Por que o PIB cresceu mesmo com a piora da pandemia

Resultado positivo de 1,2% no primeiro trimestre de 2021 supera expectativas. Economistas explicam a característica desse crescimento e analisam o otimismo do governo

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O PIB (Produto Interno Bruto) cresceu 1,2% no primeiro trimestre de 2021 em relação ao último trimestre de 2020, segundo dados divulgados na terça-feira (1°) pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). O número superou as expectativas dos agentes de mercado, que projetavam uma alta abaixo de 1%.

O PIB é o resultado da soma de todos os bens e serviços produzidos em um país em certo período de tempo. O resultado mostra, portanto, que o Brasil produziu mais nos três primeiros meses de 2021 que nos três últimos de 2020 apesar de uma piora considerável da pandemia do novo coronavírus.

VARIAÇÃO DO PIB

Crescimento do PIB em relação ao trimestre anterior. Três trimestres seguidos de crescimento a partir do segundo semestre de 2020, superando duas quedas fortes no começo de 2020

Abaixo, o Nexo mostra o cenário econômico e sanitário do começo de 2021, e conversa com economistas para entender o resultado do PIB.

Economia e pandemia em 2021

Em 2020, a pandemia levou a uma paralisação parcial da economia, que foi mais forte nos primeiros meses de crise sanitária, quando o tombo da atividade econômica foi histórico. Mesmo com o início da recuperação no segundo semestre, o PIB fechou o ano com uma queda de 4,1%, terceiro pior resultado anual desde 1901.

O crescimento do primeiro trimestre de 2021 recolocou a economia brasileira no patamar do final de 2019, anterior à pandemia. É o que mostra o gráfico abaixo.

TRAJETÓRIA ECONÔMICA

Nível do PIB do Brasil, por trimestreNível do PIB do Brasil, por trimestre. Queda forte no começo de 2020, mas voltamos ao patamar do fim de 2019 no começo de 2021

O crescimento do início de 2021 foi caracterizado pela forte expansão do setor agropecuário e pela alta da indústria, sobretudo nas atividades extrativa e de construção civil. O setor de serviços teve crescimento modesto em relação aos outros dois, e segue abaixo do patamar pré-pandemia.

Os primeiros meses do ano também foram marcados pelo encerramento de programas sociais como o auxílio emergencial (que foi retomado em abril) e pelo recorde de desemprego registrado pela Pnad Contínua (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua), produzida pelo IBGE.

Além disso, o país viveu uma piora significativa da pandemia no começo de 2021, com registro de colapso no sistema de saúde de diversos estados. O número de mortos pela covid-19, que já vinha subindo desde novembro de 2020, cresceu consideravelmente.

Segundo dados do Conass (Conselho Nacional de Secretários Estaduais de Saúde), 50.997 pessoas morreram pela covid-19 entre outubro e dezembro de 2020. Nos três meses seguintes, as mortes pela doença foram 126.566 um salto de 148%. Isso não impediu o crescimento de 1,2% do PIB na comparação entre os dois períodos.

O PIB do primeiro trimestre sob análise

O Nexo conversou com economistas para entender por que a atividade econômica cresceu e acima do esperado mesmo em meio à piora da crise sanitária.

  • Mayara Santiago, pesquisadora da área de Economia Aplicada do FGV-Ibre (Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas)
  • Guilherme Mello, professor do Instituto de Economia da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas)

Por que o PIB cresceu mesmo com a piora da crise sanitária?

Mayara Santiago O que estamos vendo é que apesar da piora na questão sanitária, a atividade não foi tão afetada. Isso se deve ao fato de que o aperto de medidas restritivas não foi tão forte neste início de ano. Em 2020, muitas empresas e estabelecimentos fecharam completamente as portas.

Neste início de 2021, vimos uma coisa um pouco diferente: houve medidas restritivas, mas quando comparamos com o início da crise em 2020, foi completamente diferente. Então não teve um efeito tão grande em termos econômicos apesar de que houve piora na situação sanitária e no número de mortes.

Guilherme Mello A base de comparação [final de 2020] é bastante baixa. Além disso, mesmo com a segunda onda da pandemia, a decisão tanto dos governos como da própria população foi não restringir tanto a circulação. Isso gerou, por um lado, o pior momento da pandemia, com hospitais lotados e muita gente morrendo. Mas por outro lado, isso teve um impacto de curto prazo de estabilização do nível de atividade.

Há outros fatores para além da base rebaixada e da restrição não ter sido tão aguda quanto em 2020. Uma questão que me parece mais permanente é o boom das commodities há um aumento expressivo no preço e na demanda por commodities, porque há uma recuperação mais rápida das economias centrais, como China, EUA e Europa. Combinamos isso com uma safra muito boa especialmente da soja; o preço aumentou e estamos produzindo mais commodities. Isso explica em parte a recuperação: há um crescimento mais forte das exportações (apesar das importações terem crescido bastante) e isso se reflete, por exemplo, no crescimento mais forte da indústria, muito puxado pela indústria extrativista. E essa indústria extrativista mais forte também faz investimentos. Não vejo uma reversão no preço e na demanda por commodities pelo menos até o ano que vem [2022]. Esse setor vai nos ajudar no próximo ano, ano e meio.

