Laerte, 70 anos: a carreira da cartunista em 4 fases 

Criadora de personagens como Piratas do Tietê e Muriel, artista é considerada um dos principais nomes da área no país. Para comemorar o aniversário, ela lançou um site com sua obra

O Nexo é um jornal independente sem publicidade financiado por assinaturas. Este conteúdo é exclusivo para nossos assinantes e está com acesso livre como uma cortesia para você experimentar o jornal digital mais premiado do Brasil. Apoie nosso jornalismo. Conheça nossos planos. Junte-se ao Nexo!

A cartunista e chargista Laerte Coutinho, considerada um dos nomes mais importantes da área no país, completa 70 anos nesta quinta-feira (10). Em comemoração à data, ela lançou um site com sua obra completa, que está sendo catalogada.

Criadora de personagens famosos, como os Piratas do Tietê, Hugo Baracchini, Overman e Muriel, Laerte ficou conhecida pela obra criativa, crítica, elegante e bem-humorada, que reflete sobre temas contemporâneos, política, filosofia e psicologia.

A cartunista faz parte da geração de artistas que transformaram o modo brasileiro de fazer quadrinhos, como Angeli e Gauco, de quem ela foi parceria a partir da década de 1980. Os trabalhos de Laerte foram premiados, publicados em grandes veículos e transformados em livros.

Abaixo, o Nexo resume a carreira de Laerte dentro dos quadrinhos em quatro momentos, desde o início das atividades, quando ainda era estudante universitária, nos anos 1970, até a produção nos anos mais recentes.

O início politizado

A primeira fase da carreira de Laerte foi marcada por trabalhos experimentais e de temática política, publicados entre os anos 1970 e 1980. Em 1973, no auge da ditadura militar (1964-1985), a cartunista de 22 anos se filiou ao PCB (Partido Comunista Brasileiro) e integrou campanhas contra o regime autoritário.

Em 1970, começou a colaborar para a revista Sibila, desenhando o personagem Leão. Pouco depois, fundou, com o colega Luiz Gê, a revista de quadrinhos Balão, que era vinculada à USP (Universidade de São Paulo). Na época, Laerte estudava jornalismo na universidade, mas não chegou a se graduar.

Entre os trabalhos que se destacam na época estão o livro “Ilustração Sindical”, publicado em 1986 pela Oboré, empresa de comunicação sindical fundada por Laerte nos anos 1970. A cartunista também produziu material de campanha para o MDB (então partido de oposição à ditadura) e para movimentos sociais.

A parceria com Angeli e Glauco

Ainda na década de 1980, Laerte participou da revista Chiclete com Banana, editada pelo cartunista Angeli, e da revista Geraldão, comandada pelo cartunista Glauco. Com os dois, ficou famosa por ter desenvolvido, na mesma época, a série de faroeste Los Tres Amigos.

Os personagens da série eram alteregos dos três cartunistas: Laerton, Angel Villa e Glauquito. Os quadrinhos foram publicados em revistas como a Chiclete e em jornais de grande circulação, nos quais os três trabalhavam. De tom cômico, eles foram marcados pelo uso de hiatos (comentários do narrador).

Nessa época, Laerte também criou a revista Circo com Luiz Gê e colaborou com veículos conhecidos, como O Pasquim. Em 1988, recebeu o prêmio de melhor roteirista nacional na premiação HQ Mix. Em 1994, Los Tres Amigos ganhou o quarto membro, baseado no alterego do cartunista Adão Iturrusgarai.

Os piratas do Tietê

Em 1983, Laerte deu início a outra série conhecida: Piratas do Tietê. Os quadrinhos contam histórias de um grupo de piratas que navega pelo rio Tietê, em São Paulo, buscando vítimas para saquear. O desenho com frequência mescla elementos da realidade e fantasia.

A primeira aparição de Piratas do Tietê foi na revista Chiclete com Banana. Os personagens de Laerte tornaram-se tão populares que se transformaram em uma revista, “Piratas do Tietê”, lançada em 1990. Em 1991, o jornal Folha de S.Paulo passou a publicar a tira.

Com o sucesso, “Piratas do Tietê” passou a ser o título de todas as tiras de Laerte no jornal, onde a cartunista trabalha até hoje. Desde então, Laerte não só contou as histórias do grupo de saqueadores de São Paulo, mas criou outros personagens e séries de quadrinhos.

O olhar para dentro

A partir de 2004, Laerte abandonou parte de seus personagens e ingressou em uma fase mais introspectiva de sua obra, recuperando o caráter experimental de seus primeiros quadrinhos e criando histórias com temática filosófica e existencialista, voltadas a questões do indivíduo.

O período mais recente da carreira de Laerte também é marcado pela descoberta das questões de gênero. Em 2010, Laerte tornou pública sua transição de gênero e passou a se identificar como mulher trans. A experiência da artista, que com frequência fala sobre o assunto, contribuiu para dar visibilidade ao tema.

Em 2009, para tratar do tema, Laerte criou o personagem Hugo, que viveu os mesmos questionamentos que ela teve quando redescobriu sua identidade, e Muriel, que protagoniza histórias cotidianas de travestis. Os quadrinhos do período passaram a ser mais políticos do que cômicos.

Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project.