Como a CPI da Covid confrontou o discurso de Nise Yamaguchi

Acusada de auxiliar o gabinete paralelo de Bolsonaro na pandemia, médica pró-cloroquina não conseguiu citar estudos que comprovassem benefícios de medicamento nem dados sobre cura de seus pacientes

O Nexo é um jornal independente sem publicidade financiado por assinaturas. Este conteúdo é exclusivo para nossos assinantes e está com acesso livre como uma cortesia para você experimentar o jornal digital mais premiado do Brasil. Apoie nosso jornalismo. Conheça nossos planos. Junte-se ao Nexo!

A médica oncologista Nise Yamaguchi, defensora da cloroquina e apontada como conselheira do presidente Jair Bolsonaro, foi ouvida por mais de sete horas na terça-feira (1º) pela CPI da Covid, no Senado, na condição de convidada. Ela confirmou ter participado de reuniões com o governo federal para tratar do medicamento sem eficácia contra a covid-19, negou a intenção de mudar a bula do remédio para adaptá-lo à pandemia e se atrapalhou na defesa do chamado tratamento precoce.

Desde o começo de maio, os parlamentares têm ouvido integrantes e ex-membros do governo para apurar as ações e omissões da atual gestão no enfrentamento à pandemia. A comissão também investiga os repasses de recursos a estados e municípios. Uma das linhas de investigação dos senadores é a existência de um gabinete paralelo ao Ministério da Saúde que teria assessorado Bolsonaro em sua ação negacionista, na contramão das recomendações de organismos internacionais de saúde.

Yamaguchi, que em abril teve vídeos com conteúdo desinformativo apagados do YouTube por infringir as regras do site, é considerada por bolsonaristas referência na defesa da cloroquina por agregar uma pretensa base científica ao tema. Ignorando o consenso que já existe em torno da ineficácia da substância contra a covid-19, ela voltou a defender o remédio na CPI. Senadores tentaram centrar os questionamentos na adoção do medicamento como política pública.

Diferentemente de outras autoridades, a médica foi convidada — e não convocada como testemunha ou investigada. Ela não tinha a obrigação de ir à CPI nem de falar a verdade, embora tenha se comprometido a fazê-lo. Por fugir das perguntas iniciais, os senadores chegaram a cogitar cancelar a sessão e reconvocá-la como testemunha, o que acabou não ocorrendo.

Por diversas vezes, tanto a depoente quanto as senadoras reclamaram das interrupções dos congressistas. A comissão vem sendo acusada de machismo e questionada por não ter nenhuma mulher entre os titulares e suplentes. Yamaguchi disse ter contribuído com vários governos, inclusive do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A seguir, o Nexo destaca os principais pontos de seu depoimento.

A mudança da bula da cloroquina

O ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta e o diretor-presidente da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), Antônio Barra Torres, haviam atribuído à médica, em seus depoimentos, a intenção de incluir na bula da cloroquina a indicação para o tratamento contra a covid-19.

A medida seria feita por meio de um decreto assinado por Bolsonaro. O tema foi discutido numa reunião no Palácio do Planalto. Barra Torres afirmou ter, na ocasião, respondido de maneira ríspida a Yamaguchi dizendo que a mudança era impossível e só poderia ser feita a pedido do detentor do registro do medicamento.

A médica negou que tenha proposto qualquer mudança na bula ou discutido o tema na reunião.

“Eu não acho que eles [Mandetta e Barra Torres] tenham mentido, eu acho que eles tenham se equivocado, porque acharam que a gente quisesse fazer um decreto da bula, e não foi isso que aconteceu”

Nise Yamaguchi

médica, em depoimento à CPI

Segundo ela, o tema discutido na reunião foi uma RDC (Resolução de Diretoria Colegiada), da Anvisa, uma “nota informativa, onde eles falavam sobre a inserção de medicamentos em época de pandemia”. “A RDC 348, que eu discuti, tratava da introdução de medicamentos em época de covid, tratava de insumos estratégicos e de todas as outras questões”, disse a médica.

Em entrevista ao jornal Folha de S.Paulo depois do depoimento da médica, Mandetta voltou a reafirmar que o documento que estava sendo debatido na reunião era uma minuta do decreto que mudaria a bula da cloroquina. “O Barra Torres ficou indignado e disse que a Anvisa não permitiria aquilo”, disse. O diretor-presidente da agência confirmou a informação em seu depoimento à CPI.

Participação no gabinete paralelo

Yamaguchi também negou aos senadores fazer parte de qualquer gabinete paralelo ao Ministério da Saúde para orientar o presidente na política de combate ao novo coronavírus.

“Eu participo como médica, como cientista chamada para opinar em comissões técnicas, em reuniões governamentais, em reuniões específicas com setores do Ministério da Saúde. Faço questão de trabalhar com as regulamentações, inclusive com a Anvisa, com o Parlamento. Sempre contribuí com todos”

Nise Yamaguchi

médica, em depoimento à CPI da Covid

A médica, porém, confirmou que houve a intenção de formar um “conselho científico independente” sem vínculos com o Ministério da Saúde, com o objetivo de “oferecer o conhecimento de uma forma organizada, sem que houvesse um vínculo oficial”.

A ideia não teria vingado, segundo ela, porque antes mesmo de começar “acabou havendo uma perseguição tão grande da mídia que a gente acabou dissolvendo esse grupo”. De acordo com ela, o papel de juntar os médicos era do empresário Carlos Wizard, também apontado como um dos integrantes do gabinete paralelo.

