Como foi o protesto nacional da oposição contra Bolsonaro

Diante de desgaste do presidente e apesar de riscos sanitários, manifestações reúnem milhares de pessoas em todos os estados do país

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    Milhares de pessoas foram às ruas no sábado (29) em todos os estados e no Distrito Federal para protestar contra o governo de Jair Bolsonaro. Em São Paulo, num dos maiores atos do país, manifestantes ocuparam a avenida Paulista. Em Recife, o protesto foi dispersado com violência pela Polícia Militar, numa ação que será investigada por determinação do governo estadual.

    Os manifestantes condenaram as ações do governo federal na pandemia que já matou mais de 460 mil pessoas no país, defenderam o impeachment do presidente e, entre outras pautas, pediram a aceleração da vacinação e a volta do auxílio emergencial de R$ 600. Participantes também carregaram cartazes contra a fome e a violência policial, queimaram bonecos com o rosto de Bolsonaro e relembraram vítimas da covid-19 como o humorista Paulo Gustavo.

    Organizados por centrais sindicais, partidos de esquerda e pelos movimentos Povo sem Medo, Brasil Popular e Coalizão Negra por Direitos, os protestos são a maior articulação presencial da oposição contra o governo desde o início da pandemia de covid-19, que tornou aglomerações um risco sanitário. Enquanto o presidente com frequência participa de atos de apoiadores, a maior parte dos seus críticos até agora havia limitado seus protestos a panelaços e campanhas nas redes sociais.

    O momento em que as manifestações ocorrem

    A oposição tenta aproveitar um momento de desgaste do presidente, que tem sua gestão na pandemia investigada por uma CPI no Senado e enfrenta uma queda inédita na aprovação.

    Na primeira metade de maio de 2021, o governo Bolsonaro atingiu seu menor índice de “ótimo e bom” do mandato, segundo a série de pesquisas do Instituto Datafolha. Na mais recente, publicada em 12 de maio, apenas 24% dos entrevistados classificaram sua gestão dessa forma. Já o índice daqueles que consideram seu governo “ruim ou péssimo” é o mais alto: 45%.

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    No eixo vertical, percentuais de aprovação. No eixo horizontal, datas de 2019 a 2021

    Ficar abaixo da casa dos 30% de “ótimo e bom” é uma novidade para Bolsonaro, que vinha garantindo um piso de apoio nesse patamar no Datafolha mesmo durante a pandemia de covid-19. O resultado mostra que o apoio mais fiel ao presidente cedeu pela primeira vez.

    A pesquisa foi feita durante a segunda semana de funcionamento da CPI da Covid no Senado, que tem colocado em evidência as omissões e o negacionismo do governo federal na crise sanitária.

    Os depoimentos até agora reforçam que atitudes de membros do governo contribuíram para o atraso na vacinação e para a condução descoordenada do combate à doença no país. A CPI tem dominado o debate público e mobilizado nas redes sociais mesmo quem não costuma acompanhar o noticiário político.

    As manifestações da oposição também procuram fazer frente a mobilizações recentes de bolsonaristas. Em 1º de maio, dia que normalmente reúne centrais sindicais e grupos de esquerda para celebrar o Dia do Trabalhador, protestos a favor do governo e contra medidas de restrição foram registrados em várias capitais.

    Para o cientista político Marco Antônio Teixeira, professor da Fundação Getulio Vargas, os atos de sábado (29) podem marcar um passo importante de reorganização da oposição contra Bolsonaro.

    “Os atos de hoje, mesmo em contexto de pandemia, mas com todos usando máscaras, representam um novo patamar na luta por vacina e na defesa da democracia. É um salto importante para conter a tentação autoritária”, escreveu no Facebook.

    Professor do curso de gestão de políticas públicas da USP, Pablo Ortellado considerou que “o tamanho da mobilização Brasil afora ressuscita a tese do impeachment cujas esperanças pareciam enterradas politicamente”. No seu perfil do Twitter, ele reforçou, porém, que para um processo de impedimento avançar seria “preciso romper muitas barreiras”.

    Na rede social, os protestos mobilizaram cerca de 200 mil usuários, que trocaram mais de 1,8 milhão de tuítes, segundo monitoramento do pesquisador da Universidade Federal do Espírito Santo Fabio Malini. A grande maioria era a favor dos protestos.

    Entre as mensagens de bolsonaristas de maior engajamento estavam postagens minimizando o tamanho dos protestos antigoverno e acusando os participantes de hipocrisia por irem às ruas na pandemia.

    O dilema de ocupar as ruas na pandemia

    A convocação dos atos foi marcada pelo dilema entre assumir os riscos de provocar aglomerações em meio a um novo agravamento da pandemia e a necessidade de manifestar oposição de forma mais contundente ao governo justamente por causa da crise sanitária. A frase “Bolsonaro é pior que o vírus” estampou cartazes e postagens nas redes no sábado (29).

    Enquanto os protestos da oposição são permeados por esse debate, apoiadores do governo mantêm manifestações constantes. Elas são marcadas por pedidos de ruptura institucional e negacionismo contra a gravidade da pandemia. Bolsonaro costuma prestigiá-las sem usar máscara.

    Organizadores da oposição se esforçaram para diferenciar as manifestações dos atos bolsonaristas, que geralmente são alvo de fortes críticas de opositores.

    “Se você olhar em volta, vai ver todas as pessoas de máscara. Não há nenhum tipo de comparação entre essa manifestação e aquelas promovidas pelo Bolsonaro, baseadas no negacionismo”, disse no sábado (29) Guilherme Boulos, um dos coordenadores da frente Povo sem Medo e pré-candidato pelo PSOL ao governo de São Paulo. Ele participou do ato na avenida Paulista.

    O uso de máscara teve ampla adesão nos protestos, conforme mostram fotos dos atos e relatos de participantes e jornalistas. Em alguns lugares, como São Paulo, houve distribuição de unidades do tipo PFF2, considerado mais seguro contra a covid-19. Apesar de tentativas de manter distanciamento entre participantes, em várias cidades, em especial as que reuniram mais gente, houve pontos de aglomeração.

    A violência no protesto em Recife

    Os atos pelo Brasil ocorreram majoritariamente de forma pacífica. Na capital pernambucana, o protesto foi encerrado após forças policiais avançarem contra a multidão, usando bombas de gás lacrimogêneo e balas de borracha para dispersar os manifestantes. O ato ocorria sem qualquer registro de violência até então.

    Um vídeo mostra um policial lançando spray de pimenta no rosto da vereadora Liane Cirne (PT), após a parlamentar se aproximar de uma viatura para falar com os agentes. A OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) estadual condenou a “pressão absolutamente desproporcional”.

    A vice-governadora de Pernambuco, Luciana Santos (PCdoB), afirmou que a ação da Polícia Militar no protesto não havia sido autorizada pelo governo estadual. O governador Paulo Câmara (PSB) disse que uma apuração foi instaurada pela Corregedoria da Secretaria de Defesa Social.

    “O oficial comandante da operação, além dos envolvidos na agressão à vereadora Liana Cirne, permanecerão afastados de suas funções enquanto durar a investigação”, disse o governador nas suas redes sociais.

    Por lei, a Polícia Militar, assim como a Civil, é uma instituição subordinada ao Executivo estadual. Casos de insubordinação e tensões entre governadores e forças policiais, porém, têm se repetido no país. As polícias são uma forte base de apoio ao presidente Jair Bolsonaro, alvo dos protestos de sábado (29). Em manifestações pró-Planalto, são raras situações de repressão contra participantes.

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