Como a alta da inflação pode afetar a recuperação econômica

Preços sobem 0,83% em maio, maior aumento para o mês desde 1996. O ‘Nexo’ conversou com economistas sobre os impactos da aceleração inflacionária na retomada da atividade em 2021

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A inflação subiu 0,83% em maio de 2021, conforme divulgado pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) na quarta-feira (9). É a maior alta do IPCA – o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo, principal índice de inflação no Brasil – para o mês de maio desde 1996.

A inflação acumulada em doze meses também cresceu. Os preços subiram 8,06% de junho de 2020 a maio de 2021, acima do teto da meta do Banco Central. A alta inflacionária acontece em um contexto de retomada da atividade econômica – que avançou além do esperado no primeiro trimestre – e de desemprego em níveis recordes.

ACUMULADO EM 12 MESES

Trajetória de inflação e metas no Brasil. Bem acima do teto em 2021

Neste texto, o Nexo mostra o perfil da aceleração inflacionária em 2021 e traz a análise de economistas sobre como a alta de preços pode impactar a retomada da economia no restante do ano.

Por que a inflação acelerou

Em maio, o principal fator de pressão sobre o IPCA foi a alta da energia elétrica. Por causa da crise hídrica enfrentada pelo Brasil, a Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica) acionou a bandeira vermelha patamar 1 no mês, trazendo um acréscimo no preço da energia.

A expectativa é que a inflação de junho também seja impactada pela conta de luz. Nesse mês, a Aneel decretou bandeira vermelha patamar 2, o que vai gerar um acréscimo ainda maior no preço da energia do que o registrado em maio.

Na ótica da inflação acumulada em doze meses, outros produtos com forte impacto no nível de preços são os combustíveis – gasolina, etanol e óleo diesel – e outros derivados do petróleo, como o gás encanado e o gás de cozinha. O barril de petróleo está em alta no mercado internacional, o que ajuda a pressionar o preço desses produtos no Brasil.

Ao mesmo tempo, há ainda um efeito da inflação de alimentos. Produtos como carne, óleo de soja e arroz acumularam aumentos consideráveis entre junho de 2020 e maio de 2021. Esse movimento está ligado ao câmbio alto e ao boom internacional de commodities, que é incentivado pela recuperação de economias como China e EUA.

A inflação no contexto de retomada sob análise

O Nexo conversou com economistas para entender como a inflação pode impactar a retomada da economia em 2021. São eles:

  • Rafael Ribeiro, professor de economia do Cedeplar-UFMG (Centro de Desenvolvimento e Planejamento Regional da Universidade Federal de Minas Gerais)
  • Marcelo Kfoury, professor de economia da FGV-EESP (Escola de Economia de São Paulo da Fundação Getulio Vargas)

A inflação pode atrapalhar a recuperação da atividade econômica no restante de 2021?

Rafael Ribeiro A inflação afeta o poder de compra da população – principalmente a de mais baixa renda, a população assalariada que tem um rendimento que é fixo e que não tem possibilidade de realizar investimentos financeiros e diversificar o portfólio. Isso significa que se a inflação continuar subindo – ainda mais em níveis galopantes, como tem acontecido nesse período mais recente – reduz a renda disponível e o poder de compra das pessoas. A principal consequência disso é que há uma expectativa de redução do consumo.

A inflação alta também pode ter outros impactos como, por exemplo, o de elevar a expectativa de inflação dos agentes e gerar dificuldades para o Banco Central gerir a política monetária. Se houver uma elevação da expectativa de inflação futura, isso pode exigir que o Banco Central tenha uma atuação um pouco mais firme na política monetária – ou seja, pode exigir uma elevação maior da taxa de juros. Isso pode ter um impacto de restrição de crédito e de tomada de empréstimo para investimentos, o que pode, por sua vez, também pode atrapalhar a retomada do crescimento.

