Por que a Copa América é um risco. E outros torneios também

Bolsonaro confirma competição no Brasil, após recusa da Colômbia e da Argentina. Epidemiologistas afirmam que o evento internacional pode piorar a já grave pandemia no país

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A Copa América de 2021 vai ocorrer no Brasil a partir de 13 de junho, com duração de 27 dias e participação de 10 países. O anúncio foi feito pela Conmebol (Confederação Sul-Americana de Futebol) na segunda-feira (31), após Colômbia e Argentina desistirem de sediar o torneio. Na tarde de terça-feira (1º), o presidente Jair Bolsonaro confirmou a realização do torneio.

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é a estimativa do número de pessoas que deve vir ao Brasil para a Copa América, entre jogadores e delegações

Os jogos serão realizados nos estados do Rio de Janeiro, Mato Grosso, Goiás e Distrito Federal, segundo o ministro da Casa Civil, general Luiz Eduardo Ramos, que afirmou em suas redes sociais que as partidas vão acontecer sem a presença do público.

A confirmação de que a Copa América será realizada no Brasil chega em um momento em que o país se aproxima da marca de 500 mil mortos pela covid-19. Muitos hospitais estão lotados e os sinais de um novo agravamento da crise são evidentes. Além disso, a vacinação ainda segue a passos lentos. A situação despertou uma série de críticas contra o governo Bolsonaro. Já os apoiadores do presidente responderam que tal alarde não ocorre com o Brasileirão, a Copa do Brasil, a Taça Libertadores ou os torneios estaduais ainda em curso.

Epidemiologistas afirmam, por sua vez, que a realização de nenhum campeonato é recomendada neste momento, sejam aqueles que estão em andamento, seja a Copa América. Os especialistas em saúde dizem, aliás, que o evento internacional tem potencial ainda maior de agravar a atual crise sanitária. Neste texto, o Nexo mostra as principais preocupações sanitárias em torno do evento.

Por que ‘é arriscado’

“Não recomendo que a Copa seja realizada”, afirmou ao Nexo o epidemiologista Paulo Lotufo, professor da Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo). De acordo com ele, o torneio traz consigo um cenário em que mais pessoas estarão circulando nas ruas, mais pessoas estarão aglomeradas nos bares e, consequentemente, mais pessoas estarão suscetíveis ao novo coronavírus.

“Teríamos a circulação de gente que não precisa”, disse, referindo-se também às delegações participantes. Segundo o epidemiologista, a entrada de pessoas vindas de outros países pode trazer novas cepas do coronavírus ou criar um terreno fértil para o surgimento de novas variantes no próprio Brasil. Ele ressalta que a vacinação lenta no país também gera um cenário onde não há proteção coletiva contra a doença.

Falando à imprensa, o ministro da Casa Civil, Luiz Eduardo Ramos afirmou que as delegações estrangeiras chegarão ao Brasil vacinadas e serão submetidas a testes. Ramos não deu explicações sobre qual seria o procedimento para jornalistas estrangeiros que viessem cobrir os jogos. Mesmo com medidas de diminuição de riscos, Lotufo expressa preocupação.

Uma visão similar é defendida por Antonio Augusto Moura da Silva, médico epidemiologista e professor do Departamento de Saúde Pública da Universidade Federal do Maranhão. “A Copa América vai aumentar a circulação de pessoas em um momento em que deveríamos diminuir a circulação de pessoas”, afirmou ao Nexo.

Moura da Silva afirmou que, se dependesse dele, nem o Campeonato Brasileiro estaria em curso. Ele ressalta, porém, que a Copa América traz uma camada a mais de risco. “Você vai ter pessoas de outros países circulando, é uma situação mais arriscada”, disse, se referindo às equipes e delegações.

“Ao menos não vai ter público, porque se não seria algo de uma temeridade ainda maior”, afirmou. Há planos na Conmebol para que haja público presente na final, mas ainda não houve oficialização.

De acordo com o médico, mesmo com medidas de mitigação de riscos, o Brasil só poderia começar a pensar em liberar a realização de eventos em um cenário onde pelo menos 70% da população estivesse completamente vacinada. Até o dia 31 de maio, apenas 10,48% dos brasileiros tinham recebido duas doses de imunizantes, enquanto 21,58% estavam apenas com uma dose.

