Quais as evidências de que há um ministério paralelo na Saúde

Depoimentos à CPI e documentos entregues pelo próprio governo aos senadores mostram que grupo se reunia com presidente para discutir estratégia de enfrentamento à pandemia sem passar por pasta

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Documentos e depoimentos coletados pela CPI da Covid no Senado fortalecem a tese de que o presidente Jair Bolsonaro se aconselhava com um “Ministério da Saúde paralelo” para tomar decisões que estão na contramão do que pregam autoridades de saúde em todo o mundo em relação ao combate à pandemia do novo coronavírus.

A falta de uma coordenação pelo governo federal de uma política nacional de enfrentamento à doença, as manifestações do presidente contra o uso de máscara, o isolamento social e as vacinas e a aposta em remédios ineficazes são apontados como fatores responsáveis por tornar o Brasil um exemplo de má gestão da crise sanitária. O país está entre os primeiros em números de casos e mortes pela covid-19.

As ações e omissões do governo são investigadas na CPI pelos senadores, que já reuniram provas de que Bolsonaro se encontrou com assessores do chamado “gabinete do ódio”, que realiza ataques virtuais a adversários, e com médicos bolsonaristas para tratar da pandemia. A seguir, o Nexo lista os principais indícios que apontam para a existência de um aconselhamento paralelo na saúde que contribuiu para o descontrole da covid-19 no Brasil.

As denúncias de Mandetta

O primeiro a revelar a existência de um grupo de pessoas fora do Ministério da Saúde que aconselhava o presidente no combate à covid-19 foi o ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta. Ele foi demitido do cargo em abril de 2020 por se opor à conduta do presidente em relação à doença. Mandetta cita o aconselhamento paralelo em seu livro, “Um paciente chamado Brasil: Os bastidores da luta contra o coronavírus”, lançado no final de 2020.

Segundo ele, Bolsonaro fez o discurso em que chama a covid-19 de “gripezinha” em rede nacional, em março de 2020, sem ter ouvido seus ministros ou qualquer técnico que conhecesse a doença. “Ele fez aquele discurso se baseando apenas nas opiniões dos filhos e de seu entorno”, escreveu.

Mandetta afirma que os principais conselheiros do presidente eram os irmãos Abraham e Arthur Weintraub (ex-ministro da Educação e ex-assessor especial da Presidência, respectivamente) e seus filhos, em especial o vereador no Rio de Janeiro Carlos Bolsonaro (Republicanos). O deputado federal Osmar Terra (MDB-RS) e a médica Nise Yamaguchi também eram ouvidos pelo presidente, de acordo com o ex-ministro.

“Bolsonaro passou a buscar também a assessoria de outras pessoas para se contrapor aos dados e à estratégia do Ministério da Saúde. Chamou o Osmar Terra e a médica Nise Yamaguchi, defensora da cloroquina como remédio salvador contra a covid-19, para uma conversa. O Palácio do Planalto começou a ser frequentado por médicos bolsonaristas”

Luiz Henrique Mandetta

ex-ministro da Saúde, no livro “Um paciente chamado Brasil”

Tese ganha força CPI

Ao ser ouvido como testemunha na CPI, no começo de maio, Mandetta voltou a falar sobre o assunto. A tese ganhou força e os senadores passaram a investigar a existência de um aconselhamento paralelo.

Mandetta disse ter testemunhado diversas vezes reuniões ministeriais em que Carlos Bolsonaro estava presente, “sentado atrás tomando as notas da reunião”. “Eles tinham constantemente reuniões com esses grupos dentro da Presidência”, disse.

Segundo a ser ouvido, o ex-ministro Nelson Teich, que ficou menos de um mês no comando da Saúde, disse desconhecer a existência de um ministério paralelo, mas alguns episódios durante sua gestão indicam que nem todas as decisões passavam pela pasta.

Um desses momentos aconteceu em maio. Teich participava de uma entrevista com jornalistas quando foi informado pela imprensa de que Bolsonaro havia ampliado a lista de atividades consideradas essenciais na tentativa de enfraquecer as medidas de isolamento social. “Isso aí não é... Não passou, não é atribuição nossa”, respondeu o ministro, deixando claro que não sabia da decisão.

Ele também revelou que sua demissão se deu por uma interferência externa, por meio de uma tentativa de ampliar o uso da cloroquina no combate à covid-19, decisão que também não passou pelo ministro.

“Foi justamente eu não ter tido autonomia de ter tido um desejo dele de estender o uso da cloroquina. Se existiu alguma tentativa de interferência, pode ter sido essa”

Nelson Teich

ex-ministro da Saúde, ao explicar na CPI porque decidiu pedir demissão

Negociações por fora

Os depoimentos do ex-chefe da Secom (Secretaria Especial de Comunicação Social) Fabio Wajngarten e do gerente-geral da Pfizer na América Latina, Carlos Murillo, também revelaram aos senadores que as decisões sobre as políticas de Saúde eram discutidas sem passar pelos responsáveis pela área no governo federal.

