Por que o Amazonas vive uma onda de violência

Ministério da Justiça atende ao governador Wilson Lima e confirma reforço da Força Nacional no estado após ataques do narcotráfico

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Em meio a uma onda de ataques e depredações contra veículos e edifícios em Manaus e outras cidades, o ministro da Justiça, Anderson Torres, anunciou na noite de segunda-feira (7) que irá enviar mais tropas da Força Nacional para o Amazonas, como solicitado pelo governador Wilson Lima (PSC).

A crise ocorre após a morte de um suposto traficante e num momento em que outras tropas da Força Nacional já trabalham no Amazonas, a fim de reprimir o desmatamento e o narcotráfico na região. Na esfera política, o governador, denunciado à Justiça e convocado para depor na CPI da Covid na quinta-feira (10), foi recentemente alvo de operação da Polícia Federal, por novas suspeitas de desvios na pandemia.

O Nexo relata abaixo a crise atual de segurança pública em Manaus e em outras cidades, explica como o Amazonas se insere no contexto do narcotráfico internacional e mostra outras operações da Força Nacional em curso na região.

A crise na região metropolitana

Desde a madrugada de sábado para domingo (6), diversos ataques já aconteceram em Manaus e em cidades do interior. Entre os alvos, uma Unidade Básica de Saúde e um prédio onde funcionava um escritório da Prefeitura, que tentaram incendiar, e os prédios do Sinetram (Sindicato das Empresas de Transporte de Passageiros do Estado do Amazonas) e de uma delegacia de polícia, que foram alvejados.

Também foram incendiados ao menos 29 veículos, incluindo ônibus, viaturas policiais e uma ambulância, e sete agências bancárias foram depredadas.

Segundo a secretaria estadual de Segurança Pública, os ataques foram ordenados de dentro de um presídio da capital e são uma represália à morte de um suposto traficante da facção Comando Vermelho, ocorrida no sábado (5).

Não há registro de feridos. Mas o transporte coletivo de ônibus foi suspenso no domingo e na segunda-feira. As aulas presenciais nas escolas das redes pública e privada, assim como o funcionamento de diversos órgãos da administração estadual, também só puderam ocorrer remotamente. A campanha de vacinação contra a covid-19 teve de parar na manhã desta segunda-feira.

O nosso efetivo é pequeno para o volume de ações. A tropa vai ter uma hora que não vai ter como tocar capital e interior. Foi sugerido, e o governador acatou a decisão de pedir apoio da Força Nacional, disse o coronel Louismar Bonates Bonates, secretário de Segurança Pública do Amazonas, nesta segunda-feira (7).

Desde domingo (6), pelo menos 31 pessoas foram presas, suspeitas de envolvimento nos atos.

O narcotráfico na rota amazônica

Localizado entre Peru, Colômbia e Bolívia e o estado do Pará, que tem grande capacidade distributiva, o Amazonas se tornou parte da rota das drogas andinas. Por vias terrestre, aérea e fluvial, cocaína e maconha vindos do exterior são distribuídos sobretudo do Pará aos demais estados brasileiros, à Guiana e ao Suriname e também à Europa.

É nesse contexto que diferentes facções criminosas, como o PCC (Primeiro Comando da Capital), o Comando Vermelho e a FDN (Família do Norte) disputam o controle na região.

Em maio, comunidades indígenas do Amazonas e de Roraima, já alvo de garimpeiros, sofreram ataques armados por dias. O Ministério Público Federal e a Polícia Federal investigam se facções criminosas de São Paulo e da Venezuela estão envolvidas nos episódios. Os próprios garimpeiros já denunciaram terem sido alvo de um assalto com uso de lanchas e helicóptero a quilos de ouro que retiraram ilegalmente.

Ao Nexo, Rafael Alcadipani, professor da FGV-SP (Fundação Getulio Vargas de São Paulo) e associado do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, explicou que as disputas entre facções na região se intensificaram “desde que o PCC passou a controlar a fronteira do Paraguai com o Brasil, cinco, seis anos atrás”.

“As facções passaram a se preocupar em dominar outras rotas, promovendo inclusive uma migração de dinâmicas características do crime organizado de outros estados”, disse Alcadipani. Em Manaus, por exemplo, traficantes da facção criminosa FDN se apropriaram de um conjunto habitacional erguido por meio do programa Minha Casa Minha Vida, como fazem facções e grupos milicianos no Rio de Janeiro.

As operações da Força Nacional

Criada em 2004 e formada por policiais militares, policiais civis e bombeiros de diferentes estados, a Força Nacional de Segurança Pública pode ser solicitada ao Ministério da Justiça, entre outras hipóteses, por governadores, para atuar numa cooperação com o governo estadual em casos de perturbação da ordem pública e de risco à segurança da população e de seu patrimônio.

Na Amazônia, a Força Nacional atua no combate a crimes ambientais desde 2018 e, de lá para cá, o governo vem fazendo as prorrogações para manter o efetivo na região.

No estado do Amazonas atualmente, o emprego dessas tropas está autorizado para pelo menos três eixos, incluindo não apenas ações de proteção à floresta, mas também de repressão ao narcotráfico:

  • Operação fluvial: o Ministério da Justiça autorizou no início de abril a prorrogação do emprego da Força Nacional na Operação Arpão I, na calha dos rios Negro e Solimões, até pelo menos agosto de 2021. A operação é voltada ao combate contra o crime organizado, o narcotráfico e os crimes ambientais.
  • Unidades de Conservação: em meados de abril, o ministério também autorizou a permanência da Força Nacional em apoio ao ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade), nas ações de proteção ambiental no interior das Unidades de Conservação Federais da Amazônia até outubro de 2021. O objetivo é o combate ao desmatamento, à extração ilegal de minério e madeira e à invasão de áreas federais.
  • Amazônia Legal: no final de abril, o ministério autorizou o emprego da Força Nacional em apoio ao Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente), na Amazônia Legal (área que engloba nove estados brasileiros). As ações têm como foco a fiscalização e a repressão ao desmatamento ilegal e a crimes ambientais, assim como o combate a incêndios florestais e queimadas.

Para Alcadipani, as ações contra o narcotráfico exigem uma articulação entre as polícias estaduais, o Ministério Público, a Justiça e países vizinhos. “Chamar a Força Nacional é uma panaceia, mas seu efetivo é pequeno, não resolve o problema”, disse ele ao Nexo. “Além disso, no Norte, não dá para se pensar a articulação de combate ao crime organizado sem incluir o controle das fronteiras, responsabilidade das Forças Armadas.”

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