O estudo que mediu o que irrita mais: mentira ou hipocrisia

Pesquisa de 2017 comparou reações a quem falta com a verdade e a quem age em desacordo ao próprio discurso

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    Pesquisadores da Universidade de Yale, nos Estados Unidos, realizaram um estudo em 2017 para entender por que a hipocrisia incomoda tanto, mesmo em casos onde a suposta atitude hipócrita não oferece nenhum tipo de risco real a terceiros. O resultado do estudo, inclusive, mostrou que a hipocrisia incomoda mais que a mentira.

    619

    é o número de pessoas que participaram voluntariamente do estudo

    Os voluntários foram submetidos a cinco experimentos, que traziam histórias fictícias que envolviam alguma transgressão moral ou comportamento antiético.

    “Becky diz que acredita que baixar músicas ilegalmente é moralmente errado. Logo depois da conversa, Becky entra na internet e baixa músicas ilegalmente”

    exemplo de situação hipotética usada no estudo para ilustrar hipocrisia

    “Becky diz que não baixa músicas ilegalmente na internet. Logo depois da conversa, Becky entra na internet e baixa músicas ilegalmente”

    exemplo de situação hipotética usada no estudo para ilustrar mentira

    Após terem contato com a situação hipotética, os voluntários precisavam responder questões como “Becky é confiável?”; “Você gosta de Becky?”, “Becky fez algo errado?”, “Becky merece ser perdoada?”, etc.

    A análise das respostas dos questionários apontaram que os hipócritas são vistos como menos confiáveis e menos agradáveis do que pessoas que mentem indiscriminadamente.

    68%

    é o percentual de voluntários que condenou veementemente personagens apresentados como hipócritas

    64%

    é o percentual de voluntários que condenou veementemente personagens apresentados como mentirosos

    De acordo com o estudo, a condenação mais ampla de hipócritas se dá porque a condenação verbal prévia de um comportamento é interpretada pelo cérebro como uma virtude moral, e quando o indivíduo é pego se engajando nesse comportamento, o sentimento de traição é maior do que aquele presente na descoberta de uma mentira evidente.

    “As pessoas não gostam de hipócritas porque eles condenam certos comportamentos para ganhar benefícios em suas próprias reputações, benefícios que, na verdade, não são merecidos”, afirmou ao site Science Daily a psicóloga Jillian Jordan, uma das autoras do estudo.

    Os mecanismos por trás do sentimento de traição ser maior com hipócritas do que com mentirosos ainda não foram esclarecidos, e fazem parte de um “quebra-cabeça psicológico”, de acordo com Jordan.

    Um outro achado do experimento é que as pessoas são mais inclinadas a perdoar – com certa facilidade – os chamados “hipócritas honestos”, aqueles que assumem a própria contradição.

    53%

    é o percentual de voluntários que afirmou que perdoaria um “hipócrita honesto” sem problemas

    Para Jordan, é mais um indício de que todo o problema em torno da hipocrisia gira em torno da sinalização de virtudes.

    “A capacidade das pessoas em perdoar os ‘hipócritas honestos’ nos chamou a atenção. Eles são vistos da exata mesma forma que pessoas que cometeram os mesmos deslizes, mas ficaram quietas e não julgaram outras pessoas que fizeram o mesmo. Isso sugere que toda nossa ojeriza por hipócritas pode ser atribuída ao fato de que eles sinalizam falsamente a própria virtude”

    Jillian Jordan

    Psicóloga, em entrevista ao site Science Daily

    Uma breve história da hipocrisia

    Contradições fazem parte da natureza humana, e sempre estiveram presentes. A palavra hipocrisia vem do grego – hypokrinesthai – e significa “interpretar” ou “atuar”, sendo usada originalmente como um termo relacionado ao teatro.

    Por volta do ano 340 a.C., a Grécia vivia debates acalorados entre dois dos maiores oradores e políticos da época: Demóstenes e Ésquines.

    Demóstenes afirmava que Ésquines não era uma pessoa confiável, por seu passado como um bem-sucedido ator de teatro. Como ele era capaz de simular determinadas emoções com facilidade, a população de Atenas não deveria confiar em suas falas e promessas.

    A partir desse momento – e também com a posterior expansão de Roma, que tinha um notório desdém em relação a atores – a palavra hypokrinesthai virou hypokritēs e deixou de ser um termo relacionado ao teatro e passou a ser empregada em um tom pejorativo, para designar pessoas falsas ou pouco confiáveis.

    Apesar das origens antigas, a presença ampla do tema no debate público é relativamente recente, tendo início no século 18.

    No século 18, a Inglaterra era a maior potência do mundo, sendo descrita como “o império onde o sol nunca se põe”, uma referência ao número de colônias inglesas espalhadas pelo mundo, o que garantia que a luz solar estivesse sempre presente em algum ponto do império.

    À época, a Igreja Anglicana já estava estabelecida como a principal religião do território inglês, e não havia separação entre Igreja e Estado. Por isso, não-conformistas, membros de outras religiões – como o Cristianismo Batista – eram privados de alguns direitos, como, por exemplo, ocupar cargos públicos.

    As medidas eram burladas com indivíduos de outras congregações indo até uma igreja Anglicana e recebendo a comunhão lá pelo menos uma vez por ano.

    Tentando frear esse tipo de atitude, o parlamento inglês aprovou, em dezembro de 1711, uma lei que estabelecia uma multa de 40 libras (cerca de 7.780 libras atualmente) para pessoas que fossem pegas tentando enganar o sistema.

    Para ter apoio popular, sacerdotes anglicanos passaram a criticar os não-conformistas em seus sermões, colocando-os como hipócritas que precisavam ser condenados. A partir de então, a hipocrisia se tornou um tema recorrente e constante em debates públicos e na disputa política.

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