Para o epidemiologista, o apoio de algumas autoridades e de parte da sociedade civil à realização da Copa América e de outros eventos esportivos se encaixa em um contexto de naturalização da pandemia.

“O brasileiro banalizou a morte, não importa se vão morrer 3.000, 4.000. A epidemia já está naturalizada”

Antonio Augusto Moura da Silva

Epidemiologista, em entrevista por telefone ao Nexo

A reação dos governadores

O Brasileirão tem sido realizado sem a presença de público nos estádios e os jogadores, membros da comissão técnica e jornalistas são submetidos a testes de detecção da covid-19. Apesar de diminuírem parte dos riscos, as medidas não os eliminam.

A possibilidade da realização da Copa América dividiu os governos estaduais. João Doria (PSDB), governador de São Paulo, chegou a afirmar que não se oporia à realização dos jogos, desde que a organização seguisse os protocolos do Plano São Paulo, que regulamentam o funcionamento de atividades e eventos no estado. Na terça-feira (1º), após repercussão negativa, recuou e vetou a realização do torneio no estado.

Doria foi eleito em 2018 usando o nome de Bolsonaro, em meio à onda de extrema direita daquelas eleições. Mas depois rompeu com o presidente. Na pandemia, se coloca do lado da “ciência”, em contraposição ao negacionismo do adversário. O tucano tem pretensões presidenciais em 2022.

Decisões de receber o campeonato foram anunciadas pelos governos do Mato Grosso e do Amazonas. Já Paulo Câmara (PSB), governador de Pernambuco, disse que não vai permitir a realização de nenhum jogo do campeonato no estado. "O atual cenário epidemiológico não permite a realização de evento do porte da Copa América no território de Pernambuco”, afirmou em nota oficial na segunda-feira (31). O mesmo posicionamento foi adotado também pelos governos de Minas Gerais, Rio Grande do Norte (que está promovendo o campeonato Potiguar), Rio Grande do Sul e Bahia.

Os governos das outras 19 unidades federativas do país não tinham se pronunciado sobre o campeonato até a manhã de terça-feira (1º).

O tamanho da covid no Brasil

Gráfico de mortes diárias por covid-19

A Copa América na CPI

Desde o começo de maio, o Senado tem conduzido a CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) da covid-19, a fim de apurar a atuação e possíveis omissões do governo federal no combate à pandemia, além de repasses federais aos estados.

Na segunda-feira (31), o senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP) protocolou um pedido para convocar Rogério Caboclo, presidente da CBF, para prestar depoimento acerca dos planos para a realização da Copa América no país. O pedido ainda precisa ser votado pela comissão.

Nesta terça-feira (1º), antes do início do depoimento da médica Nise Yamaguchi, os parlamentares debateram a questão e se dividiram sobre ela. Para alguns, ouvir Caboclo seria importante. Para outros, uma oitiva do ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, totalmente dedicada ao tema, seria mais produtiva.

O futebol durante a pandemia

Eventos esportivos que em sua maioria, naturalmente geram algum tipo de aglomeração foram afetados significativamente pela pandemia da covid-19.

Durante a paralisação, o futebol foi alvo de pressão política do governo Bolsonaro. O presidente se mobilizou nos bastidores para articular a volta do futebol. As partidas voltaram em meados de junho.

A CBF publicou protocolos sanitários para tentar diminuir o risco de contágio dentro das equipes, mas os esforços não impediram que todos os times da liga registrassem casos de coronavírus em seus elencos nos pouco mais de seis meses de duração do torneio.

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é o número de casos de covid-19 entre jogadores dos clubes da Série A entre agosto de 2020 e fevereiro de 2021

Em março de 2021, medidas de restrições estaduais paralisaram campeonatos por alguns dias. No entanto, os torneios logo foram retomados, e municípios que não tinham decretado a suspensão do futebol chegaram a receber jogos de times de outros estados caso de Volta Redonda (RJ), que foi palco de jogos do Campeonato Paulista.

ESTAVA ERRADO: A primeira versão deste texto dizia que, até o dia 1º de junho, 13,7% dos brasileiros tinham recebido duas doses de imunizantes contra a covid-19, enquanto 28,4% tinham recebido uma dose. Esses índices, porém, referem-se à população adulta. Os índices que levam em conta toda a população, segundo dados disponíveis em 31 de maio, são 10,48% (duas doses) e 21,58% (uma dose). A informação foi corrigida às 18h45 de 1º de junho de 2021.

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