Como o Pix está sendo usado para esquemas de pirâmide

Prática criminosa promete ganhos rápidos por meio de grupos de WhatsApp e sistema de pagamentos instantâneos do Banco Central

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Esquemas de pirâmide envolvendo o Pix – sistema de pagamentos instantâneos do Banco Central lançado em 2020 – estão crescendo rapidamente, com promessas de ganhos impossíveis de serem entregues.

Na quarta-feira (9), o Banco Central enviou um comunicado oficial ao site Poder360 alertando a população acerca do golpe, que tem sido divulgado em redes sociais como o Twitter e o TikTok. O esquema envolve a venda de convites para grupos de WhatsApp.

Neste texto, o Nexo mostra como funcionam os “grupos de Pix” e quais suas armadilhas, e mostra como o interesse pelo assunto tem crescido.

Como o esquema funciona

O esquema de pirâmide na maioria dos grupos de Pix funciona em duas etapas:

  • Criação do grupo: um usuário do WhatsApp cria um grupo e convida pessoas para entrarem também, cobrando valores que vão de R$ 1 a R$ 5, recolhidos pelo menos duas vezes ao mês
  • Crescimento do grupo: as pessoas que pagaram a taxa para o criador do grupo convidam novas pessoas, recebendo um percentual da taxa, que varia em cada caso

O Nexo entrou em três desses grupos por meio de anúncios presentes no site Grupo Whats. Nenhum tipo de pagamento foi feito para a elaboração deste texto. Na manhã de quinta-feira (10), 178 pessoas já estavam em um dos grupos.

A maior parte dos participantes vinha da região metropolitana de São Paulo, mas também havia usuários de outras partes do país, incluindo Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Pernambuco, Rio de Janeiro e até mesmo Angola, no sul da África.

Os grupos se vendem como uma plataforma de “investimento informal”, com promessas de retornos rápidos e significativos aos participantes.

Foto: Cesar Gaglioni/Nexo
Mensagem enviada na manhã de quinta-feira (10) pelo administrador de um dos grupos que o ‘Nexo’ entrou durante a elaboração deste texto. Número e nome do usuário foi ocultado para preservar a identidade e privacidade do indivíduo
Mensagem enviada na manhã de quinta-feira (10) pelo administrador de um dos grupos que o ‘Nexo’ entrou durante a elaboração deste texto. Número e nome do usuário foram ocultados para preservar a identidade e privacidade do indivíduo

As promessas são ousadas e podem ser tentadoras. No maior dos três grupos, a taxa de ingresso é de R$ 4, enviado por Pix a um dos administradores.

O usuário, então, entra em uma lista de espera, organizada por ordem de ingresso no grupo. A cada cinco novos participantes, o primeiro nome da lista recebe R$ 20. Chegados mais cinco participantes, o segundo da lista recebe os R$ 20, e assim sucessivamente.

Esse tipo de pirâmide é conhecido como esquema de Ponzi, uma referência a Charles Ponzi, estelionatário italiano que se radicou nos EUA no início do século 20, aplicando golpes bilionários.

O dinheiro de uma pirâmide depende da entrada de mais e mais pessoas no negócio. Matematicamente, a conta não fecha, e uma hora tudo acaba desabando. Em esquemas de Ponzi, apenas as pessoas no topo da pirâmide podem ganhar algum dinheiro real, enquanto todas as outras jamais verão a cara dos valores ou receberão apenas migalhas.

Ao site Poder 360, o Banco Central alertou para os riscos do esquema: “desconfie sempre que uma oferta parece boa demais para ser verdade, como ganhar muito dinheiro chamando pessoas para transferirem dinheiro sem motivo algum e ganhar uma parte desses valores”.

“Infelizmente, o Pix ou qualquer outro meio para a transferência de recursos podem ser usados por pessoas mal-intencionadas para aplicar golpes”, disse a instituição. O Pix foi disponibilizado em novembro de 2020 como um sistema de pagamentos instantâneos sem taxa, e teve adesão de uma parcela significativa da população.

Esquemas de pirâmide são ilegais no Brasil, e podem ser enquadrados como crime contra a economia popular – previsto na lei federal 1.521 – e estelionato, previsto no artigo 171 do Código Penal. A pena para esses crimes pode chegar a cinco anos de prisão e multa de até 10 salários mínimos (seguindo o valor vigente no momento da condenação).

Para denunciar um esquema de pirâmide, basta preencher o formulário de denúncia no site do Ministério Público Federal. Há também a possibilidade de fazer a denúncia para a Polícia Federal ou à Polícia Civil estadual.