A origem da inflação também tem implicações sobre o padrão de consumo da população e sobre o tipo de retomada que vamos ter. A alta da inflação vem acontecendo via aumento tarifário da energia, e isso tem um impacto grande sobre a retomada. A energia é um insumo básico, então o aumento da tarifa afeta todo mundo. E esse aumento vai ser repassado para uma série de setores: restaurantes, salões de beleza etc. É um repasse que dificilmente vai retroceder depois, porque esses setores já estão com a margem muito comprimida. Então, mesmo que a gente saia das bandeiras mais altas, dificilmente os preços da economia vão voltar. Há um encarecimento geral de serviços básicos, o que, proporcionalmente, prejudica mais as classes mais baixas – o que tende a aumentar ainda mais o fosso entre trabalhadores mais qualificados e menos qualificados, e população com renda e pessoas mais pobres desempregadas.

Marcelo Kfoury A inflação está muito concentrada em aspectos de difícil controle [para o Banco Central], que são preços administrados e preços de alimentos, que estão sendo afetados pelo boom de commodities no exterior. Não está com cara que os preços de commodities vão arrefecer tão rapidamente. A parte da inflação que tem mais a ver com a parte doméstica está mais tranquila, que é a inflação de serviços. Ainda assim, pode haver alguma contaminação no médio prazo se a inflação sair de controle no curto prazo.

É preciso ser vigilante quanto a esse choque. Mas não acho que se o Banco Central tiver que subir um pouco mais os juros neste ano haverá um impacto tão forte sobre a recuperação. Porque parte desses aumentos já foram assimilados pelo mercado, que já opera com os juros mais altos.

Além disso, a inflação pode ter um componente inercial, em que ela vai se perpetuando por si só. Essa é a preocupação da autoridade monetária. Se, por exemplo, o IGP-M [índice usado normalmente para corrigir aluguéis] aumenta por causa das commodities, isso passa para o preço do aluguel e para as mensalidades escolares. E os trabalhadores também passam a pedir maiores reajustes. Então há esse risco de ter uma dinâmica pior da inflação por causa de uma perpetuação do choque.

Quais os efeitos de ter, ao mesmo tempo, inflação e um mercado de trabalho fragilizado?

Rafael Ribeiro Com a pandemia, houve uma reestruturação da atividade produtiva, que, por sua vez, prejudicou menos os trabalhadores que são mais qualificados, que têm a possibilidade de trabalhar de forma remota – é uma parcela muito pequena da população e da força de trabalho. E os trabalhadores menos qualificados, que estão empregados em setores mais intensivos de mão de obra – restaurantes, salões de beleza, lojas de roupas – dependem mais de atividades presenciais, que ficaram comprometidas e com grau de incerteza muito grande em função da pandemia.

Essa reestruturação produtiva setorial da economia acaba tendo um reflexo direto sobre a mão de obra menos qualificada. A retomada acaba sendo desigual: acaba se ampliando a desigualdade de renda e a desigualdade no mercado de trabalho.

A inflação entra nessa dinâmica porque normalmente a parcela de trabalhadores menos qualificados acaba sofrendo mais com a alta dos preços – a inflação corrói a renda deles. E eles não têm a possibilidade de aumento salarial neste momento – o poder de barganha dessas classes diminui muito com o desemprego alto, o que significa que eles não conseguem recompor a massa salarial. Quando eles conseguem ganhar aumentos salariais, dificilmente serão acima da inflação. Os trabalhadores menos qualificados acabam perdendo renda disponível e poder de compra, e, por sua vez, consumo. E com isso, há a retomada desigual da economia, com queda do consumo dos produtos que compõem a cesta de consumo das classes mais baixas.

Marcelo Kfoury Isso é complicado. É a realidade que estamos vivendo, não tem como fazer milagre. O setor de serviços, que é o que mais emprega – especialmente no mercado formal –, não consegue funcionar normalmente na pandemia. Os serviços ainda estão muito atrás [dos outros setores], e há uma dificuldade de entender quando vai haver a normalização.

Não é agradável ter uma inflação alta, principalmente puxada por alimentos. Isso vai tirar poder de compra da população, num momento em que é difícil exigir que haja aumento de salários, porque o desemprego está alto. É o drama que estamos vivendo na pandemia, e que está demorando muito a acabar. A melhor solução seria acelerar a vacinação e deixar para trás a pandemia.

Mas a economia está vindo forte, e alguma hora é bem provável que haja uma recuperação do mercado de trabalho também. Acho que com a vacinação e a pandemia ficando mais tranquila, deve haver uma melhora do mercado de trabalho também.

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