O que é a mucormicose, doença agravada na Índia na pandemia

Doença não transmissível tem crescido no país asiático em meio a alta de casos de covid-19. Microbiologistas não veem ameaça à saúde pública global

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Na última semana de maio de 2021, a Índia registrou cerca de 9.000 casos de mucormicose, doença também chamada de “fungo negro” ou “fungo preto” que tem um alto índice de letalidade nos pacientes sintomáticos. Na quinta-feira (27), o Uruguai registrou um caso da doença. No sábado (29), o Ministério da Saúde no Brasil reportou a suspeita de uma infecção pelo microrganismo em Joinville, Santa Catarina, ainda não confirmado.

A alta de diagnósticos na Índia ocorre no momento em que o país asiático enfrenta seu pior momento na pandemia da covid-19, e preocupa as autoridades indianas. Para microbiologistas, no entanto, a mucormicose não deve ser um problema de saúde pública global nem ter impactos significativos no Brasil. A doença é rara e não contagiosa.

Neste texto, o Nexo explica o que é a doença, como ela se manifesta e por que você não precisa se preocupar (tanto) com ela.

O que causa a doença

A mucormicose é uma doença causada por fungos do grupo Mucorales, que engloba espécies como Rhizopus, Rhizomucor e Mucor.

Os fungos do grupo são bolores extremamente comuns no mundo todo, e podem ser encontrados facilmente em solos, adubos e alimentos estragados como o pão mofado. “É um fungo onipresente no ambiente como um todo”, disse ao Nexo Laura Marise, microbiologista, doutora em biociências pela Unesp (Universidade Estadual Paulista) e cofundadora do canal de YouTube Nunca vi 1 cientista.

A infecção se dá pela aspiração dos esporos do fungo ou pelo contato do microrganismo com lacerações na pele. Os sintomas da mucormicose são:

  • Nariz entupido
  • Secreção nasal em tom esverdeado
  • Tosse com catarro ou sangue
  • Dificuldade em enxergar
  • Dificuldade para falar
  • Convulsões
  • Perda da consciência
  • Necrose de tecidos (que ganham um tom escuro, por isso o apelido “fungo negro”)

Para a maioria das pessoas, o contato com um desses fungos não resulta em qualquer tipo de problema. Os casos graves se dão em pessoas que, por algum motivo, estão com um desequilíbrio no sistema imunológico um dos efeitos da covid-19. Nesses pacientes, o índice de letalidade vai de 40% a 60%, dependendo do estágio em que o problema é diagnosticado

“É uma infecção rara, não é comum de se ver”, afirmou Marise. “É um fungo oportunista, ele vai atacar pessoas que já estão com algum problema de saúde, como pessoas que estão em quimioterapia, que têm a diabetes descompensada. No caso da covid-19, os casos têm aparecido quando a pessoa está se recuperando da doença e o sistema imunológico não está muito bem reestabelecido, e ele [o fungo] vê isso como uma oportunidade de atacar.”

São quatro os tipos da doença:

  • Rinocerebral: o tipo mais comum, que atinge nariz, olhos e boca
  • Pulmonar: a segunda manifestação mais frequente, quando a infecção atinge o pulmão
  • Cutânea: quando a infecção atinge a pele do paciente
  • Gastrointestinal: quando a doença atinge o trato digestivo do indivíduo

A mucormicose não é uma doença contagiosa, e não pode ser transmitida de uma pessoa para outra. A moléstia foi identificada pela primeira vez em 1865, e desde então médicos e micólogos (pesquisadores que estudam fungos) acumularam uma ampla bagagem de conhecimento sobre ela.

Há tratamento para mucormicose, feito a partir da aplicação intravenosa de medicamentos antifúngicos. Em casos graves no qual o diagnóstico veio tardiamente é necessária a remoção cirúrgica dos tecidos afetados.

O aumento de casos na Índia

A Índia é o segundo país mais afetado pela covid-19 no mundo, tendo registrado cerca de 28 milhões de casos da doença.

O alto número de registros da covid levou a um quadro em que mais pessoas estão com o sistema imunológico comprometido e, consequentemente, mais suscetíveis à manifestações clínicas da infecção pelos fungos. O cenário é agravado pelo fato de que pacientes entubados estão recebendo medicamentos corticoides, que também abrem brechas para a mucormicose por atuarem nas defesas do corpo.

Além disso, a Índia é o segundo país com mais incidência de diabetes no mundo, doença que torna os pacientes mais suscetíveis à mucormicose.

8,9%

é a fatia da população indiana diagnosticada com diabetes

Também pesa no cenário indiano as condições de higiene de um país onde cerca de 40% da população não tem acesso a saneamento básico, o que propicia uma maior presença dos esporos do fungo.

“Esse tipo de fungo aproveita brechas”, disse ao Nexo Carlos Taborda, chefe do Laboratório de Micologia Médica do Instituto de Medicina Tropical da Universidade de São Paulo. “As condições dentro dos hospitais influenciam, as condições de higiene das cidades, os pacientes que já chegam doentes e tomam corticóides, e é aí que o fungo ataca.”

Segundo Taborda, o problema da mucormicose na Índia precede a pandemia de covid-19. “É um país que já tem um problema crônico independentemente do coronavírus. Lá, há um hábito de tomar injeções de vitaminas, mas por questões religiosas e culturais especialmente nas mulheres, que não podem mostrar muito do corpo a aplicação é feita por cima da roupa, e o fungo, que está na natureza, acaba entrando em contato com o local onde a agulha penetrou.”

Na Índia, houve 14 casos da doença a cada 100 mil pessoas em 2019, o maior percentual do mundo. No Brasil, a incidência da moléstia no mesmo ano foi de 0,2 casos a cada 100 mil indivíduos. O levantamento foi feito pelo Instituto de Pesquisa Médica de Chandigarh, na Índia.

A doença em 6 países

Incidência de fungo negro no mundo em 2019

O alto índice de mortes e de casos graves na Índia em maio também se deu pelo diagnóstico tardio na maioria dos casos quando a infecção já tinha se espalhado e pela alta demanda de medicamentos anti-fúngicos, que resultou numa escassez dos recursos necessários para o tratamento.

O governo indiano ainda não divulgou o número de mortes por mucormicose em 2021. A mídia local estima que houve pelo menos 250 óbitos apenas na última semana de maio.

Devo me preocupar?

Taborda vê o cenário indiano como algo preocupante, mas acha improvável o problema se ampliar globalmente e afetar outros países incluindo o Brasil de forma tão agressiva.

“É bem improvável termos uma epidemia de mucormicose no Brasil”, afirmou. “Não é uma doença transmissível, ela depende muito do quadro clínico do paciente e das condições de higiene, sobretudo nos hospitais. A Índia, apesar de ser tão desigual quanto o Brasil, tem um sistema completamente diferente. É altamente improvável.”

Por serem fungos presentes naturalmente nos mais diversos ambientes, são poucas as medidas preventivas possíveis.

“Não tem como você prever onde o fungo vai estar”, disse Laura Marise. “A prevenção é evitar pegar covid e dar chance para o seu sistema imunológico ficar comprometido. Pessoas que já têm o sistema imunológico comprometido já contam com medidas de prevenção, usam máscaras há mais tempo, costumam ficar em ambientes mais limpos, o que diminui a probabilidade de uma contaminação.”

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