A promessa vazia de dinheiro fácil

Boa parte do apelo de marketing nesses grupos se dá pela promessa de uma renda extra rápida e sem muito esforço. Mas cálculos simples demonstram que o prometido pelos grupos do Pix não pode ser cumprido.

Especialistas em finanças pessoais consideram como renda extra valores equivalentes a 30% dos ganhos mensais totais de um indivíduo. Considerando o valor do salário mínimo em 2021 – R$ 1.100 – um único usuário desse grupo precisaria recrutar 412 pessoas para conseguir atingir o valor de uma renda extra, R$ 330.

Grupos de Whatsapp têm o limite de 256 pessoas. Ou seja, a conta não vai fechar nunca, e apenas o criador do grupo conseguirá embolsar algum valor significativo. Na maioria dos casos, não há nem a garantia de que os participantes receberão os valores mínimos prometidos.

O Nexo fez alguns cálculos com base nos valores de ingresso, na rentabilidade alegada e no número de membros do maior grupo verificado. As contas mostram que a falcatrua é matematicamente insustentável e que o dinheiro prometido nunca entra em circulação – acaba embolsado pelos golpistas.

73,4 mil

é o número de pessoas necessário para que os 178 membros do grupo consigam atingir a meta de R$ 330. É o equivalente a 93% da capacidade total do Estádio do Maracanã

30,2 milhões

é o número de pessoas que as novas 73,4 mil pessoas do grupo precisariam recrutar para atingir a meta de R$ 330. Isso equivale a 65% da população do estado de São Paulo

12,4 bilhões

é o número de pessoas que as novas 30,2 milhões de pessoas do grupo precisariam recrutar para atingir a meta de R$ 330. Isso equivale a um montante 77% maior do que o número total de pessoas vivas no planeta inteiro

Não é incomum que administradores tenham mais de um grupo do tipo, com diferentes taxas de ingresso. O Nexo entrou em contato com o Facebook – proprietário do WhatsApp – para questionar se grupos do tipo são permitidos na plataforma. Até a tarde de quinta-feira (10), nenhuma resposta foi enviada.

O aumento no interesse

Uma busca pelos termos “grupo de Pix” no Google retorna pouco mais de 3,3 milhões de resultados – entre notícias sobre o esquema, textos opinativos sobre o tema e sites que anunciam a venda dos convites.

No Google Trends, ferramenta da empresa americana que mensura tendências de pesquisa no buscador, houve um aumento significativo nas buscas pelo termo a partir da segunda semana de junho de 2021, quando os grupos começaram a ser divulgados de maneira mais ampla.

INTERESSE EM ALTA

Gráfico sobre buscas por "grupo pix" no Google

O Nexo entrou em contato com o Google para questionar se a exibição de sites que convidam usuários para participar desses grupos é permitida pela plataforma. “Temos políticas rígidas que proíbem que páginas com conteúdos inadequados, ofensivos ou problemáticos apareçam em resultados na busca, dentre eles páginas que contenham material de exploração ou imagens de abuso sexual infantil, spam, informações pessoais que promovam riscos significativos de roubo de identidade, ou pornografia não consentida, por exemplo”, disse Murilo Roncolato, gerente de comunicações da empresa no Brasil.

“Quando não há violação dessas políticas, a decisão sobre a necessidade de remoção do conteúdo cabe ao Poder Judiciário, de acordo com o que estabelece o Marco Civil da Internet. Se há uma ordem judicial pedindo a remoção da página, o Google remove o conteúdo."

No TikTok, vídeos curtos divulgam os grupos. A rede social emitiu um comunicado oficial sobre o tema na quarta-feira (9). “Não permitimos conteúdo que promova e incentive atividades ilegais. Nossa principal prioridade é garantir que a plataforma seja um lugar seguro para todos. Por isso, trabalhamos constantemente para detectar e remover conteúdo que viole nossas Diretrizes da Comunidade”.

No Twitter, usuários fazem propaganda dos grupos e falam dos próprios rendimentos. “Dá pra tirar R$ 180 por dia!”, escreveu um deles. O Nexo entrou em contato com o Twitter, questionando se mensagens do tipo são permitidas na plataforma. "O Twitter tem regras, como a política contra fraudes financeiras, que determinam os conteúdos e comportamentos permitidos na plataforma, e violações a essas regras estão sujeitas às medidas cabíveis", diz nota oficial da empresa.

NOTA DE ESCLARECIMENTO: Este texto foi atualizado às 10h45 do dia 11 de junho de 2021 para incluir o posicionamento oficial do Twitter.

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