Os EUA entre o nacionalismo e a diplomacia da vacina

O ‘Nexo’ ouviu pesquisadores das áreas epidemiológica, diplomática e econômica para entender os fatores em jogo no anúncio de Biden sobre doação de imunizantes

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O presidente americano Joe Biden anunciou, no dia 17 de maio, que pela primeira vez os EUA doariam a outros países vacinas contra a covid-19 já aprovadas para uso doméstico. São 20 milhões de doses dos imunizantes da Pfizer, Moderna e Johnson & Johnson que serão distribuídas em cooperação com o consórcio internacional Covax Facility, da OMS (Organização Mundial da Saúde).

Essa remessa se soma a outra doação, anunciada em abril, de 60 milhões de doses da vacina AstraZeneca — cujo uso ainda não foi liberado pelas autoridades sanitárias dos Estados Unidos. “Nossa nação será o arsenal de vacinas para o mundo”, disse Biden.

A decisão responde à pressão crescente de organizações multilaterais por uma distribuição mais igualitária dos imunizantes entre os países. O diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom, há meses critica o nacionalismo de países ricos, que tiveram vantagem nas negociações com farmacêuticas pela compra de vacinas. Os EUA asseguraram uma quantidade de doses três vezes maior do que o necessário para vacinar toda a sua população.

“Os países de alta renda respondem por 15% da população mundial, mas têm 45% das vacinas, e os de rendas média e baixa somam quase metade da população, mas recebem apenas 17% das vacinas mundiais, então a lacuna é realmente enorme”

Tedros Adhanom

diretor-geral da OMS, em pronunciamento do dia 17 de maio

Nesse contexto, as 80 milhões de doses doadas pelos EUA foram vistas por ativistas e pesquisadores da área da saúde como uma primeira contribuição importante, mas ainda insuficiente. Em discurso do dia 24 de maio, Adhanom disse que 250 milhões de doses serão necessárias para que o Covax possa vacinar ao menos 10% da população de todos os países do mundo até setembro.

11 bilhões

de doses serão necessárias para vacinar 70% da população mundial e alcançar a imunidade coletiva, segundo estimativa da Universidade de Duke, nos EUA

Os EUA são o segundo maior fabricante de vacinas contra a covid-19, mas até maio não tinham compartilhado nem 1% das doses produzidas no país com o resto do mundo — em contraste com China, Índia e Rússia, que se tornaram importantes fornecedores do produto a nível global, exportando grande parte da sua produção.

Quase 40% da população americana já recebeu duas doses da vacina, e o presidente Joe Biden espera chegar a 70% de cobertura vacinal até 4 de julho, dia da independência dos EUA. O país liberou a vacinação de pessoas fora dos grupos de risco, inclusive para crianças entre 12 e 15 anos, e vem relaxando medidas de proteção contra o novo coronavírus, como o uso de máscaras em ambientes abertos.

Outros lugares do mundo, como Brasil e Índia, têm registrado em 2021 os maiores índices de mortes por covid-19 desde o começo da pandemia. Segundo a OMS, o número global de mortes pela doença registradas neste ano deve superar em junho o total de 2020.

O Nexo ouviu pesquisadores das áreas econômica, diplomática e epidemiológica sobre os principais fatores que influenciam a atuação dos EUA na cooperação internacional pela imunização.

O risco de uma pandemia prolongada

Um fracasso na campanha internacional de imunização contra a covid-19 representaria o prolongamento da crise sanitária global. Esse é o alerta da OMS para países ricos mais avançados na vacinação: “A pandemia não vai terminar até que tenha terminado em todos os lugares”, disse Tedros Adhanom.

A transmissão desenfreada do vírus em lugares vulneráveis aumenta o risco de surgimento de novas variantes, mais contagiosas e possivelmente mais resistentes à vacinação — problema que pode ameaçar também a imunidade de países ricos.

Para a médica epidemiologista Ana Maria de Brito, que é pesquisadora da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz) e professora aposentada da Universidade de Pernambuco, priorizar só a vacinação nos EUA “não garante um controle sanitário do país num mundo em que vivemos com setores conectados internacionalmente, como comércio e turismo”.

Brito ecoa o pedido da OMS para que se vacinem primeiro os grupos mais vulneráveis à doença de todos os países, e que só depois se ampliem os esforços de imunização a outros grupos.

Por outro lado, a decisão dos EUA de liberar a vacinação para praticamente toda a população faz parte de um plano de comunicação contra a hesitação vacinal, afirma Adriano Massuda, médico sanitarista e professor da FGV (Fundação Getulio Vargas).

