Como a vacinação em massa impactou a pandemia em Serrana

Números de casos, internações e mortes por covid-19 despencam em cidade do interior de São Paulo que imunizou quase todos os adultos com a Coronavac, segundo resultados divulgados pelo Instituto Butantan

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O governo de São Paulo divulgou na segunda-feira (31) os primeiros resultados do projeto de imunização em massa realizado na cidade de Serrana, no interior do estado. Com o objetivo de medir a efetividade da Coronavac, vacina produzida pelo Instituto Butantan, a iniciativa reduziu de maneira expressiva os números de casos, internações e mortes por covid-19 depois de vacinar 95,7% da população adulta da cidade.

Desenvolvida pelo laboratório chinês Sinovac, a Coronavac é a vacina mais usada no Brasil – representa 63% das doses aplicadas até segunda-feira (31). O país, porém, executa a campanha nacional em ritmo lento devido à falta de doses e às dificuldades na importação de insumos da China para a produção dos imunizantes. Mais de quatro meses após o início da vacinação, só 10,42% da população havia recebido as duas doses necessárias. Apenas uma imunização ampla, como a realizada em Serrana, é capaz de barrar a circulação do vírus.

A iniciativa no interior paulista, batizada de Projeto S, indica que a vacinação em massa foi capaz de controlar a transmissão da doença em meio a um recrudescimento da pandemia na região. Cidades como a vizinha Ribeirão Preto estão à beira do colapso na saúde. O projeto também mostrou que grupos não vacinados, como as crianças, acabam se protegendo indiretamente. A seguir, o Nexo destaca as principais conclusões do estudo.

Como o projeto foi montado

Com 45.644 habitantes, dos quais 62,2% em idade adulta, Serrana foi escolhida para receber o projeto por ser uma cidade pequena, com bastante circulação de pessoas (cerca de 10 mil moradores trabalham em Ribeirão Preto, a apenas 23 km de distância, o que facilita a circulação do vírus) e por ter tido, em alguns momentos, uma alta taxa de doentes — cerca de 5% da população chegou a estar com a infecção ativa.

Os pesquisadores dividiram o município em 25 pequenas áreas, distribuídas em quatro grupos identificados pelas cores amarela, cinza, verde e azul. A vacinação começou em 17 de fevereiro pelo grupo verde, escolhido por sorteio. A cada semana, um novo grupo era vacinado. Quatro semanas após a primeira rodada, os grupos foram revacinados com a segunda dose, até a imunização completa dos adultos, que aconteceu na semana de 4 a 10 de abril.

Durante a aplicação da primeira dose, os pesquisadores aproveitaram para coletar sangue dos participantes para saber quantos já tinham se infectado anteriormente com o novo coronavírus.

25,7%

da população adulta de Serrana já tinha sido exposta ao vírus antes do início do projeto

Ampla adesão e nenhum efeito adverso

Inicialmente, a preocupação dos pesquisadores era que as pessoas que haviam recebido a primeira dose não voltassem para tomar a segunda. A proteção pela Coronavac acontece cerca de duas semanas após a imunização completa. Houve, entretanto, grande adesão ao projeto. Ao todo, 27.160 dos 28.380 adultos do município foram vacinados.

95,7%

foi a taxa de cobertura vacinal com as duas doses em Serrana entre as pessoas que podiam participar do projeto

54.882

foi o número total de doses aplicadas na cidade durante a iniciativa

Os pesquisadores registraram 67 eventos adversos graves nos participantes. Esses eventos podem ser, por exemplo, um acidente de carro com um dos vacinados. Nenhum deles, porém, foi relacionado à vacina, que se mostrou segura no estudo.

Os resultados da vacinação

Entre a aplicação da primeira e da segunda dose, quando a imunidade ainda não havia sido adquirida, foram registradas 15 internações por covid-19 entre pessoas de 60 anos ou mais. Dessas 15, cinco morreram. Entre as pessoas de 18 a 59 anos, o número de internados no mesmo período foi de 28, dos quais apenas dois morreram.

