As medidas da CPI da Covid para tentar superar a ‘terra plana’

Pesquisadores consideram que comissão corre risco de dar palco a negacionistas. Parte dos senadores se mobiliza para evitar propagação de desinformação

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Os senadores que integram a CPI da Covid têm tentado evitar que os depoentes espalhem desinformação sobre temas como a cloroquina, remédio difundido pelo presidente Jair Bolsonaro que é ineficaz contra a doença. Parlamentares passaram a contar com equipes de checagem de informações para desmentir imediatamente dados errados.

Instalada desde o início de maio, a comissão tem ouvido integrantes e ex-membros do governo para investigar as ações e as omissões do governo federal no combate à pandemia do novo coronavírus. O chamado tratamento precoce, que inclui remédios como a ivermectina (antiparasitário) e a azitromicina (antibiótico), tem sido um tema recorrente das sessões. O uso de tais medicamentos não é indicado pelas principais entidades médicas, mas continua sendo debatido no Brasil, mais de um ano e dois meses após o início da pandemia.

Para especialistas, a CPI corre o risco de virar palco para negacionistas, como ocorreu com a médica Mayra Pinheiro, secretária do Ministério da Saúde que ficou conhecida como “Capitã Cloroquina”. Depois de ela ter defendido o tratamento sem muitas contestações, os senadores mudaram de estratégia nas sessões seguintes na tentativa de desconstruir argumentos anticientíficos. A seguir, o Nexo mostra como o tema foi sendo abordado pela comissão e como chega às redes sociais.

A mudança de abordagem na CPI

Na terça-feira (1º), os congressistas que comandam a comissão foram mais incisivos com a oncologista Nise Yamaguchi, conselheira de Bolsonaro que também propaga o uso da cloroquina. Ela foi instada a mostrar provas de que seus pacientes se curaram com os remédios e a apresentar estudos que comprovassem a eficácia da cloroquina. A médica se atrapalhou e não conseguiu responder aos senadores.

A abordagem do senador Otto Alencar (PSD-BA), que também é médico e que chegou a dizer que Yamaguchi não sabia nada de infectologia nem a diferença entre um protozoário e um vírus, foi considerada desrespeitosa por parlamentares bolsonaristas e membros do governo.

Marcada para a quarta-feira (2), a sessão que levaria médicos pró e contra a cloroquina foi substituída, em cima da hora, pelo depoimento da infectologista Luana Araújo, indicada para assumir a secretária de combate à covid-19 no Ministério da Saúde, mas barrada antes mesmo da posse por se opor ao tratamento precoce.

Questionada se havia debatido o tema da cloroquina nos dez dias em que permaneceu na pasta trabalhando ao lado do ministro Marcelo Queiroga, a médica negou que tenha tratado do assunto e disse que a discussão era “delirante, esdrúxula, anacrônica e contraproducente”.

“Quando eu disse que um ano atrás nós estávamos na vanguarda da estupidez mundial, eu infelizmente ainda mantenho isso em vários aspectos, porque nós ainda estamos aqui discutindo uma coisa que não tem cabimento. É como se a gente estivesse escolhendo de que borda da Terra plana a gente vai pular. Não tem lógica”

Luana Araújo

infectologista, em depoimento à CPI da Covid

Sua presença na CPI foi comemorada pela oposição. Araújo defendeu a ciência e rebateu senadores que propagam a cloroquina, comparados a terraplanistas. Ao final da sessão, a infectologista afirmou que “informação correta também é medicação”, ao atribuir o apoio dado ao tratamento precoce à falta de conhecimento sobre a covid-19.

Os holofotes sobre os negacionistas

O simples fato de a cloroquina ainda estar em debate na CPI, mesmo após a enxurrada de estudos que provam sua ineficácia contra a covid-19, é uma oportunidade para os negacionistas aparecerem, segundo o pesquisador Pedro Bruzzi, que é sócio da Arquimedes, consultoria de análise de mídias sociais, em entrevista ao Nexo.

A situação, segundo ele, cria espaço para grupos sustentarem sofismas, argumentos falaciosos que levam a interpretações simplistas e mentirosas e que já vêm sendo usados por bolsonaristas desde as eleições de 2018. Bruzzi cita o exemplo da máxima usada pela extrema direita de que “bandido bom é bandido morto”.

“Qual é o oposto disso? Bandido bom é bandido vivo. Então, se não defende que bandido bom é bandido morto, você defende o bandido. Isso não é verdade, mas é o que fica”, diz. Segundo ele, Yamaguchi usou uma estratégia semelhante na CPI ao dizer que era a favor de não deixar a covid-19 se agravar para começar a tratar.

“Todo mundo é a favor disso. Qual o oposto de quem não é a favor disso [tratamento precoce]? Que você é a favor de que a doença se agrave, e não é verdade”, disse.