Yamaguchi também citou o nome do ex-assessor do presidente Arthur Weintraub como um dos organizadores do grupo, que contaria com cerca de dez mil médicos espalhados pelo Brasil. Segundo ela, Weintraub e Bolsonaro receberam profissionais do grupo em Brasília.

Mentiras sobre o tratamento precoce

A médica voltou a defender o uso de medicamentos como a cloroquina e a hidroxicloroquina para tratar pacientes com casos leves de covid-19. Analistas políticos fizeram críticas à CPI por dar palanque a alguém que dissemina desinformação. Estudos já demonstraram que os medicamentos não funcionam, e seu uso não é recomendado pelas principais entidades médicas do Brasil e do mundo.

Segundo ela, quem tocou nesse tema nas reuniões com o governo foi o próprio Bolsonaro. “Eu tive a oportunidade, no início, de receber dele [Bolsonaro] a informação de que existia um tratamento que estava sendo discutido na França e nos Estados Unidos”, disse a médica.

O senador Alessandro Vieira (Cidadania-SE) pediu para que ela indicasse alguma publicação científica séria que comprovasse os benefícios dos remédios citados. Yamaguchi folheou alguns papéis e, visivelmente perdida, citou um suposto estudo da Henry Ford Foundation que mostraria que a hidroxicloroquina e a cloroquina “são opções terapêuticas bastante importantes”.

Vieira desmentiu a informação no ato, mostrando que o estudo citado, na verdade da Henry Ford Health System, foi encerrado em dezembro de 2020 por “não demonstrar evidências suficientes”. “Isso pode ser encontrado em vários documentos e foi formalmente comunicado aos órgãos americanos”, disse. Yamaguchi respondeu que “não tinha essa informação”.

Em um dos momentos mais constrangedores, o senador Otto Alencar (PSD-BA), que também é médico, afirmou que a cloroquina é um medicamento usado há mais de 70 anos em doentes com malária, doença causada por um protozoário. Ele perguntou se a médica sabia a diferença entre protozoários e vírus (que causa a covid-19).

Yamaguchi hesitou e não respondeu. A pergunta foi repetida oito vezes até ela afirmar que protozoários “são organismos celulares, e os vírus são organismos que têm um conteúdo de DNA ou RNA”, o que está correto.

Alencar respondeu que a resposta não era exata, mas explicou de maneira parecida. “Os protozoários são organismos mono ou unicelulares, e os vírus são organismos que têm uma proteção proteica, um capsídeo, e internamente o ácido nucleico, completamente diferente do que a senhora falou aí. A senhora não soube explicar o que é um vírus. Vírus não são nem considerados seres vivos. Portanto, uma medicação para protozoário nunca cabe para vírus”, afirmou.

“A senhora não sabe nada de infectologia. Nem estudou, doutora! A senhora foi aleatória mesmo, superficial”

Otto Alencar

senador, durante a CPI da Covid

Alencar também questionou a afirmação da médica de que já tratou mais de 300 pacientes com remédios do chamado kit covid e que obteve bons resultados. Ele pediu que ela apresentasse estudos, nomes, CPFs e endereço dos pacientes para que ele pudesse conferir se as informações eram verdadeiras. Yamaguchi não respondeu.

Os questionamentos do senador foram considerados “grosseiros” por assessores da médica, senadores governistas e membros do governo. Uma assessora da oncologista cobrou do presidente da CPI, Omar Aziz (PSD-AM), que a médica fosse tratada com respeito e acabou sendo obrigada a se retirar da sala.

Vacinas e imunidade de rebanho

Em vários momentos, os senadores exibiram vídeos com falas da médica que contradizem as principais recomendações das autoridades em saúde. Em uma das peças, ela disse: “Não precisa vacinar aleatoriamente toda a população dizendo que é a única solução”.

Yamaguchi disse que manteria a afirmação e que a vacina é apenas uma “prevenção”. Para ela, existe o “tratamento precoce” como alternativa para pacientes com covid-19. O kit covid defendido por Bolsonaro inclui também remédios como azitromicina (antibiótico que combate infecções bacterianas) e ivermectina (um antiparasitário).

O presidente da CPI, Omar Aziz, se irritou com a fala. Segundo ele, a médica não conseguiu salvar todos os pacientes que tratou com os medicamentos. Ele pediu para que as pessoas que estavam assistindo a sessão não acreditassem nela. E disse: “A vacina salva; o tratamento precoce, não”.

“Pelo amor de Deus, doutora Nise! Sabe o que é? Não escutem o que ela está dizendo. Todos os brasileiros precisam de duas vacinas, duas!”

Omar Aziz

presidente da CPI, durante depoimento da médica Nise Yamaguchi

Em outro momento, os senadores exibiram um vídeo em que a médica diz que a imunidade de rebanho, estágio a partir do qual o vírus tem dificuldade de circular, seria obtido quando 50% das pessoas se infectassem. A tese de deixar o vírus seguir seu curso natural já foi defendida por Bolsonaro, mas implica num alto número de mortos.

465.199

era o número de mortos por covid-19 até 1º de junho de 2021 no Brasil, segundo país onde mais pessoas perderam a vida no mundo por causa da doença

Segundo Yamaguchi, a imunidade de rebanho “é um fato”. “Ela acontece quando você tem uma grande quantidade de pessoas imunizadas, ou que tenham tido contato com o vírus, ou que tenham uma imunidade natural já previamente adquirida pelo contato com outros vírus. Então, o que acontece é que esse fato”, disse.

A médica afirmou que a imunização de rebanho não é uma tese que ela defenda, mas uma realidade que não precisa ser interpretada, o que também irritou alguns senadores.

Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project.