Quais os interesses financeiros na realização da Copa América

Decisão do governo Bolsonaro de receber torneio da Conmebol em meio à pandemia foi criticada por riscos sanitários. O ‘Nexo’ mostra quanto dinheiro está em jogo em torno da competição de futebol

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O anúncio de que o Brasil vai sediar a Copa América 2021 foi alvo de críticas de especialistas da área da saúde, que alertam para os riscos de realizar o torneio em meio ao cenário de descontrole da pandemia de covid-19 no país. As cidades de Brasília, Cuiabá, Goiânia e Rio de Janeiro aceitaram receber os jogos da competição, que serão realizados sem público. Governadores de ao menos cinco estados se recusaram a sediar o evento, justamente por causa da crise sanitária.

A decisão de realizar a Copa América no Brasil foi tomada em uma reviravolta na segunda-feira (31), após Colômbia e Argentina desistirem do evento – a primeira pelos protestos que acontecem no país, a segunda pela piora da pandemia. A escolha do Brasil como nova sede pela Conmebol – autoridade máxima do futebol sul americano – recebeu aval do presidente Jair Bolsonaro, que, segundo a entidade, “apoiou a iniciativa de imediato”. A opção pelo país ocorreu apesar das preocupações em torno de um novo recrudescimento da pandemia, das recomendações contrárias de especialistas sanitários e dos protestos da oposição realizados no sábado (29).

Além dos aspectos políticos e sanitários, a realização do torneio envolve também cálculos e interesses financeiros diversos. Abaixo, o Nexo mostra quais são.

Os custos da competição

O orçamento de 2021 da Conmebol, publicado em 24 de março, prevê que a entidade invista US$ 122,2 milhões na organização da Copa América. Pela cotação de 2 de junho de 2021, isso equivale a R$ 631 milhões. As previsões de receitas da competição não são detalhadas no documento.

US$ 122,2 milhões

é o custo total previsto pela Conmebol para a Copa América 2021. Isso equivale a R$ 631 milhões em junho de 2021

O balanço da Conmebol não revela quanto a entidade espera arrecadar com a Copa América em 2021, mas traz os números da edição de 2019, também realizada no Brasil. Naquele ano, ainda sem as restrições causadas pela pandemia, a entidade pagou US$ 109 milhões e ganhou US$ 118,2 milhões em virtude do torneio. Ou seja, a competição foi lucrativa em cerca de US$ 9,2 milhões (R$ 47,8 milhões em 2 de junho de 2021).

Em 2021, por causa da pandemia e da ausência das receitas de bilheteria, a possibilidade de repetir o saldo positivo está descartada. De acordo com o site Globoesporte.com, a Conmebol já estimava perdas da ordem de US$ 30 bilhões por realizar o torneio sem público nos estádios e sem a participação de equipes de outros continentes – Austrália e Catar haviam sido convidadas originalmente para a competição, mas desistiram em fevereiro.

Em quem recai a pressão financeira

Ao cenário inevitável de prejuízo, somaram-se as desistências das sedes Colômbia e Argentina. A Conmebol agiu nos bastidores para evitar o cancelamento da competição e não aprofundar ainda mais as perdas financeiras.

Não realizar o torneio significaria romper contratos de televisão e ter de ressarcir patrocinadores do evento. Segundo o site da Conmebol, os patrocinadores da Copa América 2021 são a Mastercard, empresa de cartão de crédito, e a TCL, empresa de eletrônicos.

US$ 10 milhões

é a premiação prevista para a seleção campeã da Copa América. O valor não considerada a cota de participação

As dez associações nacionais sul americanas de futebol – como a CBF (Confederação Brasileira de Futebol) –, que foram unânimes em apoiar o não-cancelamento da competição, também têm dinheiro a perder com um eventual cancelamento. Além da premiação milionária que está em jogo no torneio, cada seleção recebe uma cota mínima de US$ 4 milhões pela participação. De acordo com a coluna do jornalista Marcel Rizzo, do UOL, a Conmebol adiantou US$ 1 milhão para cada associação em 2020. A Conmebol não comunicou se pretende pedir um reembolso às associações caso a competição seja cancelada.

Por que as finanças da Copa América são diferentes dos torneios de clube

De acordo com o jornalista Rodrigo Capelo, do Globoesporte.com, o impacto financeiro de um eventual cancelamento da Copa América não pode ser comparado ao de uma paralisação do futebol de clubes – que segue ativo no Brasil e no resto do mundo, mesmo na pandemia.

