Por que importa vacinar rápido quem tem doenças crônicas

Pessoas com condições como diabetes e hipertensão estão nas prioridades do Plano Nacional de Imunização. Mais jovens enfrentam estigma de ‘fura-fila’ e têm dificuldade de acessar doses 

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    Com o avanço da vacinação de brasileiros com comorbidades, doenças que aumentam o risco de quadro grave da covid-19, pessoas inseridas nesse grupo relatam ter dificuldades para se imunizar, seja por falta de informações, por obstáculos para obter atestados ou por viverem constrangimentos.

    Em depoimentos nas redes sociais e reportagens publicadas na imprensa, pessoas que dizem fazer parte do grupo de risco, sobretudo jovens, contam que são acusadas de forjar a doença ou de se aproveitar de sua condição clínica de má fé, já que aparentemente vivem com qualidade de vida. Com culpa, alguns pensam se de fato deveriam se imunizar.

    Embora existam suspeitas legítimas de fraude de atestados apuradas pelo poder público, o número de brasileiros com doenças que podem agravar o quadro da covid-19 é, de fato, tão alto quanto a quantidade de novos vacinados parece mostrar, segundo pesquisas sobre a incidência de doenças no país.

    O grupo de pessoas com comorbidades é o mais numeroso do Plano Nacional de Imunização contra a covid-19 do Ministério da Saúde. Inclui, na maioria, quem tem doenças crônicas, como doenças cardiovasculares, diabetes, hipertensão (alguns tipos), obesidade mórbida e doenças renais. Estudos mostram que portar uma doença crônica pode aumentar em até três vezes o risco de morte por covid-19 e ampliar as chances de desenvolvimento de sequelas.

    18 milhões

    é, em média, o número de pessoas com comorbidades incluídas no grupo prioritário do Plano Nacional de Imunização contra a covid-19, número não conta idosos com comorbidades, já vacinados

    O Nexo mostra o quadro de vacinação em pessoas com comorbidades, por que a incidência de doenças crônicas no Brasil é tão alta e como a pandemia agrava o problema no Brasil.

    Qual o quadro da vacinação

    Em sua sétima versão, o Plano Nacional de Imunização contra a covid-19 elenca mais de 20 tipos de doenças no grupo prioritário de comorbidades, que inclui, além de pessoas com doenças crônicas, indivíduos com condições como deficiência permanente ou que vivem com HIV.

    Por isso, o plano do governo federal dividiu a vacinação de pessoas com comorbidades em duas fases, sugerindo prioridades. Os estados e municípios, porém, têm autonomia para adotar o calendário proposto pelo Ministério da Saúde ou fazer alterações nos grupos prioritários, adotando suas próprias regras.

    Em São Paulo, por exemplo, a vacinação de pessoas com comorbidades segue critérios de idade — vacinam-se primeiro os mais velhos —, enquanto a cidade de Florianópolis permite a imunização a partir dos 18 anos, desde que a pessoa apresente exame, receita ou relatório médico que descreva sua doença.

    A presidente da Abrasco (Associação Brasileira de Saúde Coletiva), Gulnar Azevedo, afirmou ao Nexo que a vacinação é um direito, e quem tem comorbidades deve buscar garanti-lo, mesmo que se considere “jovem demais” para ser vacinado — no caso de quem vive em lugares que permitem sua imunização — ou tenham qualidade de vida.

    “O ideal seria que vacinássemos todo mundo, o mais rapidamente possível”, disse. “Com a escassez de imunizantes, a decisão sobre as prioridades [dentro do grupo das comorbidades] cabe ao poder público, não ao médico ou aos indivíduos. A vacina não é uma ferramenta individual, mas coletiva.”

    Com mais pessoas imunizadas, mais rápido o país deve chegar às metas de cobertura vacinal, o que contribui para a imunidade de toda a população, segundo a professora. Enquanto não há mais vacinas, o país segue com um ritmo de imunização lento, segundo dados de consórcio de veículos de imprensa.

    43,9 milhões

    de brasileiros, ou 20,7% da população, receberam a primeira dose da vacina contra a covid-19 até quinta-feira (27), segundo dados de consórcio de veículos de imprensa

    O que são as doenças crônicas

    Chamadas também pela sigla DCNT, doenças crônicas não transmissíveis são disfunções de longa duração, que se desenvolvem no decorrer da vida e podem surgir em qualquer idade, dependendo do grau de exposição das pessoas aos fatores de risco, segundo verbete publicado no Nexo Políticas Públicas.

    As doenças crônicas são vistas como o principal problema de saúde da atualidade, por causarem um grande número de mortes prematuras, afetarem a qualidade de vida de quem acometem e terem impacto econômico para a sociedade e os sistemas de saúde, de acordo com a Pesquisa Nacional de Saúde de 2019.