Os resultados da vacinação começaram a aparecer nos 14 dias que se seguiram à aplicação da segunda dose. Nesse intervalo de tempo, o número de internações de pessoas com 60 anos ou mais caiu para duas (com uma morte), e o de pessoas de 18 a 59 anos foi de apenas três (sem nenhuma morte).

Já no período posterior aos 14 dias da segunda dose, quando a proteção da vacina está completa, nenhum paciente com 60 anos ou mais foi internado, e apenas dois entre 18 e 59 anos acabaram hospitalizados (também sem registro de óbitos).

O estudo concluiu que, oito semanas depois do início do projeto, Serrana teve uma queda de 95% nas mortes, 86% nas hospitalizações e 80% nos casos sintomáticos, de acordo com o Butantan.

Os efeitos também ficam evidentes quando Serrana é comparada a cidades vizinhas do mesmo porte. A taxa de hospitalizações e óbitos por covid-19 a cada 100 mil pessoas ficou abaixo de 10 na cidade. Na cidade de Brodowski, por exemplo, está em 20. Em Cravinhos e Jardinópolis, ultrapassa 30.

A cidade continuará sendo monitorada pelos pesquisadores por um ano. O objetivo é analisar o efeito da vacina a longo prazo.

Os dados preliminares divulgados pelo Butantan na segunda-feira (31) não foram detalhados — o instituto alegou que eles ainda serão publicados na forma de um estudo, o que permitirá a revisão dos resultados por outros pesquisadores. No final de 2020, ao divulgar a eficácia da Coronavac, o governo de São Paulo foi acusado de selecionar números que passavam a ideia de que o desempenho da vacina era maior do que o que realmente foi obtido. Na época, o governador João Doria travava uma disputa política com o presidente Jair Bolsonaro em torno do imunizante.

A proteção indireta

Um dos efeitos observados pelos pesquisadores foi que o impacto da vacinação começou a ser sentido antes mesmo de a campanha acabar. Quando 75% dos adultos estavam imunizados, os números da doença já tinham começado a cair, o que indica que a chamada imunidade coletiva já pode ser alcançada a partir dessa porcentagem de cobertura vacinal — a taxa, porém, é válida apenas para Serrana, e não seria a mesma, por exemplo, numa cidade como São Paulo, segundo os pesquisadores. A capital tem uma dinâmica completamente diferente, com a vacinação concentrada no centro e escassa nas periferias.

A proteção atingiu ainda pessoas que não receberam a vacina (adolescentes menores de 18 anos, crianças e adultos que não puderem ser vacinados por problemas de saúde). Os números de casos e internações caíram entre esses grupos, acompanhando a tendência entre os vacinados.

“O fato de as pessoas estarem vacinadas reduz também o número de casos entre aqueles que não foram vacinados. Essa é a evidência da proteção indireta que tem sido também chamada de imunidade de rebanho, mas eu prefiro usar o termo imunidade indireta, porque quem recebe a vacina também está ajudando a proteger o outro”

Ricardo Palacios

diretor médico de pesquisa clínica do Instituto Butantan, durante anúncio dos resultados do Projeto S, na segunda-feira (31)

Segundo o diretor médico de pesquisa clínica do Instituto Butantan, Ricardo Palacios, durante o anúncio dos resultados, vacinar os adultos cria uma espécie de “barreira de proteção”, um “casulo sobre as crianças”. Isso mostraria, de acordo com o pesquisador, que não será necessário vacinar as crianças para poder retomar as atividades escolares, por exemplo.

O projeto também indica que a vacinação, por si só, consegue controlar a doença sem a necessidade de fechar a cidade — cerca de um quarto dos moradores continuou se deslocando diariamente para Ribeirão Preto, o que não interferiu nos resultados.

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