argentina, e afirmou que isso ocorria porque o país abolira a escravidão em 1813, o que não é verdade. Em 1813, foi aprovada uma lei análoga à Lei do Ventre Livre brasileira, que determinou que descendentes de escravizados nasceriam livres. Mas a abolição só aconteceu de fato em 1853.

Em 2018, foi Mauricio Macri (2015 a 2019) que disse erroneamente que os argentinos são “todos descendentes da Europa”.

As políticas de branqueamento no século 19

Um censo feito em 1778 apontou que, à época, 37% da população da Argentina, então colônia espanhola, era africana ou descendente de africanos. Assim como no Brasil, a grande maioria dessas pessoas era escravizada. Por décadas após a independência da Espanha, em 1816, essa participação ficou estável em torno de 30%.

O quadro mudou principalmente a partir da segunda metade do século 19. Sob a influência de pensadores eugenistas europeus e argentinos, o branqueamento da população virou política de Estado. A Constituição de 1853 – a mesma que aboliu a escravidão – também trazia medidas para estimular a imigração europeia. Entre 1868 e 1874, a Argentina foi presidida por Domingo Faustino Sarmiento, um dos intelectuais dessa corrente racista.

Depois de Sarmiento, Julio Argentino Roca – que governou entre 1880 e 1886 e depois entre 1898 e 1904 –, foi responsável por aprofundar a prática de extermínio e apagamento das populações indígenas, que já vinha de séculos anteriores. O principal capítulo dessa política é conhecido como “Conquista do Deserto”, ou “Campanha do Deserto”. Trata-se do conjunto de expedições militares coordenadas pelo governo argentino na segunda metade do século 19 para ocupar territórios na Patagônia e nos Pampas.

Apesar do apelido dado à ofensiva, essas terras não estavam desertas, e eram ocupadas por diferentes comunidades indígenas. Nas campanhas, o exército argentino promoveu o extermínio de boa parte dessas populações, em processo reconhecido por historiadores como um etnocídio ou um genocídio.

O apagamento da diversidade étnica na Argentina

Em paralelo, a participação da população negra na Argentina também foi decaindo. Em parte, isso ocorreu pela forte leva de imigração europeia – cerca de 7 milhões de pessoas chegaram da Europa na Argentina entre 1850 e 1950, sobretudo vindas da Itália e da Espanha.

Além disso, muitos homens negros morreram ao ocupar as linhas de frente das guerras travadas pelo país no século 19. Com isso, mulheres negras passaram a casar com homens brancos, aumentando a miscigenação.

As más condições de vida também tornava a mortalidade na Argentina mais alta entre negros que entre brancos. Por isso, epidemias como a de cólera em 1861 e de febre amarela em 1871 acabaram deixando proporcionalmente mais vítimas entre a população afro-argentina.

O apagamento da herança de negros e indígenas na Argentina em prol do europeísmo também se manifestou na formação da cultura local. A arquitetura argentina das primeiras décadas do século 20 é um exemplo – os prédios e espaços públicos de Buenos Aires foram pensados para imitar cidades como Paris e Londres. Houve um processo de branqueamento também na música: a contribuição dos negros argentinos para o surgimento do tango, por exemplo, foi minimizada.

O apagão de dados raciais

No século 19, o censo deixou de coletar informações sobre a origem étnica da população, abrindo caminho para o ocultamento da diversidade racial da Argentina e impedindo uma mensuração precisa da composição populacional.

A pesquisa só voltou a incluir perguntas sobre o tema em 2010, mas há suspeitas de erros metodológicos. O censo de 2020 foi adiado pela pandemia, e só deve ocorrer na virada de 2021 para 2022.

Não há uma estimativa consensual sobre os números da composição étnica e racial da população argentina atualmente. Mas é certo que a ideia de que todos os argentinos são descendentes de europeus não é verdadeira. Um estudo genético feito pela UnB (Universidade de Brasília) em 2008 estimou que os afro-argentinos eram 9% da população do país, e que descendentes de povos indígenas representavam cerca de 30% da população.

Os mitos raciais brasileiros

Os mitos raciais construídos em torno de identidades nacionais não são exclusivos da Argentina. Se no país vizinho o mito é de que não há negros, no Brasil, o mito principal é de que não há racismo. A ideia de que o Brasil não é um país racista – geralmente sustentada pelo fato de que o país não teve leis de segregação como as americanas ou por causa de sua história de miscigenação – é incorreta mas persistente.

O sociólogo Gilberto Freyre (1900-1987) é creditado como primeiro autor a popularizar a ideia de que o país seria uma “harmonia racial”, mas a teoria é hoje encarada primordialmente como um mito. Isso porque a ideia de democracia ou harmonia racial esconde e nega as desigualdades e exclusões sistêmicas das populações negras e indígenas no Brasil, que refletem a herança escravocrata colonial do país.

Segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), 45,9% da população brasileira em 2021 é parda; 44,4% é branca; e 8,7% é preta.

Os mitos brasileiros no discurso presidencial

O discurso da democracia racial é reproduzido com frequência pelo presidente Jair Bolsonaro e pelo alto escalão de seu governo. Em novembro de 2020, após o assassinato de João Alberto Silveira Freitas, um homem negro de 40 anos que foi espancado até a morte em um supermercado em Porto Alegre, Bolsonaro indicou que não acredita que haja racismo no Brasil.

“Somos um povo miscigenado. Foi a essência desse povo que conquistou a simpatia do mundo. Contudo, há quem queira destruí-la, e colocar em seu lugar o conflito, o ressentimento, o ódio e a divisão entre raças, sempre mascarados de ‘luta por igualdade’ ou ‘justiça social’”

Jair Bolsonaro

presidente da República, em fala em 21 de novembro de 2020

Meses antes, em 23 de janeiro de 2020, Bolsonaro já havia dito que “cada vez mais o índio é um ser humano igual a nós”, em fala que ecoou a antiga política indigenista brasileira (visando a suposta civilização), abandonada pela Constituição de 1988.

Também após a morte de João Alberto em novembro de 2020, o vice-presidente Hamilton Mourão seguiu a mesma linha de pensamento. Mas foi explícito ao negar o racismo no Brasil.

“Para mim, no Brasil, não existe racismo. Isso é uma coisa que querem importar aqui para o Brasil. Eu digo para vocês o seguinte, porque eu morei nos EUA: racismo tem lá. (...) O pessoal de cor sentava atrás do ônibus, não sentava na frente do ônibus. Isso é racismo. Aqui não existe isso. Aqui você pode pegar e dizer é o seguinte: existe desigualdade”

Hamilton Mourão

vice-presidente da República, em fala em 20 de novembro de 2020

Além dessa fala, Mourão já exaltou em diversas ocasiões acontecimentos do período colonial do Brasil, sem lembrar ou mencionar o regime de escravidão adotado no país à época.

Na quarta-feira (9), após a fala racista de Fernández, Bolsonaro postou nas redes sociais uma foto posando com integrantes de uma comunidade indígena. Na imagem, ele veste um cocar. A legenda ironiza a fala do presidente da Argentina: “SELVA!”.

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