Outro fator um pouco mais conjuntural é o [crescimento da] construção civil. Acho que é mais conjuntural porque o setor de construção civil depende um pouco mais de crédito barato. Como estamos com aumento da inflação e a taxa de juros está aumentando, esse setor pode acabar desacelerando ao longo do próximo ano. O boom imobiliário não estava relacionado a uma redução do deficit habitacional. É um boom imobiliário especulativo: a taxa de juros estava baixa e as pessoas investiram em imóveis. Se a taxa de juros subir bastante, esse boom arrefece.

O que explica o fato de que o PIB cresceu, mas o desemprego foi recorde no primeiro trimestre de 2021?

Mayara Santiago As variáveis de mercado de trabalho em especial o emprego são as últimas a responderem [a momentos de retomada de crise]. O desemprego é sempre a última coisa a responder. Estamos tentando sair da situação de crise, estamos voltando a crescer.

Apresentamos um resultado acima do esperado [no primeiro trimestre de 2021], mas isso não significa que já estamos fora da zona de perigo. Ainda temos questões bastante complicadas como o desemprego e a inflação. A questão do desemprego é uma em que ainda estamos deixando a desejar. Não vamos recuperar todas as vagas perdidas da noite para o dia.

Guilherme Mello Nos números do PIB, vemos que fatores que não estão atrelados à demanda das famílias estão puxando [a economia] para cima. Os que estão atrelados estão estagnados em nível muito baixo. Olhando para os dados do desemprego [divulgados em 27 de maio], percebemos que para as famílias, a situação é muito ruim. Talvez o atual momento do mercado de trabalho seja o pior momento da história do Brasil.

Apesar de o resultado [do PIB] ter vindo bom, quando olhamos para o consumo das famílias, houve uma pequena queda. Isso preocupa porque, no Brasil, o principal motor do crescimento econômico é o consumo das famílias. O motor principal ainda não voltou a funcionar. E, dados os indicadores do mercado de trabalho, não parece que voltará a funcionar tão cedo. Há muito desemprego, muita subutilização, muito desalento: esse cenário é complicado para o consumo das famílias.

Outro indicador em que isso aparece é o ritmo de recuperação dos serviços, que é mais lento que os outros setores [agropecuária e indústria]. Não só porque ele é mais afetado pelas medidas de isolamento, mas porque o nível de atividade no setor de serviços está muito vinculado à dinâmica da renda das famílias. Se a dinâmica da renda das famílias não se recupera, o setor de serviços tem mais dificuldade de recuperar. E o setor de serviços, do ponto de vista da oferta, é o maior setor. Você precisa que setor de serviços e a renda das famílias se recuperem. A ligação é enorme entre eles. Se a renda das famílias se recuperar, o consumo se recupera e o setor de serviços também.

O governo tem mantido um forte otimismo com a economia. Já parte da oposição tem uma visão pessimista. Na sua avaliação, o momento econômico é de otimismo ou de pessimismo? Por quê?

Mayara Santiago Acho que nem para oito, nem para oitenta. No segundo trimestre, veremos [o efeito da] entrada do auxílio. Houve uma piora na pandemia [concentrada em abril], e o mercado de trabalho não está recuperado. Também no segundo trimestre, vamos ter um efeito base muito significativo, ou seja, o segundo trimestre vai ter uma taxa de crescimento interanual [comparando com o segundo trimestre de 2020] forte e positiva.

Não devemos olhar apenas um lado ou outro. O resultado é uma composição. A palavra de ordem é cautela. Apesar de a economia mostrar um resultado forte, positivo, acima do esperado [no primeiro trimestre], isso não pode ser um incentivo ao descuido com relação à situação sanitária.

Outro fator importante para o qual deveríamos atentar é à inflação porque sabemos que a inflação, especialmente a de alimentos, atinge muito fortemente as famílias mais pobres, especialmente a inflação de alimentos, que sabemos que compõem boa parte dos gastos das famílias de renda mais baixa. E quando pensamos na aceleração da inflação unida ao fato de que o mercado de trabalho não está com o fôlego recuperado, é um fator muito preocupante. O panorama é complicado.

Guilherme Mello Depende de onde você está na escala da renda. Um trabalhador de classe baixa não tem por que estar otimista. O desemprego é muito alto. A renda não se recupera. A pobreza, a miséria e o risco de insegurança alimentar cresceram. Não há sinais de que essa recuperação da economia vá gerar o volume de atividade, de emprego e de renda que vai impactar a vida dessas pessoas.

E se você for um investidor financeiro que investe em commodities, um empresário do setor extrativista, ou estiver especulando com imóveis, está feliz. Mas essa parcela da população é pequena. Temos a chamada recuperação em K: o topo da pirâmide recupera e vai para cima; a base não recupera.

Salvo o caso de concretização de incertezas terceira onda, falta de energia , é possível que cheguemos ao final do ano com um número [de crescimento do PIB] que cause uma boa impressão. Para o nosso histórico recente, [crescer] 5% é maravilhoso. Mas não é um dado que realmente condiz com o ritmo de recuperação da renda das famílias. É um número que expressa em parte o carregamento estatístico do ano passado, e em parte o dinamismo de alguns setores que estão ligados ao mercado externo ou a ciclos especulativos, como no caso do mercado imobiliário. Não vejo com otimismo, mas não nego que pode ser que o número do crescimento seja bom.

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