Os vídeos que reforçam a existência de um ministério paralelo

Em reunião com Bolsonaro, virologista falou abertamente em estrutura extraoficial para lidar com pandemia. Compra de vacinas foi desestimulada enquanto uso de tratamento sem eficácia foi encorajado

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Em setembro de 2020, o presidente Jair Bolsonaro se reuniu em uma sala fechada do Palácio do Planalto com biólogos, médicos e políticos. Sem máscara, o grupo discutiu formas de lidar com a pandemia. O ministro da Saúde da época, general Eduardo Pazuello, não estava presente. Ali, a necessidade de compra de vacinas foi minimizada. A aposta era no inexistente tratamento precoce, um combo de medicamentos que não funcionam contra a covid-19.

As imagens foram reveladas pelo Metrópoles na sexta-feira (4). O mesmo site já havia chamado a atenção no fim de maio para vídeos em que Arthur Weintraub, ex-assessor de Bolsonaro, falava sobre sua atuação como coordenador da estrutura extraoficial. Na quinta-feira (3), o jornal Folha de S.Paulo mostrou trechos de mais um vídeo em que Weintraub detalha o funcionamento do ministério paralelo.

Os vídeos vêm se somar a outras evidências reunidas pela CPI da Covid no Senado que mostram como Bolsonaro buscava orientação de um grupo de fora do Ministério da Saúde para tomar decisões que iam na contramão da ciência e das indicações de autoridades internacionais. A comissão investiga ações e omissões do governo na pandemia que já matou mais de 470 mil pessoas no Brasil.

Após ter acesso aos vídeos, o senador Omar Aziz (PSD-AM), presidente da CPI, afirmou ao jornal O Estado de S. Paulo que “não se trata mais de falar que supostamente existe algo [ministério paralelo]. Está comprovado”.

O vice-presidente da CPI, Randolfe Rodrigues (Rede-AP), apresentou ainda na sexta-feira (4) um requerimento de convocação do deputado federal Osmar Terra (MDB-RS) e do biólogo Paolo Zanotto, ambos presentes na reunião de setembro de 2020 realizada no Palácio do Planalto.

A criação do ‘gabinete paralelo’

Na reunião de setembro de 2020 no Palácio do Planalto, Bolsonaro estava ao lado de Osmar Terra. A médica imunologista Nise Yamaguchi, defensora da cloroquina que já prestou depoimento à CPI, também estava lá e discursou. Uma das falas que mais chamaram atenção, porém, foi a do biólogo virologista Paolo Zanoto.

Zanoto se dirige ao presidente e se refere a si mesmo e aos outros que estão presentes como “uma tropa de leões”. Em seguida, afirma que “talvez não tenha que ter vacina” no Brasil: “a gente não tem condições, nesse momento, de dizer que a gente tem qualquer vacina, que poderia estar, realisticamente no que eles chamam de fase 3 [terceira fase de testes clínicos, ao fim da qual um imunizante pode ser considerado seguro e eficaz]”.

Em depoimento à CPI da Covid, Carlos Murillo, ex-presidente da Pfizer Brasil e atual gerente-geral da Pfizer na América Latina, mostrou que o governo federal ignorou uma série de ofertas de imunizantes. O primeiro contrato do Brasil com a Pfizer foi assinado apenas em março de 2021. Também à CPI, Dimas Covas, diretor do Instituto Butantan, afirmou que a resistência de Bolsonaro atrasou ainda os contratos para a compra da Coronavac, usada no Brasil a partir de janeiro de 2021.

Zanoto afirma no vídeo que tinha enviado uma sugestão a Arthur Weintraub, uma carta em que dizia que “talvez fosse importante montar um grupo, um ‘shadow board’, como se fosse um ‘shadow cabinet’ [gabinete sombra, ou gabinete paralelo]”. Trata-se de uma referência a uma prática de políticos de países como Reino Unido, que costumam criar estruturas paralelas para acompanhar o governo e desenvolver políticas alternativas. A diferença é que, nesses paises, isso é feito pela oposição.

Osmar Terra, deputado que é médico, mas é negacionista como Bolsonaro, também tem papel central na reunião. Ele é chamado de “assessor” pelo presidente e ambos fazem elogios à cloroquina e à hidroxicloroquina, que não funcionam contra a covid.

Evidências anteriores da existência do grupo

A CPI já reuniu documentos e depoimentos que fortalecem a tese da existência do ministério paralelo. O ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta foi o primeiro a revelar que um grupo de pessoas fora do Ministério da Saúde aconselhava o presidente no combate à covid-19. Mandetta cita o aconselhamento em seu livro, “Um paciente chamado Brasil: Os bastidores da luta contra o coronavírus”, lançado no final de 2020.

Ao depor na CPI da Covid no começo de maio, Mandetta voltou a falar sobre o assunto e os senadores passaram a investigar a existência do grupo. Além disso, Mandetta afirma ter testemunhado diversas vezes reuniões ministeriais em Brasília em que Carlos Bolsonaro, vereador pelo Rio de Janeiro e filho do presidente, estava presente.

O ex-ministro Nelson Teich, que ficou menos de um mês no comando da Saúde, disse desconhecer a existência de um ministério paralelo, mas alguns episódios durante sua gestão indicam que nem todas as decisões passavam pela pasta.

Os depoimentos do ex-chefe da Secom (Secretaria Especial de Comunicação Social) Fabio Wajngarten e do gerente-geral da Pfizer na América Latina também revelaram aos senadores que as decisões sobre as políticas de Saúde eram discutidas sem passar pelos responsáveis pela área no governo federal.

Em seu Twitter, Carlos Bolsonaro zombou da afirmação de que o vídeo da reunião teria vazado, afirmando que Bolsonaro transmitiu ao vivo o encontro em setembro de 2020. O vereador publicou prints do Facebook do pai com fotos da reunião com a legenda “audiência com o movimento Médicos pela Vida”.

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