O que Obrador ganhou e perdeu na megaeleição no México

Disputa para o Congresso e para governos estaduais foi a maior realizada na história do país. Pleito era visto como referendo ao presidente

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O presidente do México, Andrés Manuel López Obrador, teve uma vitória apenas relativa na eleição deste domingo (6). Seu setor político manteve a maioria dos 500 assentos na Câmara dos Deputados, mas não chegou aos dois terços (334) exigidos para aprovar mudanças constitucionais.

AMLO, como o presidente mexicano é conhecido, assumiu o poder em dezembro de 2018, para um mandato de seis anos. Ele é descrito por analistas políticos ouvidos pelo Nexo como autoritário, conservador, religioso e avesso à pluralidade, ao mesmo tempo em que demonstra vocação social e acredita no papel do Estado para reduzir as desigualdades. Seu índice de aprovação em 1º de junho era de 62%.

Na “megaeleição” deste domingo (6), 21 mil cargos estavam em disputa, em todos os níveis – nacional, regional e municipal. Dada a amplitude e o momento político, o pleito foi visto como uma espécie de referendo de meio de mandato.

Vitória apenas parcial

Se o setor ligado a AMLO obtivesse uma vitória contundente, abriria caminho para aprofundar uma série de mudanças estruturais na segunda metade do mandato, como por exemplo a retomada do controle estatal sobre o setor de energia. Se, ao contrário, o presidente sofresse uma derrota contundente, veria seu poder desidratado antes do fim do mandato.

Com o resultado do pleito, o governo manteve a maioria na Câmara, mas perdeu a supermaioria de dois terços que possuía até então.

Esse resultado no Legislativo nacional permite que o presidente aprove medidas ordinárias e tenha relativa liberdade sobre o orçamento, mas restringe a pretensão manifesta de alterar as estruturas do Estado, no que AMLO vinha chamando de “quarta transformação", sendo cada uma dessas transformações ligada a uma reforma constitucional ocorrida no país – em 1824, 1857, 1917 e, agora, em 2021, o que acabou frustrado.

Outro termômetro foram as eleições para os governos estaduais. Neste quesito, o setor governista assegurou quase metade dos governos dos Estados em todo o país. Porém, essas escolhas estão mais atreladas a dinâmicas regionais de poder, e menos à opinião dos eleitores sobre AMLO em si, como presidente.

Na avaliação da Celag (Centro Estratégico Latinoamericano de Geopolítica), centro de estudos fundado em 2014 para produzir análises de conjuntura regional, o resultado “mostra uma aprovação geral das urnas” ao atual governo, embora insuficiente para impulsionar reformas profundas.

O saldo no Legislativo

Todos os 500 assentos da Câmara dos Deputados estavam em jogo. Não houve eleição para os 128 assentos do Senado, onde o governo já detém maioria. O México, assim como o Brasil, tem um Congresso bicameral, no qual os deputados representam os cidadãos na Câmara e os senadores representam os estados no Senado.

Os governistas formaram uma coalizão de três partidos: o Morena (Movimento de Regeneração Nacional), que é o partido de AMLO, o PVEM (Partido Verde Ecologista do México) e o PT (Partido do Trabalho). A trinca deve ficar com entre 265 e 298 assentos do total de 500. A indefinição se deve ao fato de que a apuração não estava concluída até o início da tarde desta terça-feira (8), especialmente em relação aos 200 assentos que são calculados por representação proporcional.

Quem mais cresceu no bloco governista foram os Verdes, que passaram de 11 para 44 assentos. O Morena, de AMLO, perdeu ao redor de 50 cadeiras. O PT, terceira perna do grupo, também perdeu representantes. No conjunto, entretanto, o bloco ainda mantém maioria na Casa.

A oposição esteve reunida numa coligação de centro-direita chamada Vá Pelo México, composta pelos dois partidos que responderam por décadas de bipartidarismo no país, o PRI (Partido Revolucionário Institucional) e o PAN (Partido de Ação Nacional), além do PRD (Partido da Revolução Democrática). Todos esses três partidos tiveram crescimento na Câmara.

O saldo regional

O maior avanço do setor governista foi nos governos estaduais. O Morena, de AMLO, passará a governar entre 11 e 15 estados dentre os mais importantes, contra os 9 que detinha anteriormente. Em todo o país, o partido do presidente controla quase metade dos 32 estados existentes no México.

A estratégica Cidade do México, que é a capital federal, estava com 16 “alcaldías” em jogo, nome dado às prefeituras locais. Destas, seis devem ficar com os governistas (do lado leste) e nove com os opositores (do lado oeste). A região é estratégica pela alta densidade populacional, pelo peso econômico e pela estatura simbólica, que se reflete nas disputas nacionais.

Uma das eleitas no Distrito Federal foi Claudia Sheinbaum, correligionária de AMLO no Morena, que é vista como nome forte para a sucessão governista nas eleições presidenciais de 2024. Ela foi uma das mulheres eleitas em nível regional, num momento histórico no país – dos 15 cargos regionais em disputa, cinco ou seis devem ficar com governadoras mulheres. Antes, eram apenas duas.

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