O julgamento que inspirou o filme ‘Invocação do mal 3’

Caso da década de 1980 serviu como base para novo capítulo da saga de terror no cinema. À época, acusado de homicídio alegou que estava possuído por um demônio no momento do crime

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    O filme “Invocação do mal 3 - A ordem do demônio” estreou no Brasil no dia 3 de junho. É a terceira parte da saga principal da franquia de terror iniciada em 2013.

    O longa conta a história de Arne Johnson, um rapaz americano que, em 1981, matou o proprietário do apartamento onde vivia e, quando levado ao tribunal, alegou que no momento do crime estava possuído por um demônio.

    O filme de terror traz os supostos fenômenos paranormais como verdadeiros, mas o caso de Arne Johnson é lembrado como um dos grandes imbróglios jurídicos dos EUA, e ainda é estudado em faculdades de direito no país.

    Neste texto, o Nexo explica o caso e quem são os personagens reais por trás da franquia de terror. Também resgata outros episódios em que o demônio foi citado em tribunais e que deram origem a filmes do gênero.

    Como foi o caso Arne Johnson

    Segundo o próprio Arne Cheyenne Johnson explicou em entrevistas, ele era um cético em questões sobrenaturais até 1981. Naquele ano, seu cunhado de 12 anos, David Glatzel, começou a apresentar comportamentos estranhos, como supostamente se comunicar com o fantasma de um homem que um dia morara em sua casa, falar em latim e recitar trechos de “Paraíso perdido”, poema de John Milton sobre o diabo.

    A família Glatzel convocou os médiuns Ed e Lorraine Warren para auxiliá-los. O diagnóstico foi rápido: David estava possuído e precisava de um exorcismo imediatamente.

    Ed se encarregou do ritual. De acordo com o casal Warren e com membros da família Glatzel, em dado momento Arne Johnson pediu que o espírito deixasse o menino em paz e entrasse nele – uma solução idêntica ao desfecho do filme “O exorcista” (1973) e de um trecho do Evangelho de Marcos em que Jesus tira demônios de um homem e envia-os para um grupo de porcos.

    Meses depois da sessão com os médiuns, quando David já se dizia bem, Arne Johnson matou Alan Bono, proprietário do apartamento onde morava junto com a namorada, Debbie, no estado de Connecticut.

    Bono foi morto com cinco facadas, e Johnson foi preso em flagrante a poucos quilômetros dali. Quando interrogado, afirmou que estava possuído por um demônio no momento do crime. Relatos de testemunhas colhidos posteriormente afirmaram que Johnson e Bono estavam em uma discussão acalorada no momento do assassinato – Bono estava supostamente estava embriagado e perturbava o casal.

    Johnson alegava que tinha sido obrigado pelo demônio a matar Bono e que por isso não seria o verdadeiro autor do crime. O caso ficou conhecido como “O diabo me obrigou” (The devil made me do it, em inglês, usado também no título original de “Invocação do mal 3”).

    O caso acabou sendo encaminhado para a Corte Superior de Connecticut. A defesa de Johnson apresentou o argumento da possessão ao juiz Robert Callahan. À época, Connecticut contava com pena de morte para casos de homicídio doloso – quando há intenção de matar.

    A defesa de Johnson argumentava que se a Justiça americana aceita a existência de um deus como algo inegável – já que réus e testemunhas precisam jurar dizer a verdade diante do Deus cristão em todos os processos no país –, era necessário também aceitar a existência do Diabo cristão.

    Callahan não aceitou o argumento da possessão, afirmando que ela não poderia ser sustentada por evidências materiais – ou seja, como a existência do sobrenatural não foi comprovada cientificamente e depende unicamente da fé individual, o argumento não seria aceito.

    Os advogados de Johnson então apresentaram a hipótese de que a morte de Bono foi um homicídio culposo – sem intenção de matar – e que o rapaz estava apenas se defendendo.

    O júri popular – que originalmente estava inclinado a aceitar a ideia da possessão, mas foi impedido pelo juiz – decidiu a favor de Johnson, que evitou a pena de morte e foi condenado a 20 anos de prisão por homicídio culposo. Ele acabou cumprindo apenas um quarto da pena, por bom comportamento.

    Mesmo quatro décadas depois do julgamento de Johnson, o caso segue sendo estudado em faculdades de direito dos Estados Unidos, servindo como um ponto de partida para discussões sobre a laicidade do sistema Judiciário do país e sobre como afirmações grandiosas e abstratas – que não podem ser provadas – podem impactar julgamentos.

    Os supostos médiuns que inspiraram ‘Invocação do Mal’

    Bem recebida pela crítica e pelo público, a série de filmes “Invocação do mal” foi criada em 2013 pelo cineasta James Wan (“Jogos mortais”). Os filmes usam como inspiração os casos nos quais se envolveu o casal Ed e Lorraine Warren, que se apresentavam como médiuns.

