Como o futebol reacende a tensão entre Rússia e Ucrânia

Uniforme da seleção ucraniana traz mapa e frases vistas como provocação por Moscou, em disputa que envolve o território da Crimeia

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A seleção de futebol da Ucrânia usará em seu uniforme, durante o campeonato europeu, um mapa em relevo que inclui a Crimeia, território ucraniano que foi anexado pela Rússia em 2014 sob desaprovação internacional.

O novo uniforme foi apresentado no dia 6 de junho por Andrii Pavelko, chefe da Associação de Futebol da Ucrânia, o equivalente local à CBF (Confederação Brasileira de Futebol). No lançamento, o dirigente adotou tom de provocação: “Acreditamos que a silhueta da Ucrânia dará força aos jogadores, pois eles lutarão pela Ucrânia. Toda a Ucrânia, de Sebastopol a Simferopol, de Donetsk e Lugansk a Uzhgorod, os apoiará em todos os jogos.”

As menções a essas cidades foram calculadas. Sebastopol é um importante enclave naval russo na disputada Crimeia. Simferopol também é controlada por Moscou, enquanto Donetsk e Lugansk são territórios onde atuam forças irregulares atreladas informalmente aos interesses do Kremlin.

Além do recado geográfico, Pavelko disse que duas frases foram estampadas no novo uniforme: “Glória à Ucrânia!”, nas costas, na parte de fora, e “glória aos heróis!”, na parte de dentro. As duas frases eram usadas pelos manifestantes pró-Ucrânia que se opuseram à ingerência russa no cisma de 2014.

A reação diplomática do Kremlin

A resposta russa veio por meio de declarações de parlamentares que se disseram ultrajados com a provocação, e também pela porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do governo de Vladimir Putin. As reações foram amplificadas pela agência estatal de notícias da Rússia, a RIA.

O mapa da Ucrânia “que inclui o território russo [da Crimeia] é ilegal”, disse o parlamentar russo Dmitry Svishchev. Já para a porta-voz da chancelaria em Moscou, Maria Zakharova, as frases estampadas na roupa dos jogadores “ecoam gritos nazistas”.

A missão diplomática da Ucrânia na União Europeia publicou posts de internet fazendo menção ao mapa no uniforme, que também foi saudado em post no Twitter pela Embaixada dos EUA em Kiev, capital da Ucrânia. O post americano recebeu uma resposta bem-humorada da Embaixada do Reino Unido em Kiev, que também saudou o novo uniforme: “Nós também amamos!”.

Qual a história da disputa

Ucrânia e Crimeia foram incorporadas separadamente pela URSS em 1921. Em fevereiro de 1954, o secretário-geral do Partido Comunista da União Soviética Nikita Khrushchov, sucessor de Josef Stálin e nascido em território ucraniano, passou a Crimeia do controle administrativo da URSS para o controle da República Socialista Soviética da Ucrânia. Essa situação perdurou até 1991, quando, com a queda do regime comunista em Moscou, a Ucrânia se tornou finalmente uma república independente, mantendo consigo a península da Crimeia.

Mapa mostra Crimeia e Sebastopol

Como um país independente, a Ucrânia se aproximou gradativamente da esfera de influência da União Europeia, mas a Crimeia se manteve como um enclave com identidade própria, fortemente marcado pelo passado soviético e pela identidade russa.

Em março de 2014, após uma onda de protestos que se seguiu a um grande debate nacional na Ucrânia acerca da aproximação com o bloco econômico europeu, os moradores da Crimeia realizaram um plebiscito no qual 97% dos 2 milhões de habitantes da península decidiram voltar a fazer parte da Rússia (ex-URSS).

O resultado foi celebrado na Rússia como um espólio da Guerra Fria, mas nunca foi reconhecido pela Europa e pelos EUA – e, muito menos, pela própria Ucrânia –, que questionaram tanto a credibilidade do plebiscito em si quanto a legalidade da iniciativa.

Antes do futebol, a Coca-Cola

O episódio envolvendo o desenho do mapa da Ucrânia no uniforme da seleção de futebol faz lembrar outra situação semelhante, ocorrida nas festas de fim de ano, na passagem de 2015 para 2016, envolvendo a Coca-Cola.

Naquele ano, a empresa publicou um cartão de Feliz Natal nas redes sociais que trazia neve, árvores de natal e um mapa da Ucrânia que incluía a Crimeia. A publicação foi feita na rede Vkontakte, que é mais popular do que o Facebook na Rússia.

A publicação foi seguida de uma grande campanha de boicote ao consumo de produtos da Coca-Cola em território russo, o que levou a empresa a publicar uma resposta: “Nós, como empresa, não tomamos posições políticas alheias ao nosso negócio.”

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