Hoje, um dos maiores desafios que o país enfrenta na sua campanha doméstica de imunização é o convencimento dos americanos que ainda relutam em tomar a vacina. A oferta do produto já supera a demanda em alguns estados. “Os governos precisam lançar mão de várias iniciativas de ênfase da necessidade da vacinação”, diz Massuda. “Entre essas iniciativas, inclui-se a vacinação de grupos não prioritários, como estratégia de motivação”.

Os interesses diplomáticos em jogo

Joe Biden assumiu a Presidência dos EUA com a promessa de retomar a tradição americana de liderança na diplomacia internacional. Ele demarcou um contraste com seu antecessor, o republicano Donald Trump, que abandonou acordos multilaterais e ameaçou retirar o país da OMS durante a pandemia.

Em seu primeiro discurso sobre política externa na Casa Branca, Biden prometeu fazer frente ao autoritarismo das potências rivais dos EUA, Rússia e China. Os dois países saíram na frente nos esforços internacionais de imunização contra a covid-19, e há meses exportam milhões de imunizantes a outras nações. A chamada “diplomacia da vacina” é vista como uma oportunidade de expandir a influência a nível global.

Segundo Carolina Moehlecke, professora e pesquisadora de relações internacionais na FGV, o autoritarismo dos governos russo e chinês explica por que esses países conseguiram tomar a decisão impopular de investir na exportação antes de vacinar suas próprias populações.

Nos EUA, Biden corria mais risco político como presidente recém-eleito de uma nação polarizada, acredita a professora. Ele precisou primeiro alcançar um ponto mais avançado na imunização doméstica, e agora tenta correr atrás no jogo diplomático. “É importante notar a ênfase que ele dá na doação [das 80 milhões de doses]”, disse Moehlecke. “Porque até agora o grande fornecedor de vacinas do mundo é a China. O Biden está sinalizando: não estamos só exportando, estamos realmente doando”.

Ao anunciar a doação das 20 milhões de doses já aprovadas para uso doméstico, o presidente americano afirmou que os EUA não usarão suas vacinas para “garantir favores de outros países”, como China e Rússia estariam fazendo.

Na análise de Paulo Buss, ex-presidente e atual coordenador do Centro de Relações Internacionais em Saúde da Fiocruz, China e EUA “têm a mesma perspectiva: [a diplomacia da vacina] abre espaço para o comércio”. “Ninguém é ingênuo na arena internacional”, disse ao Nexo.

A importância da vacina para a economia

Com o avanço das vacinações, o relaxamento de medidas de controle da covid-19 e a reabertura do comércio, a economia dos EUA mostra sinais de forte recuperação em 2021. A desigualdade na distribuição dos imunizantes entre os países, no entanto, é um obstáculo à retomada econômica mundial, segundo relatório de maio da ONU.

Esse problema também interfere no comércio exterior dos EUA. “Os países mais pobres exportam produtos tipo commodity e importam produtos industrializados americanos”, disse Leonardo Trevisan, professor de geoeconomia internacional na ESPM (Escola Superior de Propaganda e Marketing). “Essas relações de troca são muito importantes e os EUA têm consciência disso”.

Contudo, esse fator por si só não é suficiente para estimular uma maior cooperação americana na vacinação internacional, na visão de Simão Silber, presidente do conselho curador da Fipe (Fundação de Pesquisas Econômicas). “O EUA é um país tão grande que, se o mundo desmoronar, ele sofre um pouquinho, mas não muita coisa. Eles são muito autossuficientes”, disse ao Nexo.

Do outro lado, existe também a pressão da indústria farmacêutica americana, que espera lucrar com a venda de vacinas. O setor foi prejudicado quando Biden tomou a decisão histórica de apoiar a quebra de patente dos imunizantes em negociações na OMC (Organização Mundial do Comércio).

Trevisan enxerga esse gesto como uma “jogada de mestre” – um aceno diplomático importante, mas vazio. “Biden quis chegar atrasado na disputa pela hegemonia internacional e sentar na janelinha”, afirma o professor. Na sua análise, a quebra de patente é um passo muito pequeno em relação aos obstáculos logísticos que ainda precisam ser superados para que outros países consigam produzir as suas próprias vacinas.

Para o segundo semestre de 2021, com o avanço da imunização nos EUA e na Europa, Trevisan antecipa uma forte disputa pelo mercado dos imunizantes. “Nós temos na verdade três grandes produtores: China, Índia e EUA. Aparentemente, a indústria americana, quando jogar toda a sua força, vai sair na frente”.

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