“A gente está dando uma audiência tremenda para esse tipo de argumentação, na medida em que a gente abre o microfone para essas pessoas argumentarem. A gente está botando holofote nesse tipo de debate que o mundo já superou”

Pedro Bruzzi

sócio da consultoria Arquimedes, ao Nexo

Segundo ele, não deveria sequer haver debate sobre a cloroquina nessa altura da pandemia, porque insistir no tema ainda gera desinformação e suscita dúvidas “sobre algo que não se tem dúvidas”.

O debate nas redes sociais

Dados mais recentes levantados por Bruzzi mostram que, entre o dia 24 e 28 de maio, foram feitas 1,4 milhão de publicações sobre a CPI no Twitter. O maior volume se concentrou nos dias de depoimentos: terça-feira (25), com a fala de Mayra Pinheiro, e quinta-feira (27), com o depoimento de Dimas Covas, diretor do Instituto Butantan.

Segundo ele, na semana em que Mayra falou, houve uma mudança importante desde o início da CPI: o volume de publicações de bolsonaristas encostou no produzido pela oposição, que desde as primeiras semanas eram ampla maioria no debate travado na rede social.

“A prevalência nas redes sociais em relação à CPI é da oposição. Ela é maioria no debate, mas é um debate muito polarizado, que não constrói pontes. É como se fossem dois monólogos. Isso serve para a construção e a consolidação de argumentos”

Pedro Bruzzi

sócio da consultoria Arquimedes, ao Nexo

Segundo ele, mesmo que senadores tenham contestado os argumentos de Yamaguchi, materiais com declarações da médica continuaram circulando. “A gente observa o compartilhamento, especialmente no WhatsApp, de vídeos da CPI. Os bolsonaristas recortam trechos com a fala da doutora Nise Yamaguchi falando absurdos”, disse.

As torcidas organizadas

Raquel Recuero, doutora em comunicação, professora da Ufpel e da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul) e uma das coordenadoras do Midiars (Laboratório de Mídia, Discurso e Análise de Redes Sociais), diz concordar que a CPI acaba servindo de palco para torcidas organizadas radicais, como a que defende a cloroquina.

Mas, segundo ela, ao convocar alguém para falar numa “posição pública com um discurso desinformativo”, o Estado tem obrigação de desmentir imediatamente para evitar que esse discurso se espalhe.

“Porque senão isso vai entrar nos grupos como ‘veja só o que ela falou na CPI e deixou os senadores chocados’. E isso vai ser entendido como o suprassumo da inteligência”, afirmou.

Recuero diz ter observado, desde o início da CPI, que o discurso anticloroquina também ganhou força. “É uma coisa que tem se falado há muito tempo, mas agora parece que está se levando a sério”, disse. Isso aparece, segundo ela, nas falas dos senadores que pedem para os negacionistas mostrarem provas ou apresentam evidências contrárias para contrapor os discursos bolsonaristas.

De acordo com a professora, ainda faltam estudos para medir como essa tentativa de confrontar a desinformação na CPI está sendo vista pelas pessoas. “Acho que está chegando na população em geral de uma maneira melhor. Mas, nos grupos ultrarradicais, não sei”, disse.

Para a professora, como a CPI necessariamente vai ter que ouvir membros do governo que defendem a cloroquina, é fundamental também levar pessoas que as desmintam, como aconteceu com o depoimento de Luana Araújo.

“O que não dá para fazer é botar essas pessoas lá e deixar falando que a cloroquina funciona, que foi tudo ótimo. Se for dar a elas espaço na mídia, como se fez durante todo o ano, tem que fazer o contraponto. Ainda é preciso desmentir esse discurso, porque as pessoas ainda acreditam na cloroquina”

Raquel Recuero

doutora em comunicação, ao Nexo

A responsabilização do governo

Para os senadores que comandam a CPI, já existem elementos para pedir ao Ministério Público o indiciamento de agentes públicos por crime sanitário e contra a vida.

Em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo, na terça-feira (1º), o presidente da comissão, Omar Aziz (PSD-AM), disse que os senadores já conseguiram juntar provas, com apenas um mês de trabalhos, de que Bolsonaro recebeu orientações de um “gabinete paralelo” ao Ministério da Saúde para apostar na imunidade de rebanho e na cloroquina e atrasar a compra de vacinas.

Para Bruzzi, da Arquimedes, a sensação é que algumas lacunas ainda precisam ser preenchidas. “Algumas peças ainda não foram ouvidas. O Carlos Wizard [empresário apontado como um dos organizadores de um comitê científico paralelo que orientava o presidente] deve dar alguma contribuição nesse cenário”, afirmou. Ele disse ainda considerar que falta aos senadores explicar se alguém lucrou com o aumento de produção e venda de cloroquina.

Bruzzi é um dos autores de um estudo que mostra que as falas de Bolsonaro e de seus apoiadores contra a Coronavac atrasaram a fase de testes da vacina e implicaram em 12 milhões de doses a menos, o que evidencia que autoridades atrapalharam medidas de prevenção ao vírus, ocasionaram mais mortes e retardaram a retomada da economia.

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