    As principais doenças crônicas são as doenças cardiovasculares (como hipertensão, doenças isquêmicas do coração, entre outras), os cânceres (de mama, de colo do útero, de próstata, entre outros), as doenças respiratórias crônicas (como asma) e a diabetes, segundo dados da OMS (Organização Mundial da Saúde).

    75%

    das mortes registradas em 2019 foram causadas por doenças crônicas, segundo a OMS; no Brasil, elas causaram 78% dos óbitos de pessoas com menos de 70 anos

    As doenças crônicas têm causas multifatoriais. O aumento de sua incidência está ligado a um processo de transição epidemiológica: enquanto os casos de doenças infecciosas (como sarampo e tuberculose) vêm caindo, essas enfermidades passaram a causar a maior parte dos problemas de saúde.

    Em 2019, 52% dos brasileiros com 18 anos ou mais disseram ter recebido diagnóstico de pelo menos uma doença crônica, segundo a Pesquisa Nacional de Saúde realizada pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

    23,9%

    dos brasileiros com mais de 18 anos disseram ter hipertensão em 2019, segundo a Pesquisa Nacional de Saúde

    7,7%

    dos brasileiros com mais de 18 anos disseram ter diabetes em 2019, segundo a Pesquisa Nacional de Saúde

    5,3%

    dos brasileiros com mais de 18 anos disseram ter alguma doença do coração em 2019, segundo a Pesquisa Nacional de Saúde

    A incidência de doenças crônicas é sensível à idade, segundo a pesquisa do IBGE. Enquanto 2,8% dos brasileiros de 18 a 29 anos tinham hipertensão em 2019, 62,1% da população com mais de 75 anos havia recebido o mesmo diagnóstico. Com tratamento, a maioria consegue conviver com a doença e ter qualidade de vida.

    Por que a incidência é tão grande

    As doenças crônicas são causadas por diferentes fatores de risco, como chamam estudos médicos. Enquanto alguns fatores não são modificáveis (como a idade e a hereditariedade), outros estão ligados ao estilo de vida, como má alimentação, sedentarismo, tabagismo e consumo de álcool e outras drogas.

    Os fatores de risco ligados aos hábitos estão na base das principais doenças desse tipo. Cerca de 8 milhões de pessoas no mundo morrem todos os anos por causa do consumo do tabaco, e 2,6 milhões morrem por estarem acima do peso ou serem obesas, segundo relatório da OMS.

    Embora as pessoas sejam responsáveis por sua saúde, a decisão individual não é o principal determinante para a incidência de doenças crônicas, “já que as dinâmicas sociais nos expõem aos fatores de risco”, disse ao Nexo Arthur Arguile, coordenador de políticas públicas do Ieps (Instituto de Estudos para Políticas de Saúde).

    “Nosso modelo de sociedade é muito propício para haver essas doenças”, segundo Paula Johns, presidente da ACT Promoção em Saúde. “Somos expostos à poluição do ar, incentivados a nos alimentar com ultraprocessados, a consumir álcool, a não fazer atividades físicas”, explicou ao Nexo.

    Os fatores de risco para a incidência de doenças crônicas também variam conforme o contexto socioeconômico, segundo a Pesquisa Nacional em Saúde. Características como educação, ocupação, renda, gênero e raça/cor têm correlação com a prevalência dessa condição em populações mais vulneráveis.

    “Escolhas saudáveis são difíceis de serem feitas, ou são elitizadas”, disse Johns ao Nexo. A presidente da Abrasco, Gulnar Azevedo, apontou que populações mais pobres têm menos acesso à alimentação saudável e a atividades físicas, por exemplo.

    Como a pandemia agrava o problema

    Além de os portadores de doenças crônicas estarem mais sujeitos à morte na pandemia, o fato de serem mais suscetíveis a sequelas tem o potencial de sobrecarregar o sistema de saúde nos próximos anos.

    A combinação entre a covid-19 e a epidemia de doenças crônicas levou cientistas a criarem um novo conceito para definir a atual crise de saúde: segundo eles, o mundo não vive uma pandemia, mas uma sindemia, em que o novo coronavírus não atua sozinho, mas compactua com essas outras doenças.

    “A agregação [...] exacerba os efeitos adversos de cada doença separada”, escreveram cientistas em artigo para a revista The Lancet em 2020. “A natureza sindêmica da ameaça que enfrentamos significa ser necessária uma abordagem mais diversificada se quisermos proteger a saúde de nossas comunidades.”

    Estudos apontam que os fatores de risco das doenças crônicas podem ser reduzidos com ações multissetoriais de prevenção. Em lugares como o Brasil, porém, a resposta ao problema ainda é inadequada. “Existe o desafio de criar um sistema de saúde que foque mais em saúde, não só em doença”, segundo Arguile.

    Para Paula Johns, faltam também ações na área de regulação e de comunicação para incentivar a adoção de hábitos saudáveis. Entre os exemplos bem-sucedidos, está a política contra o tabagismo, que regulou a venda do cigarro. Segunda ela, o mesmo poderia ser feito em relação aos alimentos ultraprocessados.

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