A mudança de cálculo que fez do Peru líder de mortes por covid

Revisão de metodologia faz país andino saltar da 13ª para a 1ª posição no ranking mundial de óbitos por milhão de habitantes

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Autoridades sanitárias do Peru atualizaram na segunda-feira (31) o número de mortos pela covid-19 no país. De 69 mil mortos, a cifra passou a ser de 180 mil, o que coloca o Peru na condição de líder mundial em taxa de mortalidade na pandemia.

A atualização dos dados decorre de uma mudança de metodologia – antes, o atestado de óbito só registrava “morte por covid” de um paciente que tivesse sido submetido a análises clínicas e laboratoriais. Com a mudança, foi criada uma tabela de sete indicadores considerados suficientes para que uma morte seja associada à pandemia.

Antes do Peru, também o México havia feito adaptação semelhante. Uma recontagem feita pelo Ministério da Saúde mexicano em abril, sob os mesmo critérios peruanos, fez o número de óbitos por covid no país saltar 62%. No Brasil, especialistas acreditam que é “razoável presumir” que haja subnotificação parecida, mas não há nenhuma revisão oficial em curso.

No Peru, o trabalho de revisão foi conduzido pelo GTT (Grupo de Trabalho Técnico) criado pelo Poder Executivo em abril para fazer uma varredura nos registros, com a participação de membros dos órgãos nacionais de saúde e integrantes da Opas (Organização Panamericana da Saúde).

O governo diz que as subnotificações e as discrepâncias entre diferentes sistemas de registro de óbitos se deve à falta de pessoal nos escritórios de epidemiologia e ao colapso da rede forense. O problema é ainda mais grave em regiões afastadas dos grandes centros.

Quais os dados revisados

A revisão diz respeito aos óbitos registrados no Peru entre 1º de março de 2020 e 22 de maio de 2021. O número anterior era de 69.342 mortos, e dava ao país a 13ª maior taxa de mortalidade por covid no mundo. Com a revisão, passou a ser precisamente de 180.764, e levou o país ao topo do ranking.

O Peru passa a ter, após a revisão dos dados, 5.484 mortos por milhão de habitantes. O segundo país da lista é a Hungria, com 3.077 mortos por milhão. O Brasil tem 2.173 por milhão. No site da OMS (Organização Mundial da Saúde), entretanto, os dados peruanos ainda apareciam desatualizados até a manhã de terça-feira (1º).

O Peru tem 33 milhões de habitantes e 1,9 milhão de pessoas já foram diagnosticadas com covid no país desde março de 2020. A revisão dos dados tem o objetivo de calibrar melhor a resposta do governo à pandemia, adaptando as políticas sanitárias a um quadro mais realista do contexto, de acordo com Violeta Bermúdez, que chefiou o trabalho de revisão.

O contexto político peruano

A revisão dos dados cria constrangimento político apenas relativo ao governo. O atual presidente, Francisco Sagasti, está no cargo interinamente. O Peru terá no dia 6 de junho o segundo turno das eleições presidenciais, e Sagasti não participará da disputa.

Os dois candidatos, Keiko Fujimori e Pedro Castillo, apareceram tecnicamente empatados na pesquisa Ipsos divulgada no domingo (30) – ele com 51,1%, ela com 48,9% das intenções de voto. A margem de erro é de 2,5 pontos percentuais.

Ambos são classificados como populistas por estudiosos do tema. Ela é herdeira do espólio político do pai, Alberto Fujimori, que governou o Peru por dez anos, fechou o Congresso e censurou a imprensa, mas acabou preso por crimes contra a humanidade depois de ter deixado o cargo. Já Castillo é ligado a uma esquerda radical latino-americana que relativiza a importância da democracia e fala abertamente em enfraquecer instituições, incluindo o Poder Judiciário.

Além da pandemia, o contexto eleitoral peruano também está marcado pela violência. No dia 23 de maio, um ataque atribuído a uma dissidência do grupo terrorista de extrema esquerda Sendero Luminoso, hoje extinto, deixou 16 mortos no interior do país. O Exército disse ter encontrado no local panfletos que pregavam o boicote à eleição e particularmente à candidata Keiko Fujimori.

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