Como a literatura coreana ganha espaço no Brasil

Número de publicações por editoras vem crescendo, na esteira de obras premiadas como ‘A vegetariana’, de Han Kang, e do incentivo a traduções para o português

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O primeiro semestre de 2021 contou com dois lançamentos de títulos sul-coreanos no Brasil. O primeiro é “Noite e dia desconhecidos”, da autora Bae Su-ah, que já tem outra obra traduzida no país, “Sukiyaki de domingo”, de 2014. O segundo é “Atos humanos”, de Han Kang, autora do premiado “A vegetariana”, cuja edição mais recente no país é de 2018.

Os lançamentos são parte do interesse crescente em obras de autores da Coreia do Sul no Brasil e do incentivo do país asiático a traduções. Segundo um levantamento do pesquisador e tradutor de literatura infantil coreana Luis Carlos Girão, desde 2017 as editoras brasileiras publicaram mais de 25 títulos de autores coreanos. Entre 1985, data da primeira publicação coreana no Brasil, até 2015, foram apenas 15 lançamentos.

As traduções no Brasil

O custo de tradução do coreano para o português – mais caro pela falta de tradutores no Brasil – é um impeditivo para a ampliação do mercado. De acordo com um artigo publicado na revista Criação e Crítica da USP por Yun Jung Im Park, tradutora e coordenadora do Curso de Língua e Literatura Coreana da universidade, boa parte das publicações da península do leste asiático no Brasil só foi possível por causa do apoio do Instituto de Tradução de Literatura da Coreia.

Consolidado pelo governo sul-coreano em 2001, o instituto tem o propósito de promover a literatura coreana no mundo. Para isso, ele promove eventos e patrocina as traduções e publicações desse tipo de arte em países específicos, como acontece no Brasil desde 2017. Esse patrocínio é destinado ao curso de coreano da USP, que é a única faculdade do idioma no país e um dos agraciados pelo programa na América Latina.

É uma estratégia de soft power do país asiático, que atualmente tem o kpop, o cinema e as novelas como grandes meios de disseminação da cultura coreana no Ocidente. A popularidade desses produtos também alimenta o interesse do mercado editorial – que em parte recorre a autores coreano-americanos, com textos em inglês e por isso de tradução mais barata.

No Brasil, uma parte das traduções do coreano também é feita por descendentes no país ou por imigrantes recentes. É o caso da coreana Jiyun Kim, professora e tradutora de “Atos humanos”. Ela estuda português desde 2012 e mora no Brasil desde 2015, onde ministra aulas de coreano.

Os descendentes em diáspora

A literatura feita por descendentes de coreanos, em sua maioria americanos, é um fenômeno à parte. A primeira publicação de um coreano nos Estados Unidos foi “The grass roof”, de Younghill Kang, em 1931. A narrativa do livro gira em torno da história do autor após sua imigração para os Estados Unidos.

A imigração é tema ainda hoje, como em “Pachinko”, de Min Jin Lee, que conta a ida de coreanos para o Japão. Em breve o livro terá seu enredo adaptado para a Apple TV.

No Brasil, as obras coreanas-americanas que mais chamam a atenção das editoras fazem parte da literatura infantojuvenil, como a série de livros inspirados na novela coreana “Tudo bem não ser normal”, da Netflix. Há também títulos como “Frank e o amor”, de David Yoon e “Nasci para brilhar”, de Lyla Lee.

Segundo reportagem do jornal Folha de S.Paulo, a editora Seguinte, da Companhia das Letras, vai lançar “Super Fake Love Song”, do coreano-americano David Yoon. A Editora Intrínseca prevê “Bright”, de Jessica Jung, em 2022. Já a Globo Livros pretende lançar os títulos “K-pop revolution”, de Stephan Lee, e “Seoulmates”, de Susan Lee, também em 2022.

Ao Nexo, a pesquisadora Yun Jung Im Park afirmou que a atenção à literatura infantojuvenil ajuda a apresentar a literatura do país a leitores desde cedo. “Um leitor de 15 anos que lê essa literatura juvenil coreana vai crescendo e a gente [mercado editorial] vai crescendo junto”, disse.

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