Da Justiça à CPI: o que pesa contra o governador do Amazonas

Wilson Lima é novamente alvo da Polícia Federal, desta vez sob suspeita de desviar recursos de um hospital de campanha. Ele será ouvido por senadores em 10 de junho

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A Polícia Federal cumpriu na quarta-feira (2) mandados de buscas e apreensões na casa e no gabinete do governador do Amazonas, Wilson Lima (PSC). A investida ocorre no âmbito da Operação Sangria, que apura indícios de desvios de verbas destinadas ao combate à covid-19. A cúpula da gestão de saúde do estado também está na mira.

O Amazonas foi palco de sucessivos colapsos sanitários na pandemia. Em janeiro de 2021, hospitais do estado ficaram sem oxigênio e pacientes morreram sufocados. Lima já foi denunciado na Justiça sob acusações de desvios relacionados à pandemia. Seu governo também é suspeito de adotar medidas que intensificaram o espalhamento do coronavírus. Ele é aguardado na CPI da Covid para depor.

Neste texto, o Nexo conta a história política do governador, explica as acusações judiciais que pesam contra ele e mostra como Lima ainda pode se complicar na Comissão Parlamentar de Inquérito no Senado.

Quem é Wilson Lima

Wilson Lima é jornalista de formação. Natural da cidade de Santarém, no Pará, vive em Manaus desde 2006. Ele ganhou projeção ao apresentar um programa de TV sobre o noticiário local, dedicado especialmente a casos de segurança pública e violência. Antes do PSC, partido pelo qual foi eleito governador em outubro de 2018, também foi filiado ao PV, PR e MDB.

Estreante nas urnas em 2018, usou o discurso da “nova política” para se eleger, surfando na onda de extrema direita que tomou o país naquela disputa. Ele declarou apoio ao então candidato a presidente Jair Bolsonaro.

Sob sua gestão, o estado do Amazonas vivenciou ao menos dois colapsos do sistema de saúde na pandemia. O mais recente em janeiro de 2021, quando faltou oxigênio nos hospitais.

Em 2020, Wilson Lima chegou a usar um discurso a favor do isolamento social, mas também questionou medidas mais duras, como o lockdown. Ele também fez parte do grupo que se recusou a assinar uma carta em conjunto com outros governadores contra ataques do presidente ao Congresso.

No fim de 2020, já diante de sinais de que o sistema de saúde poderia colapsar, Lima decretou o fechamento do comércio, mas recuou após manifestações contrárias à medida.

Em maio de 2021, depois de o Amazonas ter enfrentado o segundo colapso, o vice-governador Carlos Almeida Filho (sem partido) acusou Lima de ter adotado o alinhamento ao presidente Jair Bolsonaro a fim de adotar no estado uma estratégia para que a população obtivesse imunidade de rebanho.

A imunidade de rebanho tem base numa ideia – contestada por cientistas – de espalhar a contaminação para que as pessoas fiquem imunes. O problema dessa estratégia é que ela causa muitas mortes. Lima nega que tenha adotado a estratégia e diz que “sempre baseou suas ações na ciência”.

O que pesa na Justiça

A operação de quarta-feira (2) é a quarta fase da Operação Sangria. A Polícia Federal apura se houve fraude e superfaturamento na contratação de um hospital de campanha no estado. Segundo o portal G1, as irregularidades apontadas teriam ocorrido no hospital de Campanha Nilton Lins, em Manaus, em janeiro de 2021, e os desvios chegariam a R$ 23 milhões.

“Há indícios de que funcionários do alto escalão da Secretaria de Estado de Saúde do Amazonas realizaram contratação fraudulenta para favorecer grupo de empresários locais, sob orientação da cúpula do Governo do Estado, de um hospital de campanha”

Polícia Federal

em comunicado

A PF apura supostos crimes de fraude à licitação, peculato e pertencimento a organização criminosa. Ao todo, foram expedidos 19 mandados de busca e apreensão e 6 de prisão temporária. Lima nega irregularidades. Além disso, o governador já é alvo de duas denúncias que apontam supostos crimes no combate à covid-19.

Em abril de 2021, a Procuradoria-Geral da República denunciou o governador ao Superior Tribunal de Justiça. A acusação é fruto de uma investigação iniciada em 2020, que apura a compra de respiradores de uma loja de vinhos. Outras 17 pessoas foram denunciadas pelo mesmo caso. O grupo é acusado de organização criminosa voltada à prática de diversos crimes, incluindo dispensa indevida de licitação, fraude à licitação e peculato.

Na investigação desse caso, Lima também foi alvo da Polícia Federal, em ação ocorrida em junho de 2020. Uma segunda denúncia da Procuradoria-Geral mira Lima e três servidores, acusados de peculato em proveito de duas empresas específicas e seus sócios, devido ao fretamento indevido de aeronave para o transporte de respiradores. O governador disse que as acusações eram infundadas.

O STJ iria analisar na quarta-feira (2) se receberia ou não a denúncia contra o governador pela suposta aquisição irregular de respiradores. Mas o caso foi retirado da pauta por um pedido da defesa, que argumentou não ter tido tempo hábil para apresentar suas alegações.

Em janeiro de 2021, a Procuradoria-Geral da República também abriu inquérito contra Lima e contra a prefeitura de Manaus para investigar “eventual omissão” das autoridades no colapso dos hospitais que atendem pacientes com covid-19. Nesse caso, o ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello também é alvo.

Lima teve um processo de impeachment contra ele arquivado. A acusação era de crime de responsabilidade e improbidade administrativa por mau uso de recursos públicos para conter o avanço do coronavírus.

O depoimento na CPI da Covid

A CPI da Covid determinou no dia 26 de maio a convocação de nove governadores, entre eles Lima, e do ex-governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel. As gestões de todos eles foram alvo de investigações da Polícia Federal, em razão de contratações feitas durante a pandemia.

Com as convocações, os membros da CPI pretendem mostrar que a investigação de corrupção nos estados e municípios também interessa à comissão.

Depois que veio à tona a notícia de buscas da Polícia Federal contra o governador Wilson Lima, senadores da CPI da Covid optaram por antecipar o depoimento de Lima à comissão. Ele deve ser ouvido pela comissão no dia 10 de junho, e não mais no dia 29, como previsto anteriormente.

A convocação de governadores para depor é uma reivindicação de senadores aliados ao presidente Jair Bolsonaro, que buscam desviar o foco da investigação da atuação do governo federal.

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