Isso porque os clubes são a base de todo o sistema econômico do futebol. Eles pagam jogadores e funcionários e ajudam a empregar milhares de pessoas. Já o ambiente das seleções é diferente. Quem embolsa as receitas de torneios como a Copa América são as associações continentais e nacionais, que distribuem pouco desse dinheiro para os clubes.

Por isso, quem assumiria o prejuízo de uma não-realização da Copa América não seriam os clubes e jogadores, mas sim a Conmebol – que, de acordo com Capelo, tem dinheiro em caixa para absorver o impacto – e as associações nacionais. Do ponto de vista puramente financeiro – sem considerar, portanto, os riscos sanitários –, o cancelamento da Copa América seria muito menos danoso para o ecossistema do futebol como um todo, na comparação com o cancelamento de torneios de clubes que ajudam a irrigar dinheiro no mercado.

Do ponto de vista sanitário, as opiniões de especialistas também vão na direção de recomendar o cancelamento do torneio. Ao Nexo, epidemiologistas argumentaram que a Copa América vai aumentar a circulação de pessoas no país em um momento em que a recomendação é justamente diminuir o movimento. Além disso, a entrada de estrangeiros pode trazer novas cepas do vírus para o Brasil. Mas os especialistas também apontaram que o risco não se limita à Copa América: a realização de nenhum campeonato é recomendada neste momento, seja a Copa América, o Brasileirão, a Copa do Brasil e ou a Libertadores.

A briga dos direitos de televisão

Outro aspecto da discussão financeira sobre a Copa América 2021 aparece no tema das disputas de transmissões na televisão brasileira. Em 18 de maio, o SBT anunciou que vai transmitir a competição no Brasil. Das 28 partidas, 11 irão para a TV aberta, segundo o jornalista Gabriel Vaquer, do UOL. De acordo com o jornalista Rodrigo Mattos, também do UOL, os outros jogos irão para um pacote de pay-per-view montado em parceria pela Conmebol e pelo SBT. Na TV fechada, o torneio irá passar na ESPN e na Fox Sports.

O SBT não transmite a Copa América desde 1989, quando a competição também ocorreu no Brasil. Desde então, o torneio é tradicionalmente transmitido pela Rede Globo. Diante da repercussão ruim por aceitar sediar a Copa América em meio ao descontrole da pandemia, Bolsonaro e seus apoiadores sugeriram que as críticas seriam orquestradas pela Rede Globo – alvo frequente de enfrentamento do presidente.

“Quando dei o sinal verde ouvindo meus ministros, houve uma hecatombe no meio jornalístico, que eu estaria importando uma nova cepa. Será por que na Copa América a transmissão não é da Globo, mas sim do SBT? Parece que é”

Jair Bolsonaro

presidente da República, em 1° de junho de 2021

O SBT é propriedade de Silvio Santos, empresário que tem boa relação com Bolsonaro. Em junho de 2020, o presidente recriou o Ministério das Comunicações, colocando no comando da pasta o genro de Silvio Santos, o deputado Fábio Faria (PSD-RN).

Segundo o jornalista Rodrigo Mattos, o acordo entre SBT e Conmebol para transmitir a Copa América será de no mínimo US$ 6 milhões (R$ 31 milhões), com o valor podendo aumentar a depender da adesão do público ao pacote de pay-per-view. Duas empresas já fecharam contratos de patrocínio com a emissora para os jogos da Copa América: a rede social chinesa Kwai (concorrente do TikTok) e o site de apostas Betfair. Segundo a revista Veja, os valores são de entre R$ 12 milhões e R$ 15 milhões para cada contrato.

O Brasil como sede de grandes eventos esportivos

A Copa América 2021 será o quinto grande evento esportivo recebido pelo Brasil desde 2013. Os anteriores foram:

  • Copa das Confederações de 2013
  • Copa do Mundo de 2014
  • Jogos Olímpicos e Paralímpicos do Rio de 2016
  • Copa América de 2019

O Brasil chegou a tentar sediar a Copa do Mundo de futebol feminino de 2023, mas desistiu da candidatura. A competição será realizada na Austrália e na Nova Zelândia.

Ao contrário dos outros eventos desde 2013, a escolha do Brasil para sediar a Copa América de 2021 foi feita de última hora. O governo e a Conmebol não fizeram investimentos em estádios, arenas e infraestrutura para sediar o evento.

O país tampouco irá se beneficiar de um grande aquecimento do turismo, já que os jogos serão realizados sem público. O pouco acréscimo à atividade econômica deverá ocorrer em função dos deslocamentos e da estadia das delegações das seleções – a estimativa é de que sejam 650 pessoas ao todo.

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