Wajngarten admitiu ter procurado a Pfizer para tratar da aquisição de vacinas porque o Ministério da Saúde não havia respondido uma carta da empresa com a oferta dos imunizantes. As conversas ocorreram por fora da pasta que tinha como obrigação fazer as negociações.

Ao ser questionado pelos senadores, o ex-secretário de Comunicação negou que se encontrasse com os filhos do presidente. Mas o gerente da farmacêutica confirmou à CPI que Carlos Bolsonaro esteve em uma das reuniões da Pfizer com o governo federal na companhia de Filipe Martins, assessor internacional da Presidência. O filho do presidente é vereador no Rio e não ocupa nenhum cargo no governo federal.

“Fabio recebe uma ligação, sai da sala e retorna para a reunião. Minutos depois, entram na sala de reunião Filipe Garcia Martins, assessor internacional da Presidência da República, e Carlos Bolsonaro. Fabio explicou a Filipe Garcia Martins e a Carlos Bolsonaro os esclarecimentos prestados pela Pfizer até então na reunião. Carlos ficou brevemente na reunião e saiu da sala. Filipe Garcia Martins ainda permaneceu na reunião”

Carlos Murillo

gerente-geral da Pfizer na América Latina, em depoimento à CPI

Ministros não consultados

O atual ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, também foi questionado por senadores durante seu depoimento à CPI sobre a existência de um ministério paralelo, mas negou saber do tema.

O relator da comissão, Renan Calheiros (MDB-AL), questionou o ministro sobre a ameaça feita por Bolsonaro de editar um decreto para proibir que Estados e municípios restrinjam a circulação de pessoas por meio de toques de recolher ou lockdowns. Uma decisão do Supremo Tribunal Federal, de abril de 2020, deu autonomia a governadores e prefeitos para adotar suas próprias medidas.

“Não estou participando da elaboração desse decreto, nem fui consultado sobre o tema”, respondeu Queiroga. Para Calheiros, o episódio indicava a existência de um aconselhamento paralelo.

“É mais uma ação na área de enfrentamento da covid que se anuncia no Palácio [do Planalto], e não se informa sequer o Ministro da Saúde”

Renan Calheiros

relator da CPI da Covid, sobre as decisões do governo sem consulta à pasta da Saúde

A coordenação do ministério paralelo

No sábado (22), o jornal Metrópoles recuperou vídeos com falas do ex-assessor de Bolsonaro Arthur Weintraub em que ele indica que atuava como uma espécie de coordenador do ministério paralelo.

Em abril de 2020, ao participar de uma transmissão online com o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), Weintraub afirmou ter começado a ler artigos científicos sobre a covid-19 a pedido do presidente.

“Falei pra ele [Bolsonaro]: cloroquina tá funcionando, já tem resultado. Passei pra ele os estudos, ele lê. Eu passo no zap e depois tá impresso na mesa dele”

Arthur Weintraub

ex-assessor de Bolsonaro, durante uma live em abril

Já em agosto de 2020, durante um evento no Palácio do Planalto, o então assessor de Bolsonaro disse em discurso ter começado a entrar em contato com médicos que defendem a cloroquina ainda em fevereiro. Na ocasião, um desses médicos, o anestesiologista Luciano Dias Azevedo, agradece Weintraub por ter sido procurado e por ter começado a “unir os grupos de médicos para estudar a doença e pesquisar soluções”.

As reuniões do grupo

Documentos obtidos pela CPI mostram que o governo realizou ao menos 24 reuniões para tratar do combate à pandemia com a participação de pessoas apontadas como integrantes do ministério paralelo. Todas ocorreram no Palácio do Planalto ou no Palácio da Alvorada, onde vive o presidente. O presidente não esteve no encontro em apenas seis ocasiões.

Os documentos foram enviados pelo governo à CPI após solicitação de informação. São citados os nomes de Osmar Terra, Fabio Wajngarten, Nise Yamaguchi e do o assessor especial da Presidência Tercio Arnaud, que integra o chamado gabinete do ódio.

Terra participou de ao menos 11 encontros. Ele costuma minimizar a gravidade da pandemia e defender a tese de imunidade de rebanho, estágio a partir do qual o vírus para de circular porque uma quantidade significativa de pessoas já se infectou — a situação implica um alto número de mortes.

Em ao menos cinco reuniões, participaram também os filhos do presidente Carlos e Flávio Bolsonaro (sem partido-RJ) para discutir os pedidos de apoio de governadores para o enfrentamento da crise sanitária. Os nomes citados como conselheiros do presidente, como Terra e Yamaguchi, devem ser ouvidos na CPI.

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