Corrupção e assédio: a saída turbulenta de presidentes da CBF

Rogério Caboclo é afastado por 30 dias pela Comissão de Ética da entidade, acusado de assédio sexual e moral. Antecessores foram banidos do futebol pela Fifa. Jogadores decidem abandonar ideia de boicote à Copa América

    Rogério Caboclo, presidente da CBF (Confederação Brasileira de Futebol), foi afastado do cargo no domingo (6). A princípio, a decisão é válida por 30 dias, mas deve ser tornada permanente.

    A suspensão foi definida pela Comissão de Ética da entidade após denúncia de assédio sexual e moral apresentada por uma funcionária da CBF. Gravações que embasaram a acusação foram reveladas pelo site Globoesporte.com.

    O afastamento de Caboclo ocorre em meio a uma grande crise na CBF, deflagrada com a decisão de sediar a Copa América no Brasil (13 de junho a 10 de julho) mesmo frente ao descontrole da pandemia e às recomendações contrárias de especialistas sanitários.

    A decisão de receber o torneio foi apoiada pelo presidente Jair Bolsonaro – que foi consultado por Caboclo –, mas recebida com resistência pela comissão técnica e pelos jogadores da seleção. Houve conversas sobre um possível boicote dos jogadores à Copa América, mas nesta segunda-feira (7) a possibilidade foi descartada.

    Segundo o jornalista André Rizek, do SporTV, Caboclo chegou a prometer a Bolsonaro que demitiria Tite, técnico da seleção, para colocar Renato Gaúcho – amigo pessoal do presidente – no comando da equipe. A queda do dirigente deve esfriar a crise e garantir a permanência de Tite.

    Caboclo é o quarto comandante da CBF a deixar o cargo de forma turbulenta desde 2012. Neste texto, o Nexo relembra o destino dos três antecessores e mostra quem é o Coronel Nunes, que assume interinamente a organização.

    Ricardo Teixeira

    Ricardo Teixeira foi presidente da CBF por cinco mandatos consecutivos, de 1989 a 2012. O motivo oficial de sua renúncia foram problemas de saúde, mas por trás da saída estavam diversas acusações e investigações em vários países.

    O rol de acusações contra Teixeira é extenso. Ele tem mandados de prisão por fraude, lavagem de dinheiro e corrupção, expedidos pelos EUA no âmbito do “caso Fifa” – no qual a justiça americana investiga compra de votos e contratos fraudulentos na entidade que gere o futebol mundial.

    Teixeira teria recebido dinheiro para beneficiar a Nike em acordo de patrocínio fechado com a seleção brasileira em 1996, além de receber subornos em contratos de campeonatos internacionais.

    Em julho de 2017, passou a ter pedido de prisão também na Espanha, onde é acusado de se juntar ao ex-presidente do Barcelona Sandro Rosell e receber comissões ilícitas para realizar amistosos com a seleção brasileira.

    Teixeira mora no Brasil e não pode fazer viagens a países que tenham acordo de extradição com EUA e Espanha. Ele também é alvo de investigações em Andorra e na Suíça.

    Em novembro de 2019, Teixeira foi banido para sempre do futebol pela Fifa. O comitê de ética da entidade o considerou culpado de receber suborno e impôs uma multa de 1 milhão de francos suíços (R$ 4,2 milhões à época). O ex-dirigente nega todas as acusações.

    José Maria Marin

    José Maria Marin era um dos vice-presidentes da CBF quando Teixeira renunciou, em 2012. Ficou apenas três anos no cargo até que, em maio de 2015, foi preso em Zurique, na Suíça, com outros dirigentes da FIFA.

    Em 2017, Marin foi condenado pela Justiça dos EUA em seis de sete acusações que enfrentava: três por fraude financeira envolvendo a contratos de marketing esportivo da Copa América, da Libertadores e da Copa do Brasil; duas vezes por lavagem de dinheiro em contratos ligados à Copa América e Libertadores; e uma por formação de organização criminosa.

    Todos os crimes ocorreram no período entre 2012 e 2015, durante o qual esteve à frente da CBF. Em agosto de 2018, ele recebeu pena de quatro anos, além de ter de pagar multa de US$ 1,2 milhão (R$ 4,9 milhões à época). Marin também teve outros US$ 3,35 milhões (R$ 13,6 milhões à época) confiscados.