    Ed e Lorraine viraram fenômenos na mídia americana na década de 1970, quando começaram a oferecer palestras acerca do sobrenatural por todo o país.

    O casal Warren alegava que tinham profundo conhecimento do sobrenatural. Lorraine se apresentava como sensitiva e capaz de se comunicar com os mortos, enquanto Ed se considerava um demonologista e exorcista autodidata.

    Os Warren recebiam pedidos constantes de pessoas que afirmavam que suas residências estavam assombradas e iam até o local para registrar a ocorrência e afastar os espíritos.

    Apesar de terem sido chamados de charlatões desde o princípio, Ed e Lorraine tinham um apoio significativo da sociedade americana, já que não cobravam pelas ajudas prestadas, e ganhavam a vida com palestras e vendas de livros, o que, aos olhos da opinião pública, livrava-os de qualquer acusação de oportunismo.

    Em 2017, quando a franquia “Invocação do mal” já estava decolando como um dos principais produtos de Hollywood, a revista The Hollywood Reporter publicou uma reportagem com diversas acusações contra o casal.

    A principal delas é de que Ed seria um marido abusivo, e que teria mantido, por anos, um relacionamento com uma adolescente de 15 anos com o consentimento de Lorraine. A garota – identificada apenas como Penney – chegou a morar com o casal após ser condenada por delinquência juvenil em 1963.

    Anos depois, já no final da década de 1970, Penney teria engravidado de Ed, e o casal supostamente a obrigou a realizar um aborto com medo do impacto da revelação para os negócios.

    O texto também afirma que o casal Warren em diversas ocasiões encenou fenômenos paranormais e situações aterrorizantes. A investigação do The Hollywood Reporter foi feita a partir de autos públicos de processos e entrevistas com pessoas ligadas ao casal Warren.

    Ed Warren morreu em 2006, em decorrência de problemas cardíacos. À época das acusações, Lorraine estava viva e, por meio de seus advogados, negou todas as afirmações. Ela morreu de causas naturais em 2019, aos 92 anos.

    Desde a publicação da reportagem, espectadores de filmes de terror e críticos de cinema têm criticado a franquia “Invocação do mal” por apresentar Ed e Lorraine como heróis sem defeitos.

    “‘Invocação do mal’ pode nos mostrar o mundo do jeito que os Warren queriam que ele fosse. Mas vivemos no mundo real. E conseguimos ver quem são os verdadeiros monstros”, afirmou o jornalista e escritor Jude Doyle em sua página no Medium na terça-feira (8).

    Outros casos que viraram filme

    O caso de Arne Johnson não foi a única ocasião em que uma suposta manifestação demoníaca foi parte de um julgamento – e posteriormente deu origem a filmes de terror. Um dos episódios mais emblemáticos do tipo ocorreu na Alemanha, na década de 1970.

    Em 1975, Anneliese Michel, uma jovem católica de 22 anos, começou a apresentar comportamentos fora do padrão, como contorcer o corpo em posições pouco habituais, ingerir a própria urina, xingar seus familiares, comer carvão e insetos e falar com uma voz muito mais grave que a sua.

    A família de Anneliese, profundamente católica, passou a acreditar que se tratava de uma possessão demoníaca e decidiu consultar padres locais.

    Anneliese passou por 67 rituais de exorcismo, que se estenderam por 10 meses. A jovem morreu em 1º de julho de 1976, aos 23 anos. A causa oficial da morte foi inanição e desidratação. Ela pesava cerca de 30 kg quando morreu.

    O caso foi parar nos tribunais alemães. De um lado, promotores públicos acusavam a família e os padres de negligência, apontando que Anneliese claramente tinha algum tipo de transtorno mental – corroborada pelo fato de que anos antes a garota tinha sido diagnosticada com epilepsia e passado por um hospital psiquiátrico.

    De outro, a família, os padres e a Igreja Católica defendiam veementemente que Anneliese estava possuída por um ou mais demônios, usando gravações do exorcismo como evidências que corroboravam com a ideia.

    Os padres Ernst Alt e Arnold Renz foram condenados a seis meses de prisão por homicídio culposo decorrente de negligência. A Igreja recorreu da decisão e conseguiu reverter a sentença um mês depois. A família de Anneliese foi inocentada.

    O caso foi retratado nos filmes “O exorcismo de Emily Rose” (2005) e “Requiem” (2006).

    O demônio voltou a aparecer nos tribunais americanos em 1974, quando Ronald DeFeo Jr, um jovem de 23 anos residente do estado de Nova York, matou seus pais e seus quatro irmãos enquanto eles dormiam.

    No júri, DeFeo Jr. alegou que ouvia vozes demoníacas sussurrando em seus ouvidos, o que motivou o crime. O caso ganhou ainda mais tons de espetáculo quando uma família se mudou para a antiga casa dos DeFeo e deixou a residência menos de um mês depois alegando fenômenos paranormais no terreno. O episódio serviu como base para o filme “Horror em Amityville”, de 1979.

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