    Marin ficou em prisão domiciliar nos EUA até o final de 2017, sem poder deixar o país. Quando foi condenado, foi transferido para a prisão. Em março de 2020, o ex-presidente da CBF teve pena reduzida e foi libertado sob justificativa de problemas de saúde e preocupações com a pandemia do novo coronavírus.

    Livre, ele retornou ao Brasil. Em 2019, a Fifa baniu Marin de forma permanente de qualquer atividade ligada ao futebol, tendo sido considerado culpado de corrupção. Assim como Teixeira, ele também foi multado em 1 milhão de francos suíços (R$ 3,8 milhões em abril de 2019). Marin, que se declarou inocente à Justiça dos EUA em 2015, nega as acusações.

    Marco Polo de Nero

    O sucessor de Marin foi Marco Polo Del Nero, que assumiu a CBF em abril de 2015. Del Nero é acusado pela Justiça dos EUA pelos mesmos crimes que Marin: por corrupção em contratos comerciais na organização de torneios de futebol.

    Ele estava com Marin na Suíça no momento de sua prisão, mas não foi preso porque só foi indiciado no final de 2015, quando já estava no Brasil, à frente da CBF. Del Nero nega todas as acusações.

    Del Nero ficou no comando da CBF até o final de 2017, quando foi suspenso temporariamente do futebol pela Fifa. Em abril de 2018, ele foi banido para sempre do futebol, por diversas violações do código de ética da entidade global – incluindo suborno e corrupção. Também foi aplicada uma multa de 1 milhão de francos suíços.

    Apesar das acusações, Del Nero conseguiu emplacar um aliado no comando da CBF. Após um período de presidência interina de Antônio Carlos Nunes – o Coronel Nunes –, Rogério Caboclo assumiu a entidade em abril de 2019. Segundo o jornalista Martín Fernandez, do jornal O Globo, Del Nero manteve forte influência na CBF na gestão de Caboclo, mesmo banido do futebol.

    Quem é o Coronel Nunes

    Antônio Carlos Nunes, o Coronel Nunes, assumiu a CBF pela terceira vez após o afastamento de Caboclo no domingo (6). Em 2016, foi interino por cinco meses, durante um período de licença de Del Nero para lidar com as acusações de corrupção. Entre 2017 e 2019, terminou o mandato de Del Nero, antes de Caboclo assumir. Ele é conhecido por ser um aliado fiel de Del Nero.

    O agora presidente da CBF é coronel da reserva da Polícia Militar do Pará – estado no qual presidiu a federação local de futebol por quase duas décadas. Nunes, que foi prefeito biônico de Monte Alegre (PA) durante a ditadura militar, virou vice-presidente da CBF em 2015, após uma manobra de Del Nero para evitar que durante sua licença a presidência fosse ocupada pelo adversário político Delfim Peixoto, da federação catarinense.

    Os períodos de gestão do Coronel Nunes à frente da CBF foram marcados por gafes sucessivas. A principal delas aconteceu durante a Copa do Mundo de 2018, na Rússia.

    Na votação para escolher a sede da Copa de 2026, Nunes votou no Marrocos, desrespeitando o acordo dos membros da Conmebol – entidade do futebol sul americano – para votar em bloco na candidatura de EUA, México e Canadá, que venceu. O coronel deflagrou uma crise diplomática da CBF com a Fifa e a Conmebol, e justificou dizendo que achava que o voto era secreto, quando era, na realidade, aberto.

    A sucessão na CBF

    O Coronel Nunes não irá terminar o mandato de Rogério Caboclo, que vai até abril de 2023. Ele permanecerá no cargo, a princípio, por 30 dias, período durante o qual deve organizar novas eleições na entidade.

    Podem ser eleitos para o comando da CBF somente os oito vice-presidentes da confederação – incluindo o próprio Coronel Nunes. Segundo relatos de bastidores divulgados na imprensa, o favorito no primeiro momento é Castellar Guimarães, ex-presidente da Federação Mineira de Futebol.

    Os eleitores no pleito da CBF são as 27 federações estaduais de futebol, os 20 clubes da série A do Campeonato Brasileiro e os 20 clubes da série B. As federações têm peso maior no voto – regra que foi instituída pela CBF em manobra antes da eleição de Caboclo em 2018.

    PARA CONTINUAR LENDO,
    TORNE-SE UM ASSINANTE

    Tenha acesso ilimitado e apoie o jornalismo independente de qualidade

    VOCÊ PODE CANCELAR QUANDO QUISER
    SEM DIFICULDADES

    Já é assinante, entre aqui

    Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project.